sábado, 23 de junho de 2018

chegámos demasiado tarde ao coreto / da vida

A Que Distância Deixaste o Coração - José Tolentino Mendonça 

Que chegámos demasiado tarde ao coreto
da vida para sonhos e cantigas de libertação
revulsionária, percebemo-lo aos vinte anos;
que justiça é uma jura redigida em esperanto
e a lei o duro eixo onde circula o privilégio,
percebemo-lo depois, muito a contragosto.

Resta-nos perder a última ilusão: a de que haja
ainda espaço nesta feira popular da mediocracia
para uma escrita que não seja celebração
do estridente carrossel publicitário,
dos económicos carrinhos de choque,
da barraca de tiro em que fazemos de patos.
Quando percebermos também isto, saberemos
que a Gloriosa Era da Literatura Ocidental
chegou ao fim, derretida (como sugere
o seu acrónimo) pelo aquecimento da sandice
global, que não viemos aqui para tentar reanimar o moribundo, mas alegrar um velório.
Está na rua o funeral. Ninguém nos paga
para isto, verdade, mas o morto merece.
Se queremos brilhar ainda um pouco, é agora
ou nunca. Afinemos as cordas, as lágrimas,
em dó sustenido. Vamos tentar dar o nosso melhor.
José Miguel Silva

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