terça-feira, 22 de maio de 2018

''cada instante é um amante / que matamos num abrir e fechar de pernas''



Na sala de leitura da insónia,
quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação, 
os passos apressados das empregadas de limpeza.
Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar. 
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete. 


No horizonte lento mas seguro de uma  utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.


Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera. 


Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida, 
- olhai - 
sou o novo modelo para o fracasso. 

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