terça-feira, 24 de abril de 2018

: ''vida nervosa'' e ''despolitização''

Justin Trendall  -Pilbara Block 2013

António Guerreiro entrevista Massimo Cacciari 

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A metrópole é o lugar desta crise, o lugar onde se revela todo o processo de racionalização, como explicou Max Weber, que é para mim um mestre insuperável. Estou aliás a escrever um ensaio sobre Weber. A cidade é onde o processo moderno de racionalização produz uma “vida nervosa” que determina uma constante inquietação da nossa psique, do nosso espírito. É onde se combina racionalização e angústia, onde a racionalização produz trauma. Esta paradoxal combinação de intelectualização e trauma é próprio da vida na época da crise. 

A crise é consubstancial ao nosso presente... 
Exactamente. E é deste modo que temos de ver o capitalismo. A crise para o capitalismo é vital. Sem uma permanente crise, o capitalismo chega ao fim. Esta é aliás a visão de Schumpeter, outro vienense. O capitalismo é inovação permanente, a crise é fisiológica, não patológica. A força do capitalismo consiste em determinar constantemente situações de crise. A palavra “crise”, mesmo entendida dessa maneira, liga-se a outras palavras cheias de ênfase que fazem parte do seu vocabulário filosófico, por exemplo “tragédia”, “apocalipse”. Sim, porque o conflito trágico é determinado por este processo de racionalização e especialização técnico-científica cada vez mais poderoso que produz ao mesmo tempo grandes resultados e grandes problemas, cada vez mais angustiantes e traumáticos. Mas esta vida dominada pelo sistema técnico-científico, que é o produto de um “cérebro social”, para citarmos Marx, é uma vida no interior da qual a contradição e o conflito, longe de desaparecerem, se multiplicam e se difundem por todo o lado. O conflito já não é como aquele, de outrora, entre os Estados, mas é um conflito miniaturizado e universalizado. Como é possível uma vida ordenada por este extraordinário produto do cérebro social, onde tudo é racional, e onde nada é ordem, onde as relações entre os homens e as relações entre as culturas não parecem ter qualquer princípio que as regule. É isto a vida contemporânea. A potência da técnica não consegue, nem jamais poderá conseguir, tornar-se potência política, não pode jamais dar vida a uma politeia, no sentido de Platão.
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