quarta-feira, 1 de março de 2017

A Fábrica de Nada: o filme que passou ao lado do seu tempo

A Fábrica de Nada, Pedro Pinho, 2017


Se A Fábrica de Nada convoca ideias importantes (já escrevi sobre algumas) não é verdadeiramente um filme do Portugal do seu tempo. Será, com certeza, emotivo que o operário que trabalhou décadas a fio na mesma fábrica agora se veja dispensado. Mas a minha empatia está com ele apenas até certo ponto: apesar das lágrimas, ele vai receber um subsídio de despedimento, sempre na ordem dos milhares. E a geração dos recibos verdes, na qual me incluo, que não recebe é nada quando dispensada?
Percebê-lo-ão melhor do que ninguém os que trabalham nos ofícios do cinema, área tão precária como as restantes que compõem os meios literados, artísticos e culturais (sempre os mais interessantes e sempre os menos compensatórios). Em termos práticos, aquele cidadão é protegido pelo mesmo Estado que me ignora e pelo mesmo Patronato que não me contrata. Em termos jurídicos, quem não tem um contrato de trabalho é mais maquinal do que estes operários que operam máquinas: o seu corpo não pode falhar, nunca. Se nós, os prestadores pontuais de serviços, não pudermos trabalhar (por doença, assistência a outrem, filhos ou qualquer outro motivo), simplesmente não recebemos. Definitivamente, este filme não é um emblema de uma geração porque a geração não se consegue identificar com ele. Nós, os ''falsos recibos-verdes'', estamos ainda em piores lençóis - e é preciso que alguém venha falar sobre eles. Para que, de uma vez, haja uma legislação apertada que controle este sistema abusivo e socialmente insustentável.




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