segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

''E eu quero continuar verde / como o mar / verde como um poema de Lorca''


Vaghe stelle dell'Orsa (Visconti, 1965) 

1. Poema Verde
Não me peças para amadurecer
que não sou peça de fruta,
sou peça de outra engrenagem, 
e a vida não é árvore nem fruteira.
Depois ninguém sabe o que é a vida,
a vida vai-se fazendo,
ou vai-se sem mais,
sem chegar a ser inteira.
E eu quero continuar verde
como o mar,
verde como um poema de Lorca,
verde como o verde dos meus olhos,
verde apesar do comprimento dos dias, verde
às vezes de raiva, que com duas patas
também se pode ser cão, verde
por saber o que é a tristeza
e a inutilidade da alegria ao ponto de cortar os pulsos,
mesmo quando temos vários corações a bater fora do corpo.


Raquel Serejo Martins, Aves de Incêndio, Poética Edições
Via Pedro Pereira

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