quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

CONVITE para obra-prima: ''La Fille de Nulle Part'' {de Brisseau, debatido no Nimas - 24.1.18}

“A criação e o artista: como separar a obra do seu criador?”

Espaço Nimas
Quarta, 24 de Janeiro, 19h30

Exibição do filme A Rapariga de Parte Nenhuma, de Jean-Claude Brisseau
seguida de debate com Cíntia Gil e Vasco Câmara
Moderação de Luís Mendonça

Bilhetes: 5 euros

Temos vindo a assistir, nos últimos anos, a uma multiplicação do que Manuel S. Fonseca chamava na sua crónica “O Cinema Dá o que a Vida Tira” [Expresso], de “caneladas na liberdade artística”. Mais do que isso, algumas, recentes, têm mesmo posto os objectos artísticos fora do jogo (a censura de um nu de Egon Schiele num cartaz público, uma petição para que uma pintura de Balthus fosse retirada do MET em Nova Iorque, o cancelamento, por imposição política, das retrospectivas de Roman Polanski ou Jean-Claude Brisseau na Cinemateca Francesa, etc. Têm surgido, a par disto, alguns textos que fazem uma revisão da leitura de obras consideradas “primas” - nomeadamente Blow-Up, de Antonioni -, e as condenam agora por “moralmente” inaceitáveis).

No rescaldo do caso Weinstein (a que outros se seguiram), e da justa luta contra a violência sexual, de que o movimento #metoo se tornou a principal bandeira, surgiram reacções em catadupa, virulentas discussões (que ainda mais se incendiaram com a carta publicada no Le Monde e assinada por uma centena de mulheres, que ficou conhecida como a carta Catherine Deneuve, uma das subscritoras – entre outras, também a subscreveram a realizadora Brigitte Sy, a escritora Catherine Millet ou a actriz Ingrid Caven –, um tanto também porque, na voragem da velocidade e da reacção a quente em que vivemos, ela chegou à maioria das pessoas apenas por excertos descontextualizados e mesmo traduções incorrectas), mas que têm, de um modo geral, deixado de lado esta questão fundamental, a da separação da obra e o comportamento do/a seu/sua autor/a.
A filósofa Maria Filomena Molder, num depoimento ao Ípsilon/Público, que publicou recentemente um extenso dossier sobre estas questões (“O ano dos nossos monstros”, Isabel Salema), dizia: “a menos que as obras de um artista sejam más, não me parece que o passem a ser por causa desse artista ter perseguido sexualmente alguém”. Também a actriz Maria de Medeiros, que trabalhou com Weinstein em Pulp Fiction, lembrava em entrevista À pala de Walsh que “a história da arte é povoada por personagens tudo menos isentos de zonas sombrias” e que, portanto, se deve separar a obra do criador.

Mas não será que tudo isto está, de facto, a afectar a sua recepção? Se, e aqui voltamos a citar Manuel S. Fonseca, “a arte não aceita cabrestos: é blasfema, desrespeitosa, malcriada e unilateral. […] ninguém manda nela”, ou, como afirmou em recente entrevista ao DN, o músico Paulo Furtado/The Legendary Tigerman, “ao contrário do que acontece no quotidiano, a arte não tem de ser correcta ou decente, tem de chocar e fazer pensar”, onde nos poderá levar esta espécie de “onda de purificação” censória que se cavalga e nos manipula, mesmo nos mais bem intencionados pretextos ou lutas? Voltaremos ao tempo em que filmes, livros, obras de arte eram proibidos? Foi também essa a necessidade de Catherine Deneuve, ao vir explicar ao jornal Libération as razões de ter assinado aquela carta: “Assinei este texto por uma razão, a meu ver, essencial: o perigo de uma ‘limpeza’ nas artes. Ir-se-á pegar fogo ao Sade da Pléiade? Apelidar Leonardo Da Vinci de artista pedófilo e apagar as suas pinturas? Retirar os quadros de Gauguin dos museus? Destruir os desenhos de Egon Schiele? Proibir os discos de Phil Spector? Este clima de censura deixa-me indefesa e inquieta quanto ao futuro das nossas sociedades.”

Porque sempre achámos que é no espaço público que os assuntos devem ser discutidos, a Medeia Filmes organiza, com o site À Pala de Walsh, uma sessão em que convidados e espectadores discutirão estas questões.

No dia 24 de Janeiro, às 19h30, no Espaço Nimas, exibiremos o último filme de Jean-Claude Brisseau distribuído em Portugal: A RAPARIGA DE PARTE NENHUMA (2012), Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, e que figurou em muitas das listas dos melhores filmes do ano. Brisseau que, assombrado pelas suas duas condenações em tribunal por assédio sexual a actrizes, viu cancelada recentemente uma retrospectiva da sua obra na Cinemateca Francesa.
A seguir à projecção do filme, o walshiano Luís Mendonça modera um debate sobre  “A criação e o artista: como separar a obra do seu criador?”, com a directora do festival DOC Lisboa, Cíntia Gil, e o crítico e editor do jornal Público Vasco Câmara.

[Na sessão será ainda apresentado o livro O Cinema Não Morreu — Crítica e Cinefilia À Pala de Walsh, ed. Linha de Sombra, no qual, Ricardo Gross escreve precisamente sobre A Rapariga de Parte Nenhuma, de J-C Brisseau, que “funciona como súmula da sua obra inteira”, e de “um medir de forças com algo superior a nós por via da criação, como refere a frase de Van Gogh que Brisseau mostra […]”]


Org.: Medeia Filmes / À Pala de Walsh | Apoio: Leopardo Filmes, Linha de Sombra

Sem comentários:

Enviar um comentário