sábado, 16 de dezembro de 2017

Top 2017 (Estreias comerciais em PT)

TOP 2017
esboçado para À PALA DE WALSH

1. Paterson, Jim Jarmusch 2. O dia seguinte, Hong Sang-Soo 3. O Outro lado da Esperança, Kaurismaki 4. Lucky, John Carroll Lynch 5. War for the Planet of the Apes, Matt Reeves 6. Lost City of Z, James Gray 7. Good Times, Irmãos Safdie 8. Fábrica de Nada, Pedro Pinho et al 9. Get Out, Jordan Peele 10. Félicité, Alain Gomis.

Em 2017, o meu #TopTen entre as salas comerciais reúne filmes que se destacam pela construção de nova linguagem (Lucky), pela sua depuração narrativa (Good Times e Lost City of Z), pela sua intervenção política sobre o presente (A Fábrica de Nada e O outro lado da Esperança), pelo manifesto integracionismo (War for the Planet of the Apes, Get Out e Félicité) ou pela meditação sobre o gesto criador (Paterson e O Dia Seguinte).
Alvíssaras, Paterson assinala o regresso de Jarmusch a Jarmusch: se o filme celebra a crença no ‘‘artista espontâneo’’, emergido marginalmente entre a banalidade do quotidiano, essa verdade protagoniza o quadro de um amor total, onde a disponibilidade para receber o outro em toda a sua diferença é a única matéria-prima possível a uma poesia em completa relação com o mundo. Paterson expõe e resolve o seu próprio problema ontológico: mesmo que ainda anónimo e já sem o seu caderno de escritos, Paterson continuará poeta porque é poeta (e ao contrário da namorada que se esforça por parecer artista, Paterson é e um poeta não precisa de poemas para o ser). O Dia Seguinte celebra a vitória da intuição moral: se falta experiência à juventude, é no seu desprendimento face às estruturas que vence o mundano. Aqui, o verso treinado apresenta-se como ornamento sobre a realidade e de fraca correspondência com ela: a jovem poderá não escrever tão bem quanto pensa, mas acredita no que sente e sai ilesa desses cansados jogos entre os homens e as mulheres. War of the Planet of the Apes, dá-nos a ler, a certa altura, numa parede: “Ape-apocalypse, now”. Não é preciso muito para que um animal seja mais moral do que um humano - sempre no-lo ensinou esta saga - mas, à escala da difusão Hollywoodesca, o simbolismo político do filme tem a amplitude de uma intervenção sobre um presente assolado pela crise dos refugiados (esses Outros, que também protagonizam o mais recente de Kaurismaki, d’O Outro lado da Esperança). Já em Get Out (que tem a força de uma primeira obra), está em causa a persistência da estratificação racial nos Estados Unidos, pela voz do actor-feito-realizador Jordan Peele, conhecido pelas suas interpretações cómicas de Barack Obama, onde se iniciava já esta meditação. E se Lucky reforça o eco, celebrando a miscigenação da sociedade norte-americana (com foco sobre a riqueza particular da comunidade latina), Good Times desfigura o pretty-fly-for-a-white-guy Robert Pattinson, para falar sobre a desigualdade que atravessa o presente americano para lá de etnias. Se persistem imensas dúvidas em relação à amálgama visual e sonora em que A Fábrica de Nada explode, aplaudimos esta incursão no cinema colectivo (uma irredutível celebração da estrutura grupal sempre implicada no fazer cinema, aqui nivelando quem filma e quem é filmado) e, de cada sequência, destilamos uma mão-cheia de ideias necessárias para construir uma chamada-à-acção, expondo a veracidade de uma auto-gestão fabril que funcionou ao longo de décadas. Mais do que um filme sobre a crise portuguesa, A Fábrica de Nada é, acima de tudo, um progressivo questionamento sobre a (in)adequação de um sistema global a quem o sustém, o Homem, na sua dimensão mais individual e mais colectiva, pelo caminho celebrando a potência criadora que habita cada um: corpo de trabalho, cabeça de lazer (e vice-versa).

Sem comentários:

Enviar um comentário