sábado, 16 de dezembro de 2017

(in memoriam)

 
para o meu professor de argumento Luís Falcão (1975-2015)
novos éramos todos
nós dezoito dezanove
ele trinta e poucos mas
porque era profe
a gente nem ligava
a gente nem via que
ele era bem novo para aquele peso todo nos ombros.

a bem dizer era um romântico e
trágico como todos os poetas mas
a gente não lhe topava nenhum negro impeditivo e
apesar dos olhos tristes e dos títulos góticos ele
caía todo para a beleza e
aquela fome de existir contagiava e
na escola o Falcão aparecia em espírito e verve e abraçado à malta
ria e agitava e nós escutámos tudo à séria e
dissimulados
todos mais do que alunos fomos-lhe
discípulos.

a gente nunca tinha dinheiro
estudar cinema era caro
e em Lisboa pior
ele sabia
eram máquinas rolos tripés SDs PCs livros bilhetes cassetes e
ele pagava-nos uns copos aqui e acolá para
- falar sobre isso
claro que eram guiões maus mas
qual António Reis incarnado
ele
citava
citava
como quem
explica
explica
e
depois da paciência
esquecia-se nas horas
que passou a galope com Dom Quixote e Sancho Pança e
navegava em Proust que nenhum de nós conhecia e
idos pela voz que enrouquecia de tanto falar nós
aprendemos sobre almas altas e sentimentos e
sobre o excesso que é viver aí
no centro do tempo que nos falta para viver melhor e
hoje sabemos que
devemos ler e honrar os belos mortos e que
devemos escrever ou chorar em vão por
todos esses dias ainda eternos
todos esses dias que já não voltam.

não há
loas louvores elegias cartas consensos bastantes para cantar um
mestre que maior falta fará
às gerações que nunca saberão o que perderam.

mais uma noite sem morte a errar pelo bairro e a
cruzar copos e cigarros e lupas sobre livros recentes quando
me olha e me diz que
se lembra do Roth que eu citei na aula
: aquele que era mesmo isso
: aquele do sexo contra a morte
sex is also the revenge on death.
don't forget death.
don't ever forget it.
não sei como foi que
ginasticou esses dias sempre disponíveis mas
apesar da juventude ao menos publicou só que
não há nunca poderia haver
palavras onde esgotar quem assim
se entregou às horas que só entre nós somamos.

fui sabendo
que era um cancro desses piores
anos a fio visto de frente
: vislumbre de uma ferida de luz que nos trespassa
mas
nem quarenta ele tinha quando
quando
quando
Luís
(quando nos morreu o Falcão
ele morreu-nos a sério)
passaram dois anos mas bate igual e hoje
ao espelho do medo ainda
perguntamos por ti e
certos de que a doença é sempre erro
entramos-te pelos versos e
trocamos memórias contigo e
festejamos em coro as horas que habitas ainda
assegurando que
- por cá te demoras mais do que o corpo quis.
Sabemos que o tempo passou
Que alguma coisa deveria ter sido dita
(talvez depois, talvez mais tarde)
Deixamos atrás de nós
Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis
E, feridos,
Por todas as coisas
que poderíamos ter evitado a nós próprios
Caminhamos para o silêncio

E para a escuridão indefinível dos bosques.



No dia em que a essência sagrada

das coisas se quebra

olhas a chuva nas flores das magnólias
e a morte
principia sobre ti o seu trabalho

Amanhã já as folhas
terão caído

desfigurando

cuidadosamente
uma voz que se confunde com a noite

Encontram-te uma veia
e expõem-te aos venenos
sepultanto no teu sangue
as nervuras
de um horror instransponível
um brilho de chumbo e finitude
contorcendo-se, sobrepondo-se
a uma fractura
definitivamente aberta à transparência

A casa fechando-se

sobre a vastidão da infância

infiltrações e humidades
entranhando-se
no tempo que te resta
a um canto
a correspondência interrompida
pressupostos inadiáveis
amontoando-se
sob o pulsar irredutível
de uma exigência de infinito

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