quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

«Eu existo para assistir ao fim do mundo»

Fury, Fritz Lang, 1936
1999
Estrelas em fragmentos rolarão sobre mim.
Retratos de belas dançarinas serão levados pelo vento
Até a cova rasa em que descanso.
Ninguém pode morrer, que a flor não deixa,
A sombra da árvore não deixa, a pedra e a cruz não deixam.
Tudo começa de novo e existe para sempre.
Eu amei todas e todas me amaram sem saber.
A semente de trigo deu a volta ao mundo
E se levanta em hóstia sobre minha alma seqüestrada.
Rio, murmura como no primeiro dia da criação,
Cometa, surge de novo me incorporando ao céu,
Operário, transmite no espaço o coro da humanidade.
Eis que venho sobre as nuvens.
Tocam-se o fim e o princípio:
FIAT LUX outra vez.

[de Convergência]
MURILOGRAMA A T .S. ELIOT
NO MEU PRINCÍPIO ESTÁ MEU FIM.

Os tempos se sucedem se acavalam, engrenagem
Se autoesfregando, se roendo, se recriando
Em contínua autoinvenção & metamorfose.
A luz cai vertical no princípio & no fim,
No osso do homem & na sua pele.
Matéria & forma se ajustam no alto & no baixo.
Tudo já foi escrito repensado
Na caverna & no espaço do reator.
Já vivemos & fomos vividos por outrem
Já usamos & fomos usados por outrem
No renovado atrito & rotação
De coisas & pessoas levigadas
Pela terra a teologia a matemática.
Se encontram claro & escuro, se abraçando.
Poeta & economista,
Filólogo & físico nuclear
Se embatem, se penetram.
Já morri. Já fui julgado. Já ressuscitei.
Já esteve. Já foi. Já principiou.
Já pensou. Já explodiu.
IN MY BEGINNING IS MY END.
Amanhã é súbito antigamente.
Antegiro. Antepoeira. Antepalavra
Exausta ressurrecta.
Já posthouve. Já postfui.
Antes & post.
Antepost.

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