domingo, 24 de setembro de 2017

Mother!



''O terror, como se sabe, partilha o mesmo campo semântico da palavra território. A administração do terror é, enfim, a administração do território. A câmara de Aronofsky teoriza sobre esta coincidência semântica. Casa (house/home) como corpo, corpo como casa do mais… perfeito amor.''
LUIS MENDONÇA

THROUGH A GLASS DARKLY, Bergman, 1961

The Neon God, Nicolas Refn, 2016


1 comentário:

  1. As expectativas iam escassas mas lá fomos, às escuras:
    -- aos 10 minutos, a malta supõe que, afinal, ele queria era fazer uma peça de teatro -- aos 20 minutos, exclamamos um ''mas que raio de ideia, Aronofsky a vestir-se à Von Trier'' mas, pelo espírito de Polanski, lá afundamos na alegoria e ainda não houve olho despregado -- em meia hora, instalou-se a tensão e o corpo sem ar está, em POV coladíssimo, embriagado de close-ups -- uma hora aberta com Cronenberg debaixo da língua e o som ampliado já nos alinhou à preparação da tragédia: queremos ver tudo -- a três terços, encontramos condições para obra-prima e já começamos a rever mentalmente o top do ano transato -- no desenlace por chegar, estica-se o gore, estica-se o mistério, estica-se o absurdo, estica-se tudo e -- tudo explode sem acabar de explodir, num pessimismo sem freio e -- enquanto o filme vira o barco, a casa vira jogo de plataformas para uma fuga impossível e lança-nos em correria incessante para lá dos limites do obsceno -- no final (finalmente!), zonzos da escusadíssima hipérbole que nos ofereceu, em bandeja gratuita, a pancadaria do mês, ainda mal articulamos a suspeita de que esta exageração funciona melhor como ostensivo espelho para a megalomania do próprio Aronofsky (que teima em enfiar a génesis e o apocalipse no mesmo filme, uma e outra vez) do que para a construção polissémica de uma metáfora para a actualidade mediática/social/geo-política. Enquanto em pós-desilusão, a tentar decifrar sentidos entre estas barrocas linhas de repulsa, o melhor para combater a exaustão é ler um interpretativo Luís Mendonça na PALA.

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