domingo, 17 de setembro de 2017

''...dera-se conta de que a literatura estava cheia de adúlteras e cortesãs: Maria Eduarda, Luísa, Anna Karenine, Genoveva, Madame Bovary, Margarida Gautier. Aninhas invejava secretamente a coragem dessas mulheres...''

The Bridges of Madison County, Clint Eastwood, 1995

Pozinho burlesco de enganar
ANA CÁSSIA REBELO

''Não sabia mentir. Por ser assim, inábil na mentira, a primeira coisa que Aninhas fez quando se apaixonou por Augusto foi contar ao marido o que se passava. Não conseguia estar com Lima, sentir a frouxidão da barriga do marido roçar o seu ventre lisinho, fruto de esforçadas horas no ginásio, enquanto mentalmente fugia para os braços de Augusto, coxo, é certo, com um enorme diastema entre os incisivos frontais, também é certo, mas gentil na cama, homem de muitos encantos. Aninhas não tinha estofo para ser adúltera. E tinha pena! Na juventude, por influência de uma tia enfermeira, que vivia numa vivenda abarracada na Cova do Vapor, lera os clássicos. Salomé, a tia enfermeira, todos os anos a convidava para passar quinze dias de férias. Aninhas ia. Apanhava a camioneta para a outra banda. Caminhava na praia, aprendia a cozinhar com a tia, especialista em bolos, assados e doces de colher, e lia os clássicos. Nesses verões passados na Cova do Vapor, para além de descobrir a localização exacta do seu clitóris, tocava-lhe levemente com a ponta dos dedos e o seu corpo expandia-se, lendo os livros da tia, dera-se conta de que a literatura estava cheia de adúlteras e cortesãs: Maria Eduarda, Luísa, Anna Karenine, Genoveva, Madame Bovary, Margarida Gautier. Aninhas invejava secretamente a coragem dessas mulheres. Tinham finais trágicos, claro que tinham!, definhavam até à morte ou atiravam-se à linha do comboio, mas, enquanto a tragédia não chegava, que prazer tiravam das tardes secretas com os seus amantes…Quando contou a Lima que se sentia atraída por outro homem, tendo o cuidado de nunca revelar a identidade do outro, mais do que a censura do marido, custou-lhe admitir a sua derrota. Lima ouviu-a em silêncio. Aninhas calou-se. Lima olhou-a como se não existisse. Aninhas desviou o olhar. Lima, de comando na mão, pediu-lhe que saísse da frente do televisor. Aninhas teve vontade de chorar. Não era uma mulher séria, mas também não era uma adúltera. Era apenas um pozinho burlesco de enganar, um desenho fruste e garrido, desenhado a giz numa calçada que, mais cedo ou mais tarde, se apagaria com o vento e com a chuva.''

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