Mavungo, à direita, com os músicos Luaty Beirão (esquerda) e Waldemar Bastos (centro)

Acredito que não tenha sido por acaso que, no mesmo dia, tenha finalmente visto o VONTADE INDÓMITA (The Fountainhead, filme-monumento de King Vidor, 1949) e conhecido pessoalmente esse grande Senhor chamado WALDEMAR BASTOS. “- A integridade é a capacidade para defender um ideal”, ouve-se num filme que descreve a nobreza daquele que permanece fiel a si próprio, apesar de tudo e todos. E ali estava, Gary Cooper em Waldemar Bastos, todo ele mais Angola do que a Angola que hoje temos. Não é só o ter três almas de voz. Não é só o falar como quem canta. A sua vontade indómita é um coração na boca a todas as horas. Hoje fora, resguarda a família na América mas deixa olhos tristes pregados na Angola que o regime cada vez mais desaba. 

Amigo de Zeca Afonso, celebrou o outro lado do 25 de Abril com os de cá. Reconheceu o papel da cultura para a vitória do MPLA, cantou a Angola Independente mas, face às teias da corrupção e do controlo político-financeiro, resta-lhe dizer NÃO: ''- Se deus me deu este dom é para o partilhar, não é para o vender.'' A verdadeira arte é de intervenção e não conhece interruptor. O que se passa no (seu) mundo, passa para as canções. Não se cala nem conforma. Persiste fiel aos seus ideais, garante, longe da Angola apolítica em que a rádio se vicia, na hipersexualização dos kuduros e das kizombas que nada dizem sobre um país que tanto sofre. Ainda este mês, Luaty Beirão apontava as ferramentas com que o regime programa uma ''arquitectura da ignorância'', estado orquestrado de desinformação disseminado no interior de uma população maioritariamente iletrada. 

Daqui vemos a lixeira a céu aberto que é a política angolana mas não vemos o suficiente, porque as suas raízes se afundam até infinitamente perto demais. Tanto é o que cega e confunde: a reconstrução da realidade precisa de mais mãos, mais vozes, mais versões verdadeiras. E é esse heroísmo maior que o cinema que aproxima Luaty de Waldemar e de poucos outros, provas vivas de que o carácter e o sentido de justiça nem se ensinam nem se vendem. Neste mundo em que tudo é inevitavelmente política, valha à arte verdadeira a sua vontade indómita.

“Culpado da miséria no país não é só um/ mas o principal, não é segredo,/ chama-se Zedu”, LUATY BEIRÃO em ‘Sou Um Kamikaze Angolano E Esta É A Minha Missão’ (2012)

0
Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

Archives