sexta-feira, 30 de junho de 2017

São vontades indómitas.

Mavungo, à direita, com os músicos Luaty Beirão (esquerda) e Waldemar Bastos (centro)

Acredito que não tenha sido por acaso que, no mesmo dia, tenha finalmente visto o VONTADE INDÓMITA (The Fountainhead, filme-monumento de King Vidor, 1949) e conhecido pessoalmente esse grande Senhor chamado WALDEMAR BASTOS. “- A integridade é a capacidade para defender um ideal”, ouve-se num filme que descreve a nobreza daquele que permanece fiel a si próprio, apesar de tudo e todos. E ali estava, Gary Cooper em Waldemar Bastos, todo ele mais Angola do que a Angola que hoje temos. Não é só o ter três almas de voz. Não é só o falar como quem canta. A sua vontade indómita é um coração na boca a todas as horas. Hoje fora, resguarda a família na América mas deixa olhos tristes pregados na Angola que o regime cada vez mais desaba. 

Amigo de Zeca Afonso, celebrou o outro lado do 25 de Abril com os de cá. Reconheceu o papel da cultura para a vitória do MPLA, cantou a Angola Independente mas, face às teias da corrupção e do controlo político-financeiro, resta-lhe dizer NÃO: ''- Se deus me deu este dom é para o partilhar, não é para o vender.'' A verdadeira arte é de intervenção e não conhece interruptor. O que se passa no (seu) mundo, passa para as canções. Não se cala nem conforma. Persiste fiel aos seus ideais, garante, longe da Angola apolítica em que a rádio se vicia, na hipersexualização dos kuduros e das kizombas que nada dizem sobre um país que tanto sofre. Ainda este mês, Luaty Beirão apontava as ferramentas com que o regime programa uma ''arquitectura da ignorância'', estado orquestrado de desinformação disseminado no interior de uma população maioritariamente iletrada. 

Daqui vemos a lixeira a céu aberto que é a política angolana mas não vemos o suficiente, porque as suas raízes se afundam até infinitamente perto demais. Tanto é o que cega e confunde: a reconstrução da realidade precisa de mais mãos, mais vozes, mais versões verdadeiras. E é esse heroísmo maior que o cinema que aproxima Luaty de Waldemar e de poucos outros, provas vivas de que o carácter e o sentido de justiça nem se ensinam nem se vendem. Neste mundo em que tudo é inevitavelmente política, valha à arte verdadeira a sua vontade indómita.

“Culpado da miséria no país não é só um/ mas o principal, não é segredo,/ chama-se Zedu”, LUATY BEIRÃO em ‘Sou Um Kamikaze Angolano E Esta É A Minha Missão’ (2012)

http://club-k.net/index.php?option=com_content&view=article&id=22344:waldemar-bastos-pede-a-presidente-da-republica-para-que-salve-a-vida-de-luaty&catid=2:sociedade&lang=pt&Itemid=1069


XXXVI
Direis, talvez:
já deixámos de ser crianças
e os anjos dissiparam-se.
As mãos adultas
fazem mal aos sonhos
que não têm raízes
profundas
nestes campos onde apenas floresce
a semente das coisas concretas.
Fizemos mal ao sonho dos anjos
e a nossa paz futura
será a dos ciprestes
que crescem em silêncio.
Dentro da sua seiva
poderemos triunfar — juntos! —
diante das estrelas
e dos vivos em que viveremos, quando lutam,
no esforço sempre retomado
do cérebro e dos músculos,
para ser, apenas ser
— indómita vontade...
Perduraremos para sempre
matando a sede nas chuvas.
(in 'Vida Terrena', tradução de António de Macedo com a colaboração de Carlos de Oliveira, Editora Ulisseia, 1966 / original de 'Els Altres Mons', 1952)