Cosmos Clémenti

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Para Vila do Conde 2017, ressuscito uma das homenagens prévias do festival e programo Visa de Censure nº X. À carne desaparecida de Pierre Clémenti, dedico a desregra do sonho, do desejo e da droga :

Cosmos Clémenti


Sonhei a fogo e a cores
dentro de um grão super 8
e halo de música ou sonho
vejo-me abrir os olhos
à aurora de Pierre que
farto de esperar por mim
já soltava sobre o meu braço a palmadinha amigável
de quem só deseja que me despache
num instante um
- pouco de maquilhagem, sim, mas só um pouco
- ou vestido longo ou a nudez
: orquestrava-me a saída o andrógino
com os seus modos florais
ele próprio numa bela túnica
tão longa e tão lilás
como os mais nobres céus da Antártida.
da janela do meu quarto vejo-os chegar
em passos de farra e de zombaria
: a turma Clémenti são os animais das estrelas
são os vivos e os mortos
são os raça à parte
são os boa branca boa castanha
são os profetas da viagem sideral
são a Nico e o Garrel
são o Warhol e o Glauber
são o Hendrix e o Crowley
são a Patti Smith e o Kerouac
são o Morrison e o Anger
são os nus de todas as mulheres e de todos os homens e
são todos os rituais e todos os passes de mágica e
são todos os deuses e todos os demos e todos os transes e
são alucinações néctares ácidos flautas fumos faunos e
são cada cor são cada forma são cada imagem por inventar.
: Fui saindo dos absolutos

- Fui de transparências obscenas
para os braços do Clémenti-canibal de Porcile.
- Fui de cavalo alado
a beijar o Clémenti-cupido de Cicatrice Intérieure.
- Fui de lambreta desportiva
roubar com o Clémenti-gangster de Belle de Jour.
- Fui a palpitar de amores e de pecado
para povoar com o Clémenti-diabo a Via Láctea.
- Fui de corpo sem cura
passear com o Clémenti-fetiche de Partner.
- Fui de solidão em preto bíblico
para dançar com o Clémenti-ícone de Il Gattopardo.
- Fui de Sade mal-lido
dormir com o Clémenti-Adão na Bacia de John Wayne.

fotomontagem de Bertrand Mandico 

Iam-se cumprindo
as profecias da cinefilia quando
a marcha subitamente se interrompeu e
o veículo nos largou
dentro dos dias de ontem.
Paris queimava ópios e ardia nas telescopias dos anos 60
quando
Clémenti se viu pleno
gloriosamente nu
cosmos em expansão.
À altitude das esferas e
à dianteira da mais desorganizada legião de situacionistas
vem de protagonismo renegado
vem de vísceras acesas pelos 17 meses de prisão em Itália
vem com a consciência a explodir em revolta e em revolução
vem com a dureza morena dos seus traços atlânticos
e
traz INTUIÇÃO e GÉNIO
: passa ao lado da nouvelle vague
é EXPERIMENTAL e
de câmara em punho
está em improviso
e quase a solo
e
: dá vida a viver
que é como quem diz
: faz filmes.
Como um filme contíguo revemos
: Bobine 27 (Souvenir Souvenir) Intro La Deuxiéme Femme Soleil Positiano La révolution n'est qu'un debut...
mas é
: Visa de Censure nº X



que trazemos para 2017
para celebrar os 25 anos das Curtas
com a obra que Clementi assina aos 25.
Iconografia pura
nunca assim se viu um homem tão nu e tão vestido
: em corpo e em rosto,
emblema que preencheu ecrãs
: em pele de cineasta
mais rápido do que a vida
desapareceu-nos cedo demais.
verdadeiro homem do futuro
Clémenti nasce e incendeia-se tão rápido como
um cristo que ainda volta
mas este confiou-nos o cinema
dos oráculos
e dos adventos
mistérios à altura do que não pode ser dito
só mostrado.

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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