quinta-feira, 30 de março de 2017

STEREODOX: I said #lustforlife


the get go

my soul is one step ahead of my body.

Pandora's Box (die Büchse der Pandora), G. W. Pabst, 1929 

Le pont du Nord, Rivette, 1981


segunda-feira, 27 de março de 2017

On my way out.

quinta-feira, 23 de março de 2017

STEREODOX: ÉME / Ou sim ou sopas

segunda-feira, 20 de março de 2017

Se Ferlinghetti sobreviveu a Ferlinghetti para contar 98, esta é a hora de podermos tudo.

Lawrence Ferlinghetti (Yonquers, Nova Iorque, 24 de março de 1919 - )

espécie inteiramente diferente.

... tu podes muito bem ser de uma espécie inteiramente diferente. podes perfeitamente ser uma filha da Natureza e, por isso, capaz de a perceber, de a amar, de a compreender, de acordo com o que sintas.
The Petrified Forest (Archie Mayo, 1936)





domingo, 19 de março de 2017

Love is to die, love is to not die



sexta-feira, 10 de março de 2017

Godard ao ar livre em Barcelos - arranque do mArte #9


quinta-feira, 9 de março de 2017

Cosmos Clémenti




Para Vila do Conde 2017, ressuscito uma das homenagens prévias do festival e programo Visa de Censure nº X. À carne desaparecida de Pierre Clémenti, dedico a desregra do sonho, do desejo e da droga :

Cosmos Clémenti
Resgatamos uma homenagem prévia e, para o 25º aniversário das Curtas, programamos Visa de Censura NºX o filme que Pierre Clementi começou a filmar aos 25. O parisiense Clémenti viveu intensa e brevemente. Chegado do teatro, onde se refugia de uma infância turbulenta, actuará em filmes dos nomes maiores do seu tempo. Se de imediato recordamos esse rosto marcante, emblema dos cinemas de Buñuel, Pasolini, Visconti, César Monteiro ou Philippe Garrel, temos ainda de dar largas à viagem junto deste Clémenti-cineasta, que participa em pleno do espírito do seu tempo.

... aqui se brinde a Pierre Clémenti: para sempre lembraremos um rosto como uma insígnia: a altivez vem com a dureza morena de uns traços atlânticos: os modos florais: os gestos longos: a desregra desses dias do ópio: uma túnica tão leve e tão lilás como os mais nobres céus da Antártida: Ei-lo: maestro do transe da aurora, raridez, androgénese das esferas...

A este Visa de CENSURA Nº X começou chamar Psychedelic (em 1967) e só em 1975, numa versão alongada a 44 minutos, se chegou ao título Visa de Censura NºX, acrescentando como banda-sonora um trecho de rock’n’roll progressivo do primeiro álbum, homónimo, da banda Clearlight Symphony.

Psicadelismo! Transe! Pulsão! Sinestesia ! Enquanto Paris queimava ópios e ardia nas telescopias dos anos 60: Clémenti espreguiçava-se nu para fora de si: como um cosmos em expansão: animal de rota solitária: jogador de símbolos e de arquétipos: PIERRE CLÉMENTI dá vida a viver que é como quem diz: faz filmes.

Clémenti veste de corpo inteiro a pulsante liberdade da contracultura que antecipa o Maio de 68, acontecimento que testemunharia in loco. 1968 viria a ser o mais prolífico ano da sua carreira enquanto realizador. Activamente no centro das barricadas, filmava LA REVOLUTION N’EST Q’UN DÉBUT…., Continuons le combat e Souvenirs souvenirs enquanto ao lado, Philippe Garrel, com 20 anos, filmava LA CONCENTRATION. A agitação de 1968 uniu o underground artístico francês e alguns artistas combinaram, em 1969, lançar-se numa expedição a África para filmar, escrever e fazer música - odisseia da qual resultou Home Movie, autour du 'Lit de la Vierge' de Frédéric Pardo. Estes jovens com menos de trinta anos baptizaram-se de grupo Zanzibar, colectivo que durou entre 1968 e 1970. (LIT DE LA VIERGE) Sylvina Boissonnas era a jovem mecenas deste projecto fora do sistema. Herdeira e activista de extrema-esquerda, financiava estas produções livres sem perguntas, longe de contratos e de folhas de salário. Philippe Garrel era o líder do grupo Zanzibar, no qual se incluía como actor PIERRE CLEMENTI, que figurou nos filmes Lit de La Vierge (de 1969), e La Cicatrice Intérieure (de 1972).

A devolução do sagrado chega em zombaria de tudo: o Clube Clémenti são os animais das estrelas: são os profetas da viagem sideral: são os vivos e os mortos: são os nus de todas as mulheres e de todos os homens: são todos os rituais e todos os passes de mágica: são todos os deuses: todos os demos: todos os transes: são alucinações néctares ácidos flautas fumos faunos: são cada cor são cada forma são cada imagem por inventar.

O improviso ordena estes filmes que, sujos e imediatos, são uma lição de autonomia. O activismo político de Garrel e Clémenti chega em super8, 16 ou 35mm, à procura da imagem radicalmente nova: são sonhos com todas as legendas possíveis. Os cineastas propõem uma remodelação da experiência e do espectador. A nova imagem quer-se freneticamente radical, alheia aos códigos, agitada entre as mãos que filmam a vida como quem agarra os seus ritmos cambiantes. O experimentalismo chega em múltiplas formas e tons. A montagem transmite o compasso acelerado da alucinação e esta pressa está em sintonia com a agitação dos tempos.

VAMOS de transparências obscenas para os braços do Clémenti-canibal de Porcile: VAMOS de cavalo alado a beijar o Clémenti-cupido de Cicatrice Intérieure: VAMOS de lambreta desportiva roubar com o Clémenti-gangster de Belle de Jour: VAMOS a palpitar de amores povoar com o Clémenti-diabo a Via Láctea: VAMOS em corpo sem cura passear com o Clémenti-fetiche de Partner: VAMOS em solidão de preto bíblico dançar com o Clémenti-ícone de Il Gattopardo: VAMOS de Sade mal-lido dormir com o Clémenti-Adão na Bacia de John Wayne VAMOS…

Entre 1960 e 1998, Clémenti actou em 111 títulos, para cinema e televisão. Como realizador, assinou 13 títulos de longa e curta metragem. Visa de Censure Nº X foi o seu primeiro filme, em 1967. Em 1968, realiza três curtas:  La révolution n'est qu'un début. Continuons le combat,  Souvenirs souvenirs  e Livret de famille.  Em 1969, realiza as curtas Art de vie e Positano. Em 1970, realiza a curta Esméralda.  Em 1971, assina a curta L'ange et le démon. Em 1978 apresenta uma primeira longa. Vision spectacle première. Em 1979,  traz-nos uma segunda longa, New Old  e, em 1986, uma À l'ombre de la canaille bleue. E em 1988, dez anos antes da sua morte precoce aos 57 anos, apresentava o último filme, a curta Soleil.

Mais rápido do que a vida: cedo se foi a bela carne que corria dos holofotes e da imprensa: verdadeiro homem do futuro: Clémenti nasce e incendeia-se tão rápido como um cristo que ainda volta.

Filhos directos da Nouvelle Vague, o grupo formado pela Experiência Zanzibar foi ainda mais longe, filmando sem guião e aplicando os princípios situacionistas do improviso e da deriva à manifestação política no contexto urbano agitado pela revolução. Se a obra de Clémenti, é uma lição contígua de intuição e de automia, Visa de Censure nºX adianta-se como um particular presságio do mais agitado mês de Maio. O caleidoscópio que aqui se abre é, como pré-avisa o título, um manifesto contra a história das proibições no cinema. Esta celebração de todas as possibilidades é um novo lugar para o espectador saído de si, uma experiência para os sentidos.



terça-feira, 7 de março de 2017

Que se invente uma evolução mais justa


A sugestão catita veio de um colega e lá andei eu a ver o programa ORIGINS (do National Geographic). E dizia lá um antropólogo que ‘‘a evolução está inscrita nos genes humanos’’. Ora, eu não dei por ela, meus amigos. A mim não me coube nem um niquinho do jeito do Einstein para contas. Nem um poucochinho de Turing me calhou em herança. Eu mal sei correr um anti-vírus no computador quanto mais ler código binário. E aquela gente inventou isto. E há por aí gente que até sabe ir à Lua, meus amigos. Gente há inclusivé que, em abrindo uma cabeça, olha e distingue uns neurónios dos outros e ainda ali dá um jeito daquilo funcionar melhor. E eu que nem sei fazer sentido das medusas de cabos que me habitam o motor do carro. Tanta cabeça jeitosa por aí e eu cá estou, caro Apple MacBook, não sem rezar à santa maçã pela saúdinha desta motherboard, que se isto vai de vela é que é o bonito. Ainda eu não tive tempo para aprender a separar o átomo e parece que já por aí puseram uma fila de mísseis atómicos, todos abotoadinhos, a postos para nos dizimar o mundo de hoje e o de amanhã. Já vão desaparecer e eu ainda não cheguei a decorar os países todos, quanto mais as capitais e as bandeiras... Isto assim não dá. O que a malta tem agora não chega para o básico. A malta toda compra a cena, usa a cena, mas mal há quem saiba a sério como é que a cena funciona, quanto mais inventar uma cena melhor. Para isto da evolução humana ser mais justa, por mim, resolvia-se assim: inventavam-se - não inventava eu, que eu não sei - mas inventavam-se assim uns comprimidinhos de ADN do bom, ADN Nobel da física, química, matemática... Do que importa. E ia tudo a eito, logo de manhã com o Centrum e com um grande copo de água: ei-los, genes melhores para toda a malta ver se arrebita a formiga. Até sermos tão espertos como os espertos, capazes de medir um buraco negro a olhómetro ou de construir um computador no meio do deserto com pedra-pomes. Ah, estão a protestar, os amigos? Que o que eu digo é abominável? Que nem tudo é progresso técnico, então e o espírito? Que as humanidades também são ciências? Que não sei quê, eugenismos a esta hora, Sabrina controla-te? Até pode bem ser, mas se o vosso iphone se esbardalhar no chão, partido às peças, quero ver essas carinhas impotentes de choro, quero.