sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.

In a Lonely Place, Nick Ray, 1950
O projeto desejo (2015) de Grada Kilomba

«Escrevo e o que escrevo não conduz a parte alguma. As palavras são pobres, brancas, transparentes. São, talvez, uma silenciosa irradiação do vazio. Mas é assim que me aproximo do deus desconhecido.» 
(António Ramos Rosa, O Deus Nu(lo))

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão. 
Vergílio Ferreira, in 'Pensar' 

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. 
E para estas duas vidas, 
um léxico só não é suficiente. 
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo 
vivendo no rio São Francisco. 
Gostaria de ser um crocodilo 
porque amo os grandes rios, 
pois são profundos como a alma de um homem. 
Na superfície são muito vivazes e claros, 
mas nas profundezas são tranquilos 
e escuros como o sofrimento dos homens.

Guimarães Rosa

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