terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A juventude é um ponto de referência insubstituível.

"Video Days" Blind (1991) Mark Gonzales

''A juventude deixa-nos uma marca profunda. Na nossa juventude nós não sentimos a felicidade pela qual passamos. Só depois, com mais idade, é que nos lembramos de como fomos felizes certas vezes na nossa juventude. É um ponto de referência insubstituível. A juventude dá-nos uma força, porque ela tem uma força, um impulso tão grande na vida... E quanto mais a idade vai avançado, mais relevo toma esse tempo.'' Manoel de Oliveira

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

STEREODOX: Batuku - Tabanka - Funana

BULIMUNDO 

foi o meu inspirador amigo e excelso DJ João Melgueira 
que me trouxe a este funaná 
passe o tempo que passar
nem saio deste som
nem me esqueço de onde veio esta tão grande prenda. <3

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Ciméria






polaroids de Patti Smith



''Nenhum dos sofismas da loucura, - a loucura que se encarcera, - foi esquecido por mim: poderia repeti-los todos, possuo o sistema. Minha saúde viu-se ameaçada. Sobrevinha o terror. Caía no sono durante dias seguidos e, uma vez desperto, continuava os sonhos ainda mais tristes e, por um caminho cheio de perigos, a minha fraqueza conduzia-me aos confins do mundo e da Ciméria, pátria das sombras e dos turbilhões.''
Rimbaud*, Uma Estação no Inferno

* leio o Rimbaud como o Mexia ouve os Smiths.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

19.2.2017 / 1º Aniversário da Galeria Germinal

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Emily Dickinson Wellcome


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

: o fato-escuro do medo

*irony alert*


Pára já tudo e o que quer que seja que estás a fazer porque vais morrer. Larga lá esse sorriso e lembra-te que o Holocausto existiu. Desmarca o casamento e rasga as cartas-de-amor de ontem porque há crianças em África a morrer de fome. Deixa de planear ter filhos porque neste mundo há refugiados, sem abrigo, ditadores e armas nucleares prontas a disparar. Larga de uma vez os filmes e os livros e a música e os concertos porque, mais tarde ou mais cedo, há-de vir um tsunami, ou um sismo, ou um meteorito, ou uma peste. Constrói o teu bunker (sozinho, porque de ti sabes tu bem mas nunca sabes o que é que um outro poderá vir a pensar) e fica lá até ao fim porque, se saíres, pode cair-te um piano em cima da cabeça.



sábado, 11 de fevereiro de 2017

''O último retrato de Giacometti''

Os filmes biográficos são, em geral, desinteressantes.
Ao ver o trailer para o novo ''The Final Portrait'' (Stanley Tucci),  interpretado por Geoffrey Rush, continuo a não entender porque é que se vai falar de Giacometti pelas hipérboles da ficção quando um bom documentário sobre o artista está em falta. 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

STEREODOX: are we dead yet?


BONNIE PRINCE BILLY / THE CURSE
https://www.youtube.com/watch?v=jVgAU5_cGVs

The Spectacle of Youth.

''Mal usámos a nossa juventude.''
Tristan e Isolda

Le Nouveau Testament, Sacha Guitry, 1936

como amantes / de olhos fechados / e lâmpadas nos dedos / e na boca

A Ghost Story, David Lowery, 2017

Faz-se Luz

Faz-se luz pelo processo 
de eliminação de sombras 
Ora as sombras existem 
as sombras têm exaustiva vida própria 
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela 
intensamente amantes    loucamente amadas 
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta 
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem 

Por outro lado a sombra dita a luz 
não ilumina    realmente    os objectos 
os objectos vivem às escuras 
numa perpétua aurora surrealista 
com a qual não podemos contactar 
senão como amantes 
de olhos fechados 
e lâmpadas nos dedos    e na boca 

Mário Cesariny, in "Pena Capital" 

Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.

In a Lonely Place, Nick Ray, 1950
O projeto desejo (2015) de Grada Kilomba

«Escrevo e o que escrevo não conduz a parte alguma. As palavras são pobres, brancas, transparentes. São, talvez, uma silenciosa irradiação do vazio. Mas é assim que me aproximo do deus desconhecido.» 
(António Ramos Rosa, O Deus Nu(lo))

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão. 
Vergílio Ferreira, in 'Pensar' 

Quando escrevo, repito o que já vivi antes. 
E para estas duas vidas, 
um léxico só não é suficiente. 
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo 
vivendo no rio São Francisco. 
Gostaria de ser um crocodilo 
porque amo os grandes rios, 
pois são profundos como a alma de um homem. 
Na superfície são muito vivazes e claros, 
mas nas profundezas são tranquilos 
e escuros como o sofrimento dos homens.

Guimarães Rosa

Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive.


Autobiografia
Vejo o meu pai, no limite da minha infância, dobrar a porta do pátio, com um baú de folha na mão. Vejo-o de lado, e sem se voltar, eu estou dentro do pátio e não há, na minha memória, ninguém mais ao pé de mim. Devo ter o olhar espantado e ofendido por ele partir. Mas alguns meses depois o corredor da casa da minha avó amontoa-se de gente, na despedida de minha mãe e da minha irmã mais velha que partiam também. Do alto dos degraus de uma sala contígua, descubro um mar de cabeças agitadas e aos gritos. Estou só ainda, na memória que me ficou. Depois, não sei como, vejo-me correndo atrás da charrete que as levava. O cavalo corria mais do que eu e a poeira que se ia erguendo tornava ainda a distância maior. Minha mãe dizia-me adeus de dentro da charrete e cada vez de mais longe. Até que deixei de correr. Dessa vez houve choro pela noite adiante - tia Quina contava, conta ainda. Mas não conta de choro algum dos meus dois irmãos que ficavam também. Deve-me ter vibrado pela vida fora esse choro que não lembro. É dos livros, suponho. Depois a infância recomeçou. Três irmãos, duas tias e avó maternas, depois a vida recomeçou. Mas toda essa infância me parece atravessar apenas um longo Inverno. É um Inverno soturno de chuvas e de vento, de neves na montanha, de histórias de terror, contadas à luz da candeia no negrume da cozinha, assombrada de tempestade. Até que um dia um tio de minha mãe, que era padre na aldeia, se pôs o problema de eu não ser talvez estúpido. E imediatamente se empolgou para me consagrar ao Altíssimo. E para me ir desbravando a alma, juntamente com a doutrina, atacou-me a memória com o latinório todo da missa. Aprendi-o sem falhas, ia eu nos seis anos. E quando aos sete o fui ver esticado na cama, a face toda negra, e me obrigaram a beijar-lhe a mão morta, já tinha o destino talhado para o Senhor. Minhas tias apoderaram-se logo de mim, negligenciando um pouco os meus irmãos, e sufocaram-me de religião. Na instrução primária cumpri. Deus mostrava à evidência que me chamava ao seu serviço. Era forte em contas, mais atrapalhado em História, de qualquer modo, os desígnios de Deus eram evidentes. E assim, para se cumprir a sua vontade, parti. Ficava à distância de um dia de comboio, o Seminário. Saio na estação ao anoitecer, há uma multidão de seminaristas à minha volta, todos vestidos de preto. Estou entre eles, não conheço ninguém. Avançamos pelo escuro estrada fora, no tropear confuso de uma enorme massa negra. O Seminário espera-nos numa curva da estrada. É um casarão enorme, olho-o do fundo do meu pavor. Há Outono à minha volta, respiro-o agora em todo esse passado morto, nos castanheiros a desfolharem-se na cerca, no espaço dos salões, nos longos corredores ermos, nos ângulos cruzados pelos espectros perfeitos. Mas seis anos depois, levantado de heroísmo, saí. Fiz o liceu, entrei na Universidade. Mas não o fiz assim em três palavras como o faço aqui. Meu irmão corpo. Como foi difícil acomodarmo-nos um ao outro. A vida que me coube não a pude utilizar toda. Numa fracção dela acumulei assim aquilo com que se realiza - o sonho, o trabalho, a alegria.
E eis que se me levantam os sete anos de Coimbra. Sombrios, longos, penosos. Mas o que acede desse tempo à evocação tem apenas o halo de uma balada. Ruas da Alta, e a Torre, e o plácido rio do alto da Universidade, e os mestres que eu julgava um prodígio da Natureza, quando cheguei à cidade, e fiquei a julgar também, a vários deles, quando saí, mas com outro sinal, e a praxe estúpida, e os namoros estúpidos, e a descoberta, enfim, da literatura, que só então descobri, embora trabalhasse há muito o verso com obstinação, e as tertúlias, as rixas, o próprio futebol, as próprias desgraças físicas - tudo me ressoa agora a uma toada de legenda. Da festa juvenil, como da festa literária eu só conhecia as margens do rumor que transbordava da alegria dos outros. Isso basta, porém, a que a legenda se me levante e o seu eco me ondeie ao espaço da evocação. Assim Coimbra, só no ressoar do seu nome tem já um timbre de guitarra. Música de miséria, não é nela que eu a ouço, mas no passado que a transcende e é da memória inatingível, da memória absoluta. Coimbra da saudade difícil, Coimbra de sempre e de nunca. Comigo a levei, longo tempo me acompanhou, presente, obsessiva. Mas havia tanta coisa ainda à minha espera. Faro do ar marinho, da laguna das águas mortas, Bragança das invernias, Évora, Lisboa. Professor sou-o por fatalidade. Mas alguma coisa se me impõe na avidez dos alunos que me escutam, na necessidade de responder à sua descoberta do Mundo - e assim me invento o professor que não sou, e eles imaginam em verdade o que é em mim só ficção. Mas dos centros de irradiação da minha actividade, apenas Évora transbordou de emoção para a lembrança. E como a Coimbra, é de novo a música, agora o coral dos camponeses, que a levanta ao espaço da minha comoção. Ouço-o ainda agora, a esse coro de amargura, raiado à infinidade da planície. Évora do silêncio com sinos nas manhãs de domingo, estradas abandonadas à vertigem da distância, ó cidade irreal, cidade única, memória perdida de mim. Sou do Alentejo como da serra onde nasci, a mesma voz de uma e outra ressoa em mim a espaço, a angústia e solidão.
E a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que se lá viva há 18 anos como eu. Eu o disse, aliás, a alguém, na iminência de vir: quando for para Lisboa, levo a província comigo e instalo-me nela. E assim se fez. Os livros que aqui escrevi são afinal da província donde sou. Terrorismo do trânsito, das relações pessoais, da luta em febre pela glória por que se luta ou do ódio surdo pela que calhou aos outros, terrorismo das distâncias, das relações humanas ao telefone, das cartas que nos escrevemos para de uma rua a outra ao pé, da cultura tratada a uísque nos salões do mundanismo, da individualidade perdida, da vida massificada. Vejo-me numa enfermaria do hospital, acordando estranhamente de não sei que tempo de inconsciência, com vários médicos conversando entre si e sobre mim. Pergunto de que se trata, porque estou ali. «Foste atropelado» - diz-me o meu filho, que é um dos médicos. Tenho fractura do crânio, várias contusões pelo corpo. Lisboa, selvagem, cidade bonita na claridade dos prédios, no rio das descobertas, no aéreo das colinas, meu veneno e minha sedução. Fui atropelado. Mas é talvez justo que o fosse. Porque eu não sou daqui.
Maio, 1977 - Godinho, Helder e Ferreira, Serafim (organização), Vergílio Ferreira - fotobiografia, Bertrand Editora, Outubro de 1993.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

... a poesia do que está atrás dos cortinados, do que está debaixo da cama ...


''...Tenho a cabeça cheia de frases!, do Eliot, do Rilke, do Alexandre O’Neil, do Ruy Belo e do Winnie The Pooh; para além de outras que não reconheço, e que se calhar são as mais importantes ou significativas. Quando falo na minha poesia do que está atrás dos cortinados, o que está debaixo da cama, esses medos infantis, tenho no horizonte relações com esses poemas do Milne....''
Manuel António Pina

(consequências de um estado de alerta)

Circunstâncias recentes levam-me a fazer este post que, muito duro, muito sincero e muito breve, segue no âmbito de outras discussões mais gerais que têm (felizmente) acontecido em espaço público (no âmbito do Ciclo Género e Identidade).
A violência contra as mulheres é real e não há mulher que não tenha as suas histórias. Chega sob variadas formas que a internet só veio potenciar. Há quem ache que conhece o outro porque é seu amigo no Facebook. Há quem use isto para facilmente se informar de paradeiros e concretizar a perseguição virtual em moradas. Surgem convites de todo o tipo, dickpics, elogios excessivos, pedidos de casamento, perguntas invasivas, enfim. É porque o machismo ainda está profundamente instalado na sociedade que há gerações de mulheres preparadas para o pior e é precisamente porque não há rapariga ou mulher que não tenha histórias que elas falam entre si - consciente de que TÊM de se informar e de se proteger. Infelizmente, isto pode resultar em retratos-robô injustos que se propagam até prova em contrário. Neste estado de medo difusamente instalado, é natural que alguns homens acabem a sofrer pelas acções de outros. Mas, não é tudo legítimo e compreensível? Agora, se vocês não são potencialmente perigosos, tenham atenção e não se armem em stalkers e creeps junto de quem não vos conhece para lá disto. É o meu conselho.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

porque eu vivo / e você também / e o que é vivo / se descontrola.

Spione, Fritz Lang, 1928
CÍLIOS
JULIA DE CARVALHO HANSEN
Entre nós a dimensão que importa
é o tamanho dos teus cílios
e como eles se curvam
conforme você ri ou se preocupa
eu estudo tanto cada gesto — cada passo
consulto tudo que eu posso
vejo sinais em tanto — colho indícios
contudo espero o instante
em que algo ou tudo pode sair do lugar
alguém quebrar os dois tornozelos
perder o timing do spaghetti
e o macarrão ficar molenga
ou uma abelha zunindo no cabelo
fascinada pelo açúcar no café
num acesso de vertigem
todo eu é ruidoso
porque eu vivo
e você também
e o que é vivo
se descontrola.

''o amor me esquartejou em seis''

Mildred Peirce, Michael Curtiz, 1946

o amor me esquartejou em seis
continentes incapazes de se conter
o modo que eu morri
foi tão de repente
confesso fui eu que puxei seus dentes
antes e durante o entardecer tem rosas
nítidas e supérfluas sobre a mesa
purificando o meu espírito trôpego
foi-me dado um candeeiro um circo
ateando um chicote no lombo do acidente
eu me antecipo cada vez que vejo um poço
teu vitalício laço de fita nó de corda meu amor
a tua língua vale o que vale
teu ricochete, teus meandros
medos, usuras, os prevenidos
armários das famílias
abertos pelo caos nos guiamos
olhos mais longos que os de lúcifer
moram nas suas coxas
quando me anteveem
marfim, colchão mole
água na boca
no tronco um portão
noite luz

Júlia de Carvalho Hansen

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

STEREODOX: {Ode a #ConanOsiris}

Se oiço e desorbito, encharco-me na falta de
todos mundos que
ando a perder e
(já só quero abrir no tempo)
https://soundcloud.com/conanosiris

Trabalho / um privilégio ocasionalmente concedido.

Reflexão sobre as causas da liberdade e da opressão social, Simone Weil

Chomsky elogia a geringonça.