quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

''o que foi já não será''

Opening Night, John Cassavetes, 1977

Todos nós, todos temos uma hora cobarde,
uma hora de tédio ao morrer da tarde.
Quando parte o amigo que nos dá calor,
o amigo de ouro, o Mago Criador.
Quando se juntam as más impressões
e a alma é um tecido de finíssimas asas.
Quando pode dizer-se: o que foi já não será,
o que hoje não fiz nunca mais o farei.
É então, cobarde, que me acossa o desejo
de não ser e nem penso, nem trabalho, nem creio.
É uma completa nulidade de mim mesma
que me assusta e me fere, me subjuga e me espanta.
É então que eu gostaria de ser assim,
coisa nímia, fútil, banal.
Um brinquedo que se guarda no bolso,
uma jóia qualquer, um anel, um relógio...
Ser uma coisa morta que se leva às costas,
que não sabe nada, que não pensa em nada.
Todos nós, todos temos uma hora cobarde,
uma hora de tédio ao morrer da tarde.
- Alfonsina Storni

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