quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

''amarrados à indigência no trabalho,/ à palavra clandestina.''



Eu vi
os melhores poetas da minha geração
desterrados, deserdados,
escondidos no fundo dos bares,
e vi seus olhares
como versos trepidantes
cavalgar para o fim da noite,
e vi sua ternura destroçada
pela abundância dos que os temem
e em seu temor os fazem grandes.
Vi-lhes na bondade do gesto
a rebeldia de um mundo
que não precisa lei nem ordem para ser justo,
a teimosa razão de quem à vida responde com a vida mesma.
Vi uma canção sem letra nem remetente
e eles entenderam-na.
Vi-os erguer-se
contra os versos refinados e submissos,
vi-os amarrar-se às escavadoras
para travar a destruição da sua terra e da consciência,
e ninguém os convidou para os palácios de Doñana,
muito menos para editar poemas com o selo hipócrita
dos que ao lavar a cara emporcalham o mundo.
Vi como se enganavam para perder
numa roda de ganhadores,
como lacraus numa fogueira que desintegra e reduz
a inteligência e o medo.
E por tudo isso processados foram,
sentenciados e condenados,
amarrados à indigência no trabalho,
à palavra clandestina.
Vi os melhores poetas da minha geração
quebrar os versos à consciência
“porque outros também o fazem
e não aconteceu nada” (Eladio Orta).
Com sua sede de mudança,
suas humanas contradições,
sua resistência ao pensamento único,
vi os poetas da minha geração
perder as oportunidades,
e não aconteceu nada,
porque não há nada mais digno
do que ser consequente e efémero
em qualquer tempo e verso.
Só a vocação devolve o género à sua origem,
essa maldita poesia que nos faz livres
perante a tradição.

Uberto Stabile
(Trad. A.M.)

Sem comentários:

Enviar um comentário