domingo, 31 de dezembro de 2017

STEREODOX: Where there's music and there's people / And they're young and alive

The AwfuI Truth, Leo McCarey (1937)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

2018, para Nada.


At home in nothingness by To-SiLand

Queremos ligações profundas e significativas, frases entre-completas a dois, ídolos coincidentes, conversas pulsantes, flores, filmes, baladas, ornamentos... enfim, barro para romance: o constante estímulo de um outro que, idealmente, seja tão reconhecível que só espelha e certifica. Mas isto tudo para quê se, no fundo, o mais provável é que sejamos todos uns profundos chatos? Eu digo: esquece tudo o que aprendeste, todos os dias. Rodeia-te de antagonismos e não lhes resistas - estás a caminho de te esqueceres de ti. (E como sempre tão bem lembra o Ricardo Araújo Pereira, mestre zen: os sentimentos são sobrevalorizados. Melhor motto.)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

2018 segundo as escrituras de RAP

Visão, 28.12.2017, p.130

«Eu existo para assistir ao fim do mundo»

Fury, Fritz Lang, 1936
1999
Estrelas em fragmentos rolarão sobre mim.
Retratos de belas dançarinas serão levados pelo vento
Até a cova rasa em que descanso.
Ninguém pode morrer, que a flor não deixa,
A sombra da árvore não deixa, a pedra e a cruz não deixam.
Tudo começa de novo e existe para sempre.
Eu amei todas e todas me amaram sem saber.
A semente de trigo deu a volta ao mundo
E se levanta em hóstia sobre minha alma seqüestrada.
Rio, murmura como no primeiro dia da criação,
Cometa, surge de novo me incorporando ao céu,
Operário, transmite no espaço o coro da humanidade.
Eis que venho sobre as nuvens.
Tocam-se o fim e o princípio:
FIAT LUX outra vez.

[de Convergência]
MURILOGRAMA A T .S. ELIOT
NO MEU PRINCÍPIO ESTÁ MEU FIM.

Os tempos se sucedem se acavalam, engrenagem
Se autoesfregando, se roendo, se recriando
Em contínua autoinvenção & metamorfose.
A luz cai vertical no princípio & no fim,
No osso do homem & na sua pele.
Matéria & forma se ajustam no alto & no baixo.
Tudo já foi escrito repensado
Na caverna & no espaço do reator.
Já vivemos & fomos vividos por outrem
Já usamos & fomos usados por outrem
No renovado atrito & rotação
De coisas & pessoas levigadas
Pela terra a teologia a matemática.
Se encontram claro & escuro, se abraçando.
Poeta & economista,
Filólogo & físico nuclear
Se embatem, se penetram.
Já morri. Já fui julgado. Já ressuscitei.
Já esteve. Já foi. Já principiou.
Já pensou. Já explodiu.
IN MY BEGINNING IS MY END.
Amanhã é súbito antigamente.
Antegiro. Antepoeira. Antepalavra
Exausta ressurrecta.
Já posthouve. Já postfui.
Antes & post.
Antepost.

os mortos são muitos e / dos vivos basta um




no dia de todos os mortos quero um homem
bem vivo na minha cama
pois os mortos são muitos e
dos vivos basta um
se não chegar
dá deus outro
parecido com os demais onde é preciso
cada vivo desalinhar

bénédicte houart

(todo o calor é de mais dentro que vem)

A Streetcar Named Desire, Elia Kazan, 1951

RETRATO
Uma demora lenta nas palavras
um calor bom na palma das mãos
uma maneira de gostar das pessoas e das coisas
sem tolher movimentos ou forçar as superfícies
beber aos golinhos o café a ferver
ou o whisky chocalhado com pedrinhas de gelo
viver viver roçando as coisas ao de leve
sem poupar o veludo das mãos e do corpo
sem regatear o amor à flor da pele
olhar em torno de si perdida ou esperar o verão
e saber de um saber obscuro que o calor
todo o calor é de mais dentro que vem

Rui Caeiro

the road.


conhecer é comparar.


quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Sampling Jonas Mekas

VÍTOR COLARES / Solidão: https://www.youtube.com/watch?v=_Djxih3ryOo

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

(to be or not to be)

Little Men existe com a naturalidade do que veicula: uma inclinação moral natural das crianças que é tão genuína como a sua vocação artística.  Da mesma forma, este filme não quer ser nada - ele é.

Little Men, Ira Sachs, 2016
The Bridges of Madison County, Clint Eastwood, 1995


 

domingo, 24 de dezembro de 2017

(A MORTE DE LOUIS XIV, o filme que faltou ao meu top).


O som n'A Morte de Louis XIV do Albert Serra está notável. Das palmas a ecoar em redor do leito (em simultâneo, a desenhar a altura da sala excessiva e a solidão do rei acamado) até à primeira composição musical que, contemporânea, arrítmica e experimental, só se inicia após quarenta minutos de som diegético. Como se num concerto de câmara, até o cristal corta neste quarto onde, sob um pesado tiquetaque, o corpo amplificado pela doença é o centro de todos os escrutínios. Depois, como uma oração, um inesperado trecho barroco que, em coro, começa num mastigar de bolacha e termina, a uma só voz, nuns olhos voltados para o fim.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

STEREODOX: Eternity where the soul never dies:

STEREODOX: Santa Claus is back in town

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

STEREODOX: ( The Beatles brought me out of the darkness / and I can feel / feel real again)

Daniel Johnston: the Lennon Song 

STEREODOX: ''if we were all in the movies / maybe we wouldn't be so bored.''



The Fearmakers, Jacques Tourneur, 1958

LIFE IN VAIN, Daniel Johnston

(''Existe internet fora do Face mas a gente não lembra disso.'')

domingo, 17 de dezembro de 2017

''No nosso sangue / corria um vento de sermos sós''

https://www.youtube.com/watch?v=_6Z1sbUPqgU&feature=share


"Verdes Anos" de Pedro Tamen

Era o amor
que chegava e partia:
estarmos os dois
era um calor
que arrefecia
sem antes nem depois…
Era um segredo
sem ninguém para ouvir:
eram enganos
e era um medo,
a morte a rir
nos nossos verdes anos...

Teus olhos não eram paz,
não eram consolação.
O amor que o tempo traz
o tempo o leva na mão.

Foi o tempo que secou
a flor que ainda não era.
Como o Outono chegou
no lugar da Primavera!

No nosso sangue corria
um vento de sermos sós.
Nascia a noite e era dia,
e o dia acabava em nós…

O que em nós mal começava
não teve nome de vida:
era um beijo que se dava
numa boca já perdida.

sábado, 16 de dezembro de 2017

(in memoriam)

 
para o meu professor de argumento Luís Falcão (1975-2015)
novos éramos todos
nós dezoito dezanove
ele trinta e poucos mas
porque era profe
a gente nem ligava
a gente nem via que
ele era bem novo para aquele peso todo nos ombros.

a bem dizer era um romântico e
trágico como todos os poetas mas
a gente não lhe topava nenhum negro impeditivo e
apesar dos olhos tristes e dos títulos góticos ele
caía todo para a beleza e
aquela fome de existir contagiava e
na escola o Falcão aparecia em espírito e verve e abraçado à malta
ria e agitava e nós escutámos tudo à séria e
dissimulados
todos mais do que alunos fomos-lhe
discípulos.

a gente nunca tinha dinheiro
estudar cinema era caro
e em Lisboa pior
ele sabia
eram máquinas rolos tripés SDs PCs livros bilhetes cassetes e
ele pagava-nos uns copos aqui e acolá para
- falar sobre isso
claro que eram guiões maus mas
qual António Reis incarnado
ele
citava
citava
como quem
explica
explica
e
depois da paciência
esquecia-se nas horas
que passou a galope com Dom Quixote e Sancho Pança e
navegava em Proust que nenhum de nós conhecia e
idos pela voz que enrouquecia de tanto falar nós
aprendemos sobre almas altas e sentimentos e
sobre o excesso que é viver aí
no centro do tempo que nos falta para viver melhor e
hoje sabemos que
devemos ler e honrar os belos mortos e que
devemos escrever ou chorar em vão por
todos esses dias ainda eternos
todos esses dias que já não voltam.

não há
loas louvores elegias cartas consensos bastantes para cantar um
mestre que maior falta fará
às gerações que nunca saberão o que perderam.

mais uma noite sem morte a errar pelo bairro e a
cruzar copos e cigarros e lupas sobre livros recentes quando
me olha e me diz que
se lembra do Roth que eu citei na aula
: aquele que era mesmo isso
: aquele do sexo contra a morte
sex is also the revenge on death.
don't forget death.
don't ever forget it.
não sei como foi que
ginasticou esses dias sempre disponíveis mas
apesar da juventude ao menos publicou só que
não há nunca poderia haver
palavras onde esgotar quem assim
se entregou às horas que só entre nós somamos.

fui sabendo
que era um cancro desses piores
anos a fio visto de frente
: vislumbre de uma ferida de luz que nos trespassa
mas
nem quarenta ele tinha quando
quando
quando
Luís
(quando nos morreu o Falcão
ele morreu-nos a sério)
passaram dois anos mas bate igual e hoje
ao espelho do medo ainda
perguntamos por ti e
certos de que a doença é sempre erro
entramos-te pelos versos e
trocamos memórias contigo e
festejamos em coro as horas que habitas ainda
assegurando que
- por cá te demoras mais do que o corpo quis.
Sabemos que o tempo passou
Que alguma coisa deveria ter sido dita
(talvez depois, talvez mais tarde)
Deixamos atrás de nós
Uma sequência desconexa de gestos irreparáveis
E, feridos,
Por todas as coisas
que poderíamos ter evitado a nós próprios
Caminhamos para o silêncio

E para a escuridão indefinível dos bosques.



No dia em que a essência sagrada

das coisas se quebra

olhas a chuva nas flores das magnólias
e a morte
principia sobre ti o seu trabalho

Amanhã já as folhas
terão caído

desfigurando

cuidadosamente
uma voz que se confunde com a noite

Encontram-te uma veia
e expõem-te aos venenos
sepultanto no teu sangue
as nervuras
de um horror instransponível
um brilho de chumbo e finitude
contorcendo-se, sobrepondo-se
a uma fractura
definitivamente aberta à transparência

A casa fechando-se

sobre a vastidão da infância

infiltrações e humidades
entranhando-se
no tempo que te resta
a um canto
a correspondência interrompida
pressupostos inadiáveis
amontoando-se
sob o pulsar irredutível
de uma exigência de infinito

Top 2017 (Estreias comerciais em PT)

TOP 2017
esboçado para À PALA DE WALSH

1. Paterson, Jim Jarmusch 2. O dia seguinte, Hong Sang-Soo 3. O Outro lado da Esperança, Kaurismaki 4. Lucky, John Carroll Lynch 5. War for the Planet of the Apes, Matt Reeves 6. Lost City of Z, James Gray 7. Good Times, Irmãos Safdie 8. Fábrica de Nada, Pedro Pinho et al 9. Get Out, Jordan Peele 10. Félicité, Alain Gomis.

Em 2017, o meu #TopTen entre as salas comerciais reúne filmes que se destacam pela construção de nova linguagem (Lucky), pela sua depuração narrativa (Good Times e Lost City of Z), pela sua intervenção política sobre o presente (A Fábrica de Nada e O outro lado da Esperança), pelo manifesto integracionismo (War for the Planet of the Apes, Get Out e Félicité) ou pela meditação sobre o gesto criador (Paterson e O Dia Seguinte).
Alvíssaras, Paterson assinala o regresso de Jarmusch a Jarmusch: se o filme celebra a crença no ‘‘artista espontâneo’’, emergido marginalmente entre a banalidade do quotidiano, essa verdade protagoniza o quadro de um amor total, onde a disponibilidade para receber o outro em toda a sua diferença é a única matéria-prima possível a uma poesia em completa relação com o mundo. Paterson expõe e resolve o seu próprio problema ontológico: mesmo que ainda anónimo e já sem o seu caderno de escritos, Paterson continuará poeta porque é poeta (e ao contrário da namorada que se esforça por parecer artista, Paterson é e um poeta não precisa de poemas para o ser). O Dia Seguinte celebra a vitória da intuição moral: se falta experiência à juventude, é no seu desprendimento face às estruturas que vence o mundano. Aqui, o verso treinado apresenta-se como ornamento sobre a realidade e de fraca correspondência com ela: a jovem poderá não escrever tão bem quanto pensa, mas acredita no que sente e sai ilesa desses cansados jogos entre os homens e as mulheres. War of the Planet of the Apes, dá-nos a ler, a certa altura, numa parede: “Ape-apocalypse, now”. Não é preciso muito para que um animal seja mais moral do que um humano - sempre no-lo ensinou esta saga - mas, à escala da difusão Hollywoodesca, o simbolismo político do filme tem a amplitude de uma intervenção sobre um presente assolado pela crise dos refugiados (esses Outros, que também protagonizam o mais recente de Kaurismaki, d’O Outro lado da Esperança). Já em Get Out (que tem a força de uma primeira obra), está em causa a persistência da estratificação racial nos Estados Unidos, pela voz do actor-feito-realizador Jordan Peele, conhecido pelas suas interpretações cómicas de Barack Obama, onde se iniciava já esta meditação. E se Lucky reforça o eco, celebrando a miscigenação da sociedade norte-americana (com foco sobre a riqueza particular da comunidade latina), Good Times desfigura o pretty-fly-for-a-white-guy Robert Pattinson, para falar sobre a desigualdade que atravessa o presente americano para lá de etnias. Se persistem imensas dúvidas em relação à amálgama visual e sonora em que A Fábrica de Nada explode, aplaudimos esta incursão no cinema colectivo (uma irredutível celebração da estrutura grupal sempre implicada no fazer cinema, aqui nivelando quem filma e quem é filmado) e, de cada sequência, destilamos uma mão-cheia de ideias necessárias para construir uma chamada-à-acção, expondo a veracidade de uma auto-gestão fabril que funcionou ao longo de décadas. Mais do que um filme sobre a crise portuguesa, A Fábrica de Nada é, acima de tudo, um progressivo questionamento sobre a (in)adequação de um sistema global a quem o sustém, o Homem, na sua dimensão mais individual e mais colectiva, pelo caminho celebrando a potência criadora que habita cada um: corpo de trabalho, cabeça de lazer (e vice-versa).

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

‘‘Quando se mostra no teatro uma grande figura do passado, não se deve hesitar em dar-lhe a imagem que imaginamos’’ Sacha Guitry

Napoléon, Sacha Guitry, 1955


Remontons les Champs-Élysées, Sacha Guitry, 1938
Remontons les Champs-Élysées, Sacha Guitry, 1938
La Poison, Sacha Guitry, 1951