Elégia (Huszárik Zoltán, 1965)

 Dorogoy tsenoy (Mark Donskoy, 1957)

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https://www.youtube.com/watch?v=4Y0OK9f0vuM
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Pandora's Box (die Büchse der Pandora), G. W. Pabst, 1929 

Le pont du Nord, Rivette, 1981


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... tu podes muito bem ser de uma espécie inteiramente diferente. podes perfeitamente ser uma filha da Natureza e, por isso, capaz de a perceber, de a amar, de a compreender, de acordo com o que sintas.
The Petrified Forest (Archie Mayo, 1936)





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Para Vila do Conde 2017, ressuscito uma das homenagens prévias do festival e programo Visa de Censure nº X. À carne desaparecida de Pierre Clémenti, dedico a desregra do sonho, do desejo e da droga :

Cosmos Clémenti


Sonhei a fogo e a cores
dentro de um grão super 8
e halo de música ou sonho
vejo-me abrir os olhos
à aurora de Pierre que
farto de esperar por mim
já soltava sobre o meu braço a palmadinha amigável
de quem só deseja que me despache
num instante um
- pouco de maquilhagem, sim, mas só um pouco
- ou vestido longo ou a nudez
: orquestrava-me a saída o andrógino
com os seus modos florais
ele próprio numa bela túnica
tão longa e tão lilás
como os mais nobres céus da Antártida.
da janela do meu quarto vejo-os chegar
em passos de farra e de zombaria
: a turma Clémenti são os animais das estrelas
são os vivos e os mortos
são os raça à parte
são os boa branca boa castanha
são os profetas da viagem sideral
são a Nico e o Garrel
são o Warhol e o Glauber
são o Hendrix e o Crowley
são a Patti Smith e o Kerouac
são o Morrison e o Anger
são os nus de todas as mulheres e de todos os homens e
são todos os rituais e todos os passes de mágica e
são todos os deuses e todos os demos e todos os transes e
são alucinações néctares ácidos flautas fumos faunos e
são cada cor são cada forma são cada imagem por inventar.
: Fui saindo dos absolutos

- Fui de transparências obscenas
para os braços do Clémenti-canibal de Porcile.
- Fui de cavalo alado
a beijar o Clémenti-cupido de Cicatrice Intérieure.
- Fui de lambreta desportiva
roubar com o Clémenti-gangster de Belle de Jour.
- Fui a palpitar de amores e de pecado
para povoar com o Clémenti-diabo a Via Láctea.
- Fui de corpo sem cura
passear com o Clémenti-fetiche de Partner.
- Fui de solidão em preto bíblico
para dançar com o Clémenti-ícone de Il Gattopardo.
- Fui de Sade mal-lido
dormir com o Clémenti-Adão na Bacia de John Wayne.


fotomontagem de Bertrand Mandico 

Iam-se cumprindo
as profecias da cinefilia quando
a marcha subitamente se interrompeu e
o veículo nos largou
dentro dos dias de ontem.
Paris queimava ópios e ardia nas telescopias dos anos 60
quando
Clémenti se viu pleno
gloriosamente nu
cosmos em expansão.
À altitude das esferas e
à dianteira da mais desorganizada legião de situacionistas
vem de protagonismo renegado
vem de vísceras acesas pelos 17 meses de prisão em Itália
vem com a consciência a explodir em revolta e em revolução
vem com a dureza morena dos seus traços atlânticos
e
traz INTUIÇÃO e GÉNIO
: passa ao lado da nouvelle vague
é EXPERIMENTAL e
de câmara em punho
está em improviso
e quase a solo
e
: dá vida a viver
que é como quem diz
: faz filmes.
Como um filme contíguo revemos
: Bobine 27 (Souvenir Souvenir) Intro La Deuxiéme Femme Soleil Positiano La révolution n'est qu'un debut...
mas é
: Visa de Censure nº X



que trazemos para 2017
para celebrar os 25 anos das Curtas
com a obra que Clementi assina aos 25.
Iconografia pura
nunca assim se viu um homem tão nu e tão vestido
: em corpo e em rosto,
emblema que preencheu ecrãs
: em pele de cineasta
mais rápido do que a vida
desapareceu-nos cedo demais.
verdadeiro homem do futuro
Clémenti nasce e incendeia-se tão rápido como
um cristo que ainda volta
mas este confiou-nos o cinema
dos oráculos
e dos adventos
mistérios à altura do que ainda hoje é
(segredo)

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''A juventude deixa-nos uma marca profunda. Na nossa juventude nós não sentimos a felicidade pela qual passamos. Só depois, com mais idade, é que nos lembramos de como fomos felizes certas vezes na nossa juventude. É um ponto de referência insubstituível. A juventude dá-nos uma força, porque ela tem uma força, um impulso tão grande na vida... E quanto mais a idade vai avançado, mais relevo toma esse tempo.'' Manoel de Oliveira
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polaroids de Patti Smith



''Nenhum dos sofismas da loucura, - a loucura que se encarcera, - foi esquecido por mim: poderia repeti-los todos, possuo o sistema. Minha saúde viu-se ameaçada. Sobrevinha o terror. Caía no sono durante dias seguidos e, uma vez desperto, continuava os sonhos ainda mais tristes e, por um caminho cheio de perigos, a minha fraqueza conduzia-me aos confins do mundo e da Ciméria, pátria das sombras e dos turbilhões.''
Rimbaud*, Uma Estação no Inferno

* leio o Rimbaud como o Mexia ouve os Smiths.
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In a Lonely Place, Nick Ray, 1950

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão. 


Vergílio Ferreira, in 'Pensar' 
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Autobiografia
Vejo o meu pai, no limite da minha infância, dobrar a porta do pátio, com um baú de folha na mão. Vejo-o de lado, e sem se voltar, eu estou dentro do pátio e não há, na minha memória, ninguém mais ao pé de mim. Devo ter o olhar espantado e ofendido por ele partir. Mas alguns meses depois o corredor da casa da minha avó amontoa-se de gente, na despedida de minha mãe e da minha irmã mais velha que partiam também. Do alto dos degraus de uma sala contígua, descubro um mar de cabeças agitadas e aos gritos. Estou só ainda, na memória que me ficou. Depois, não sei como, vejo-me correndo atrás da charrete que as levava. O cavalo corria mais do que eu e a poeira que se ia erguendo tornava ainda a distância maior. Minha mãe dizia-me adeus de dentro da charrete e cada vez de mais longe. Até que deixei de correr. Dessa vez houve choro pela noite adiante - tia Quina contava, conta ainda. Mas não conta de choro algum dos meus dois irmãos que ficavam também. Deve-me ter vibrado pela vida fora esse choro que não lembro. É dos livros, suponho. Depois a infância recomeçou. Três irmãos, duas tias e avó maternas, depois a vida recomeçou. Mas toda essa infância me parece atravessar apenas um longo Inverno. É um Inverno soturno de chuvas e de vento, de neves na montanha, de histórias de terror, contadas à luz da candeia no negrume da cozinha, assombrada de tempestade. Até que um dia um tio de minha mãe, que era padre na aldeia, se pôs o problema de eu não ser talvez estúpido. E imediatamente se empolgou para me consagrar ao Altíssimo. E para me ir desbravando a alma, juntamente com a doutrina, atacou-me a memória com o latinório todo da missa. Aprendi-o sem falhas, ia eu nos seis anos. E quando aos sete o fui ver esticado na cama, a face toda negra, e me obrigaram a beijar-lhe a mão morta, já tinha o destino talhado para o Senhor. Minhas tias apoderaram-se logo de mim, negligenciando um pouco os meus irmãos, e sufocaram-me de religião. Na instrução primária cumpri. Deus mostrava à evidência que me chamava ao seu serviço. Era forte em contas, mais atrapalhado em História, de qualquer modo, os desígnios de Deus eram evidentes. E assim, para se cumprir a sua vontade, parti. Ficava à distância de um dia de comboio, o Seminário. Saio na estação ao anoitecer, há uma multidão de seminaristas à minha volta, todos vestidos de preto. Estou entre eles, não conheço ninguém. Avançamos pelo escuro estrada fora, no tropear confuso de uma enorme massa negra. O Seminário espera-nos numa curva da estrada. É um casarão enorme, olho-o do fundo do meu pavor. Há Outono à minha volta, respiro-o agora em todo esse passado morto, nos castanheiros a desfolharem-se na cerca, no espaço dos salões, nos longos corredores ermos, nos ângulos cruzados pelos espectros perfeitos. Mas seis anos depois, levantado de heroísmo, saí. Fiz o liceu, entrei na Universidade. Mas não o fiz assim em três palavras como o faço aqui. Meu irmão corpo. Como foi difícil acomodarmo-nos um ao outro. A vida que me coube não a pude utilizar toda. Numa fracção dela acumulei assim aquilo com que se realiza - o sonho, o trabalho, a alegria.
E eis que se me levantam os sete anos de Coimbra. Sombrios, longos, penosos. Mas o que acede desse tempo à evocação tem apenas o halo de uma balada. Ruas da Alta, e a Torre, e o plácido rio do alto da Universidade, e os mestres que eu julgava um prodígio da Natureza, quando cheguei à cidade, e fiquei a julgar também, a vários deles, quando saí, mas com outro sinal, e a praxe estúpida, e os namoros estúpidos, e a descoberta, enfim, da literatura, que só então descobri, embora trabalhasse há muito o verso com obstinação, e as tertúlias, as rixas, o próprio futebol, as próprias desgraças físicas - tudo me ressoa agora a uma toada de legenda. Da festa juvenil, como da festa literária eu só conhecia as margens do rumor que transbordava da alegria dos outros. Isso basta, porém, a que a legenda se me levante e o seu eco me ondeie ao espaço da evocação. Assim Coimbra, só no ressoar do seu nome tem já um timbre de guitarra. Música de miséria, não é nela que eu a ouço, mas no passado que a transcende e é da memória inatingível, da memória absoluta. Coimbra da saudade difícil, Coimbra de sempre e de nunca. Comigo a levei, longo tempo me acompanhou, presente, obsessiva. Mas havia tanta coisa ainda à minha espera. Faro do ar marinho, da laguna das águas mortas, Bragança das invernias, Évora, Lisboa. Professor sou-o por fatalidade. Mas alguma coisa se me impõe na avidez dos alunos que me escutam, na necessidade de responder à sua descoberta do Mundo - e assim me invento o professor que não sou, e eles imaginam em verdade o que é em mim só ficção. Mas dos centros de irradiação da minha actividade, apenas Évora transbordou de emoção para a lembrança. E como a Coimbra, é de novo a música, agora o coral dos camponeses, que a levanta ao espaço da minha comoção. Ouço-o ainda agora, a esse coro de amargura, raiado à infinidade da planície. Évora do silêncio com sinos nas manhãs de domingo, estradas abandonadas à vertigem da distância, ó cidade irreal, cidade única, memória perdida de mim. Sou do Alentejo como da serra onde nasci, a mesma voz de uma e outra ressoa em mim a espaço, a angústia e solidão.
E a minha biografia deve ter findado aqui. Lisboa é um sítio onde se está, não um lugar onde se vive. Mesmo que se lá viva há 18 anos como eu. Eu o disse, aliás, a alguém, na iminência de vir: quando for para Lisboa, levo a província comigo e instalo-me nela. E assim se fez. Os livros que aqui escrevi são afinal da província donde sou. Terrorismo do trânsito, das relações pessoais, da luta em febre pela glória por que se luta ou do ódio surdo pela que calhou aos outros, terrorismo das distâncias, das relações humanas ao telefone, das cartas que nos escrevemos para de uma rua a outra ao pé, da cultura tratada a uísque nos salões do mundanismo, da individualidade perdida, da vida massificada. Vejo-me numa enfermaria do hospital, acordando estranhamente de não sei que tempo de inconsciência, com vários médicos conversando entre si e sobre mim. Pergunto de que se trata, porque estou ali. «Foste atropelado» - diz-me o meu filho, que é um dos médicos. Tenho fractura do crânio, várias contusões pelo corpo. Lisboa, selvagem, cidade bonita na claridade dos prédios, no rio das descobertas, no aéreo das colinas, meu veneno e minha sedução. Fui atropelado. Mas é talvez justo que o fosse. Porque eu não sou daqui.
Maio, 1977 - Godinho, Helder e Ferreira, Serafim (organização), Vergílio Ferreira - fotobiografia, Bertrand Editora, Outubro de 1993.
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''...Tenho a cabeça cheia de frases!, do Eliot, do Rilke, do Alexandre O’Neil, do Ruy Belo e do Winnie The Pooh; para além de outras que não reconheço, e que se calhar são as mais importantes ou significativas. Quando falo na minha poesia do que está atrás dos cortinados, o que está debaixo da cama, esses medos infantis, tenho no horizonte relações com esses poemas do Milne....''
Manuel António Pina
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Até dia 19 de Julho!, vamos falar de Género e Identidade no Nimas. Em colaboração com os Medeia e a Leopardo Filmes, Bruno Marques, Mariana Gaspar, Luís Mendonça e Sabrina Marques (Instituto de História da Arte - FCSH NOVA / FCSH ) organizaram uma selecção de filmes clássicos e contemporâneos entre 4 capítulos - (RE)DEFINIÇÕES DO FEMININO, WOMEN POWER, SUBJUGAÇÃO E VIOLÊNCIA, QUEER & TRANSGÉNERO - e a primeira sessão+debate acontece já no dia 15 de Fevereiro, em torno do filme ACADEMIA DAS MUSAS (de Guerín) com moderação de Luís Mendonça e participação de Clara Rowland e Elisabete Marques.🌈

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