sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A cartola de Marlene

Falando de chapéus.


Morocco, Josef von Sternberg (1930)


Marlene não diz uma palavra ao anfitrião desse clube nocturno de elites, onde o exotismo de Marrocos avança na noite. O clima é de inesperado. Faz expandir a cartola com um estalido e, a passo altivo, entra a fumar em palco. O súbito travestismo total em nada se encaixa no nome previamente anunciado: Amy Jolly. E se um primeiro coro de vaia demonstra como este número agrada a escassa audiência, é pela femínissima voz saída do mais desenhado dos rostos que a todos - homens e mulheres - igualmente conquista. Encantadoramente ambígua, é simultaneamente o homem galante que guarda de uma mulher uma rosa enquanto lhe rouba um beijo, e a mulher que lança a um homem a sua rosa como uma promessa ao vento.
‘‘Se jogara hibridamente no estatuto masculino (...) termina na assunção total da feminilidade’’, acerta João Bénard da Costa ao ver na beldade de rosto fechado que de várias formas se viriliza, uma mulher à procura de um nova forma de ser. Amy Jolly perde-se em Marrocos para não ser quem já foi mas, ao segurar de si para si o permanente espelho (obsessivo emblema de auto-exame em que nos é apresentada) é, construindo contra o passado, uma redefinição geral de feminino o que autonomamente inventa.
Seduzindo-nos pelo mistério, Amy Jolly e Marlene são apresentadas ao mundo na dureza cortada daquele fato negro, pontuado por uma cartola que o fôlego de Sternberg fez voar para Hollywood. E daquela cartola sairiam as mil Marlenes com que o cinema só aqui, em 1930, começava a sonhar.

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