''O Cinema'' não existe.

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BOM = MAU 
Essa coisa d'O Cinema não existe. 


A crítica é um combate contra o gosto. O gosto conforma.
LUIS MENDONÇA


- O CINEMA SÃO OS CINEMAS

Vê-se muito por aí essa formulação ''O Cinema'', como se de uma sacrossanta entidade indivisível se tratasse. Só que quem assim capitula o discurso por uma pseudo-intenção proteccionista e saudosa de um ‘‘Grande Cinema’’ - essa espécie em extinção - não percebe que, mais do que errada, esta formulação é nociva. A arte e a crítica são dois organismos interdependentes mas com um grau relativo de autonomia. Não vejo maior inutilidade do que essa necessidade de destilar entre ''bom cinema'' e ''mau cinema'', maiores ou menores filmes, quando o gosto artístico é e deve ser subjectivo. Interessa que a crítica parta do particular e se apresente sinceramente: que a defesa de dado objecto surja da verdade de uma crença pessoal, sem projectos ulteriores de adesão das massas.


- A CRÍTICA PARCIAL


A crítica artística tem de existir. É imprescindível que se continue a construir um lugar de avaliação da expressão artística, onde graduações e avaliações reflectem o mundo e sobre ele lançam pistas - não factos. Os críticos não são isentos nem são máquinas de produzir juízos objectivos, e ainda bem. Os críticos são parciais e formulam opiniões e juízos de gosto e de valor. Evoluem, oscilam, permanentemente revêem as suas próprias posturas e opiniões. O crítico não é enfastiado - é sempre jovem. O crítico tem espaço para receber. O crítico não descansa a reflexão à sombra de um gosto pré-instalado. 



- PARA LÁ DO BOM / MAU, A PERTINÊNCIA


Não há importâncias absolutas: importa tudo o que melhor nos ajudar a perceber o nosso presente, individual ou colectivamente. Um dos mais habituais pontapés-de-saída de Zizek - ''THE POINT IS...'' - podia ser definidor do lugar do cinema na contemporaneidade; nunca está em questão se é bom se é mau, mas sim: what's the point? Zizek, permanentemente debruçado sobre o que significa existir hoje, ensinou-nos que o princípio constituinte da era é a validade do gesto analítico mais do que o objecto de análise: ao discorrer sobre sanitas e sobre ovos Kinder, recorda a vital importância de abrir os olhos e de, verdadeiramente, perguntar tudo. Uma pergunta é um ponto de expansão que não cabe no funil dos TOPs e da contraposição a preto-e-branco que encaminha uma arte numa direcção homogénea. Traçar, com a impermeabilidade de régua e esquadro ''o que é bom'' e ''o que é mau'', fazendo do juízo de gosto uma regra a que se deseja que os outros adiram, está próximo de um princípio de fascismo.

"All films are born free" Bazin


- TODOS OS OBJECTOS PODEM SER DIGNOS DE UM OLHAR

Haver textos sobre uns e sobre outros não desvaloriza nem uns nem outros: simplesmente, constrói uma dimensão mais ampla, rica e verdadeira do presente. (O que interessa é a validade transformadora do olhar: as ideias perpassam os juízos de gosto. Um pensador é um pensador. Porque estes filmes existem, foram expelidos por algo ou por alguém, fazem parte do presente. Nem todos os filmes são meritórios da nossa atenção mas filmes de todo o tipo podem ser objectos de uma análise interessante. Precisamente por isso é que o Daney escrevia sobre televisão.) 

- VER, VER, VER


Em Notes Sur l'Histoire du Cinéma (1948), Langlois escreveu que ''o cinema são os filmes. Para escrever a sua história é preciso vê-los.'' Há, felizmente, cada vez mais revistas, sites, blogues, teses, video-ensaios, micro-especializações, cursos, canais, formação e informação, um festival especializado por mês para cada nicho do gosto, discursos, instantaneidade no acesso, etc. Cada vez mais se brinca e manipula o cinema, numa relação com a cultura que é cada vez mais afectiva e inclusiva. 


- O CINEMA ESTÁ VIVO E BEM VIVO

Os saudosismos por esse Grande Cinema em falta só demonstram a ignorância de quem os expressa e a sua incapacidade e indisponibilidade para olhar em redor e ver o que é o cinema hoje. Essa expressão-feita é falaciosa e rigorosamente desajustada da realidade, cada vez mais. Não dá para assinar por baixo dessa ideia de falência do cinema, de saudosismos pregados na História do Cinema. Não há um Cinema, há vários cinemas. O cinema é, sempre foi, um fenómeno multitonal e hoje está vivíssimo. Simplesmente, a sua natureza plural e a espessura da sua história tornaram-se, com a disseminação do acesso, mais evidentes. Mas que é que quantidade tem a ver com qualidade, no que a arte diz respeito?

- A MORTALIDADE DO ESPECTADOR DE CINEMA


Só recentemente o espectador de cinema sentiu a sua mortalidade. O melómano já a sentia, o bibliófilo também :  já sabiam que não conseguiriam ouvir, ler, ver tudo aquilo de que precisariam ao longo da escassez da vida. 

Mas foi a internet que certificou ao cinéfilo de que não teria como ver tudo aquilo que gostaria. Porque o espectador contemporâneo não tem tempo e sabe-o, arma pose permanente na desconfiança e, esfomeado por certezas, procura aliviar o seu pequeno desespero junto da crítica. E bem, é para isso que ela serve. Só que reagirá sempre contra esta caso não lhe confirme o gosto. O crítico não só não assinou um tratado de imparcialidade, como não escreve para criar consensos. É uma verdade sua: ei-la, uma crítica. 

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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