domingo, 1 de agosto de 2010

Contemporâneo é o dever de conceder ao lixo o direito à plena existência.


Trash Humpers, Harmony Korine, 2009

 Trash Humpers de Korine é o mais radical dos manifestos sobre o filho esquecido do progresso: o lixo. O lixo é a matéria da ideologia, como lembra Zizek. Existe, concreta e palpavelmente, mas não há vontade mais acerrimamente partilhada do que ignorá-lo. Nada há de mais mundano, mais real e mais incómodo. Apesar da sua existência puramente material, é o alvo colectivo do maior desprezo possível.
Estes ''Trash Humpers'', humanóides violadores, não só não o ignoram como o objectificam a um extremo erótico. Nunca o lixo existiu tão concretamente como aqui.  
De facto, talvez não haja nada de mais contemporâneo do que reflectir sobre o lixo, a mais factual das consequências da experiência humana. Um dos mais contemporâneos deveres é o de conceder ao lixo o direito à plena existência. Como escrevia Zizek a propósito da sanita de Psycho (Psico, 1960): “a merda continua a ser um excesso que não se encaixa na nossa realidade, e Lacan tinha razão quando afirmou que passamos de animal a humano a partir do momento em que o animal fica sem saber o que fazer com os seus excrementos, quando estes se tornam um excesso que o incomoda”. Há aí urgência, para uma responsabilização plena do humano pelo seu próprio existir.

* é claro que aproveito para particularizar esta postura em defesa de uma causa muito minha - o direito do cinema trash à plena existênciahttp://www.independent.co.uk/arts-entertainment/films/news/enjoyment-of-trash-films-linked-to-high-intelligence-study-finds-a7171436.html


* e recomendo um pequeno texto indispensável do Carlos Natálio sobre ''A Política das Tripas'', a partir de Rabid (de Cronenberg) :
Imagem poderosa esta do fim de "Rabid" (1977) de David Cronenberg. Marilyn Chambers, actriz porno a quem lhe cresce uma pila na axila (sim, rima), jogada ao lixo. Corpo descartado, fim possível de uma epidemia que vive do sangue e da contaminação. Os primeiros filmes do canadiano, que têm premissas com maior longevidade do que as personagens que as carregam (cinema abstracto sobre tripas, sobre a política das tripas), têm em comum esta transformação do papel da sexualidade. Mentes que varrem corpos, corpos que produzem carne ao ritmo da sua ira, contaminações e experiências que alteram o papel da penetração, da maternidade, do solitário pensamento obsceno. O corpo da antiga sexualidade, uma sexualidade que se vendia, desejava, despojada e sem pudor é recolhida às terças. O domingo talvez seja o dia do papelão, mas a reciclagem começava aqui.

Sem comentários: