ME AND MY GAL / Raoul Walsh

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Na obra de Raoul Walsh o filme Me and My Gal não parece ocupar um lugar proeminente. Diga-se desde já que não estamos face a um dos grandes «Walshs», nem sequer diante de uma das «redescobertas» da «misteriosa» década de 30 (ao contrário de um Sailor’s Luck ou um Under Pressure, para falarmos dos inéditos, para os quais chamamos já a atenção dos cinéfilos, sem esquecer o fabuloso Going Hollywood, e isto só para nos ficarmos pela primeira metade dessa década). E, contudo, o filme não deixa de ter muitos dos ingredientes de uma boa história de Walsh, em particular na relação dos dois pares (Tracy-Bennett e George Walsh-Marion Burns) e no personagem do velho paralítico (um Henry B. Walthall, bem conhecido de Walsh desde os seus tempos com D.W. Griffith) que nos faz pensar no Bill Travers de High Sierra ou no Henry Hull de Colorado Territory. Inclusivé numa certa forma mais chã de romantismo (que lembra, por momentos, um The Man I Love, com o acontecia, mas um nível muito diferente, com o belíssimo The Man Who Came Back). Mas há também alguns momentos dramáticos onde a mão de Walsh se faz sentir em grande: as sequências do assalto e do confronto Danny Dolan (Spencer Tracy) com Duke Casteneda (George Walsh) no final.

Se o filme nos parece um pouco aquém de outras obras de Walsh é porque se trata de um trabalho de encomenda. Na verdade Me and My Gal, cujo argumento se inspira em parte num episódio de um velho filme mudo da Fox, While New York Sleeps, teve vários realizadores apontados antes do início da rodagem, e que foram William K. Howard, Alfred Werker e Marcel Varnel. Walsh entrou praticamente no começo das filmagens que «despachou» em 19 dias (a fama de «movie doctor» que o levaria a ser solicitado frequentemente pelo estúdio em que trabalhava para «tratar» de rodagens em dificuldades, consolidava-se com este e outros trabalhos da década de 30). Mas apesar de se tratar de um realizador de «recurso», Walsh deixou bem a sua marca (como deixou em todos os que fez e os que «ajudou», mesmo os menos conseguidos), em particular na forma como explora o humor truculento e «brigão» que o caracteriza, e situações cujo excesso e (ou) exagero expõem a sua faceta grotesca. Neste último caso aspecto destaca-se o personagem do bêbedo, interpretado por Will Stanton que serve de «intermédio» burlesco na sequência do cais, e que se tornou muito popular (a imprensa da época destacou, particularmente a sua composição, mesmo que hoje nos aparece algo cabotina na excessiva movimentação do personagem) e Walsh iria usar de novo no seu filme seguinte, o irresistível Sailor’s Luck, em papel semelhante, mas com  características diferentes a que nos referiremos na folha deste filme que veremos amanhã. O «ballet» grotesco de Stanton é a nota humorística habitual dos filmes de «duplas» de Walsh com que então se identificava o realizador. 

Outra característica do realizador é a referência mais ou menos paródica ao seu tempo e com o próprio cinema. Se ele não foi um «inovador» formal no mesmo sentido em que o foram, no começo do sonoro, um Mamoulian ou um Cukor, ele acompanhou essas transformações, ora adoptando-as, ora ironizando com elas. É este o caso de Me and My Gal onde uma inteira cena é dedicada a parodiar uma forma de «linguagem» recentemente introduzida no cinema, particularmente por Rouben Mamoulian (em City Streets/Ruas da Cidade, feito no ano anterior a Me and My Gal): a voz off que «exprime» ou a consciência ou os pensamentos dos personagens. Danny, num encontro com Helen, refere um filme que viu recentemente, e a que chama, «Strange Inner Tube or something». A fita em questão é Strange Interlude, de Robert Z. Leonard, com Norma Shearer e Clark Gable, que a MGM produzira nesse ano e onde aplica o referido processo. Logo a seguir, em tom de paródia, Walsh põe em consonância o diálogo ao vivo e os «pensamentos» da dupla. Esta atenção à actualidade não se faz apenas com a paródia, vai, inclusivé marcar a parte dramática, pois o assalto, tal como é exposto parece ter-se inspirado num assalto que tivera lugar pouco antes
e que um jornal do tempo, destacou para criticar o filme. Note-se que estamos (em 1932) na fase pré-código e só a partir de 1934 ficará proibida em Hollywood a exposição de métodos de assaltos. Aliás talvez tenha sido isto que impediu a sua exibição entre nós, onde a censura já estava bem activa velando pela «moral» e «bons costumes». Mas o método (assalto à dependência bancária a partir do andar superior) voltaria ao cinema no fabuloso Du Rififi Chez les Hommes, de Jules Dassin, de 1955, que por cá se estreou com bastante atraso e, logo para dar razão à censura (!), serviu de inspiração a um assalto a uma ourivesaria lisboeta! 

Se esta sequência, pela forma rápida de execução e a montagem que expurga tudo o que não interessa concentrando-se no essencial, é eminentemente walshiana, o mesmo acontece com o final, e inclusivé pela forma como lá se chega. Sarge (Walthall) sabe que Casteneda está escondido no sotão da sua casa, ali colocado pela sua filha, irmã de Helen, com quem Casteneda tivera uma ligação. Completamente paralisado nada pode dizer, pois comunica com os outros através de piscadelas dos olhos. É deste modo que ele vai «denunciar» o esconderijo usando os sinais de morse. Não podemos deixar de pensar na passado de Walsh e no seu trabalho com Griffith. Recorde-se um dos mais famosos «two reels» de Griffith, The Lonedale Operator, que usa o morse para alertar do perigo. Fazer o actor griffithiano usar aquele sistema (estando «mudo» como os filmes daquele tempo) não deixa de ser uma singela e curiosa homenagem ao mestre). Se este filme não é dos mais importantes de Walsh, reserva, apesar disso, um bom número de surpresas e de grandes momentos, que justificam a atenção do cinéfilo.

Me and My Gal foi uma produção da Fox para impor as suas novas vedetas que ainda não tinham conquistado os favores do público. Apesar de Tracy ter gostado muito do argumento e insistido em fazer o filme, este não fez muito por ele. Só no ano seguinte Tracy alcançaria o estrelato com 20.000 Years in Sing Sing/20.000 Anos em Sing Sing de Michael Curtiz. Quanto a Joan Bennet, mais anos iriam passar e foi preciso tornar-se morena para finalmente se impor como vedeta.


Manuel Cintra Ferreira

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