Les Vampires

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LES VAMPIRES / 1915-16
(Os Vampiros)

Um filme de LOUIS FEUILLADE

1º Episódio: LA TÊTE COUPÉE / Duração: 36 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 13 de  Novembro de 1915 / Intérpretes: Edouard Mathé (Philippe Guérande), Marcel Levesque (Mezamette), Jean Ayme (O Grande Vampiro), Mme Simoni (Mme Guérande), Rita Herlor (Mrs Simpson), M. Luguet (Villemant), M. Thelès (Juis de Instrucção), Miss Edith (uma cúmplice dos Vampiros)

2º Episódio: LA BAGUE QUI TUE / Duração: 16 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 13 de  Novembro de 1915 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Jean Ayme, Stacia Napierkowska (Marfa Koutiloff)

3º Episódio: LE CRYPTOGRAMME ROUGE / Duração: 44 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 4 de Dezembro de 1915 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Jean Ayme, Mme Simoni, Luguet, Musidora (Irma Vep), Louis Leubas (Père Sil6nce), Laurent Morlas (um apache)

4º Episódio: LE SPECTRE / Duração: 35 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 7 de Janeiro de 1916 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Jean Ayme, Musidora, Fernand Herrmann (Juan José Moreno), Mlle. Lebret (a criada de Irma)

5º Episódio: L' ÉVASION DU MORT / Duração: 45 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 28 de Janeiro de 1916 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Jean Ayme, Musidora, Fernand Herrmann, Thèles, Miss Edith.

6º Episódio: LES YEUX QUI FASCINENT / Duração: 63 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 24 de Março de 1916 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Jean Ayme, Musidora, Fernand Herrmann, Miss Edith, Gaston Michel (Benjamin, o criado de Mezamette), Renée Carl (a espanhola da narrativa histórica), Mlle Maxa (Laura, a criada de Moreno) 

7º Episódio: SATANAS / Duração: 47 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 15 de Abril de 1916 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Musidora, Louis Leubas (Satanas, chefe supremo dos Vampiros), Bréon (o seu secretário), Keppens (Geo Baldwin), Mlle. Delvé (Fleur de Lys), Jacques Feyder (um vampiro), Françoise Rosay (?)

8º Episódio: LE MAITRE DE LA FOUDRE / Duração: 54 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 13 de Maio de 1916 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Musidora, Louis Leubas, Bout-de-Zan (Eustache Mezamette), Moriss (Vénénos),  Mme Simoni

9º Episódio: L' HOMME DES POISONS / Duração: 53 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 2 de Junho de 1916 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Musidora, Moriss, Mme. Simoni, Louise Lagrange (Jane Bremontier, a noiva de Philippe Guérande), Jeanne-Marie Laurent (a sua mãe), Mlle. Lebret (Hortense, a criada de Irma Vep), Mlle. Rouer (Augustine)

10º Episódio: LES NOCES SANGLANTES / Duração: 59 minutos (a 20 imagens por segundo) / Estreia: Paris, 30 de Junho de 1916 / Intérpretes: Edouard Mathé, Marcel Levesque, Musidora, Moriss, Louise Lagrange, Mlle. Rouer, M. e Mme Faraboni (os Vampiros bailarinos)



Há destinos curiosos. Seria por acaso que este meridional, burguês e conservador, apaixonado pelas touradas (e há mesmo um sugestivo exemplo no sexto episódio de LES VAMPIRES) se tenha tornado um ídolo dos surrealistas? Nisto houve naturalmente a reacção desta corrente contra os preciosismos da "vanguarda francesa" que via no "velho" Feuillade o exemplo do cinema a evitar. Mas também o entusiasmo por aquelas estranhas atmosferas onde, na mais banal realidade irrompe bruscamente o insólito, naquela explosão de anarquia onde o Mal é sublime e sulfuroso, mais sedutor que o Bem, anódino e frustrante. É mais que duvidoso que Feuillade alguma vez tenha lido Isidore Ducasse, "conde de Lautréamont", mas por LES VAMPIRES parece passar, por vezes, o sopro de Maldoror. De Breton a Aragon, passando por Robert Desnos (autor de uma "Complainte pour Fantomas") todos lhe prestaram homenagem contra o desprezo da "vanguarda". Salvas as devidas distâncias algo de semelhante aconteceu mais tarde com outros realizadores, arrumados na etiqueta de "cinema de papa" que lhe colaram os "enfants terribles" da "nouvelle vague" na sua conquista pelo poder. Entre os silêncios, algumas vozes sempre afirmaram a sua paixão pelo autor de JUDEX: um Alain Resnais e um Georges Franju eram seus admiradores confessos e o sempre frustrado projecto de Harry Dickson poderia ter sido a homenagem do primeiro, como foi o JUDEX que o segundo refez.

Louis Feuillade chega a Paris em 1898, quando o cinema balbuciava e se resumia a um fenómeno de feira, para representar na capital o vinho da sua terra natal, o "Muscat" de Lunel. Até apetece extrapolar o sentido da sua profissão. Como um vinho de qualidade os seus filmes enriquecem-se e apuram o aroma com o decorrer dos tempos. Às pituitárias dos cinéfilos de hoje, a abertura de uma "garrafa"/episódio de LES VAMPIRES traz a própria fragância do tempo. Não foi feliz como representante do "Muscat" e com isso só ficou a ganhar o cinema para onde entrou pela mão de Léon Gaumont em 1905, um ano crucial na história da novíssima arte. O cinema perde o seu carácter itinerante para se fixar em salas especializadas, a requererem uma produção contínua para alimentar a curiosidade do número crescente de cinéfilos. É mais ou menos por esta altura que as cinematografias começam, um pouco por todo o lado a estabelecerem-se como industrias altamente rentáveis e objecto, por isso, de renhidas lutas pela posse de direitos de exploração, que levaria nos EUA à guerra dos brevets entre Edison e os rivais e provocou, indirectamente, a criação de Hollywood. Em França o combate foi mais "civilizado", sem a interferência de gangs ao serviço das companhias para imporem pela força o que a lei ainda não consignava. Aqui os rivais são a Pathé e a Gaumont. Feuillade, a quem chamaram o "terceiro homem" do cinema francês, cuja obra sintetiza a de Lumière e Méliès, entra para a segunda como argumentista escrevendo centenas de histórias para Alice Guy e outros no seu primeiro ano de trabalho. Como realizador a partir de 1906, vai continuar com o mesmo trabalho rápido abordando todo o tipo de histórias que então se filmavam (filmes de truques, fantasias, vaudeville, comédias, como a série Bébé) inclusivé reconstituições históricas com que a Gaumont, em 1908, respondia ao "film d'Art" da Pathé. Uma crise económica, daquelas que ciclicamente se abatem sobre o cinema, impôs em 1911 uma redução drástica de investimentos, e Feuillade saiu-se da melhor forma iniciando uma série que durou dois anos, LA VIE TELLE QU' ELLE EST, cujo título diz tudo nas suas pretensões de realismo. Estes dois caminhos, aparentemente distintos, abertos por Lumière (o realismo) e Méliès (a fantasia) vão convergir para uma ampla arena onde se encenam de uma forma que chega ao puro delírio, os dramas da época, essa "belle époque" agonizante, nos filmes em episódios. FANTOMAS seria pioneiro com os seus congéneres americanos.

LES VAMPIRES nascem dessa mesma concorrência com a Pathé. Querendo antecipar-se ao lançamento de LES MYSTÈRES DE NEW YORK que a filial da Pathé nos EUA se preparava para lançar, Gaumont pediu ao seu prolífico e rápido realizador um novo filme em episódios que pudesse começar a ser explorado antes do rival. LES VAMPIRES corresponde exactamente à sua génese: nasce improvisado e desenvolve-se ao sabor dos acontecimentos que lhe são exteriores, entre eles a guerra em que a Europa mergulhara, e que deixa, de forma indelével as marcas do fim de um tempo. A ordem estabelecida é impotente perante a permanente afirmação triunfante do Mal, pois se cada episódio termina invariavelmente pelo triunfo (?) da lei, não é menos certo que ele renasce mais forte, mais sugestivo, mais próximo do absoluto no episódio seguinte, e a simpatia dos espectadores desliza imperceptivelmente do primeiro para o segundo com o destaque cada vez maior que é dado à figura de Irma Vep e com a afirmação do caos dionisíaco sobre a ordem apolínea. Introduzida apenas no terceiro episódio Musidora cria no cinema o mito da mulher aranha, imagem sinistra e fascinante no seu collant negro, devoradora e implacável, que, mesmo subalterna em relação ao Grande Vampiro, afirma de forma absoluta o seu domínio. Fantomas feminino, ela renasce a cada derrota mais bela e determinada: o belíssimo grande plano do seu rosto perto do fim do oitavo episódio, "ressuscitada" após a explosão do navio que a levava para uma colónia prisional na Argélia. 

A guerra tem uma quota parte importante no estranho fascínio que este filme exerce. Não porque ela esteja presente de modo objectivo na narrativa (nem mesmo nas notícias dos jornais que com frequência surgem em inserts a dar informações sobre as proezas do bando, ou onde eles buscam objectivos para a sua actividade, excepto numa breve referência às pretensões alemães sobre a Alsácia-Lorena) mas pela forma como condicionou a sua produção e realização. Sem ela não se conseguiriam as imagens lunares de uma Paris quase deserta pela mobilização, onde se pode seguir a pista de um automóvel pelo rasto de óleo e de ruas transformadas em palco dos confrontos entre Guerande e Mezamette e os Vampiros. Depois, pela mobilização e consequente razia feita entre os actores, que aparecem e desaparecem sem que qualquer explicação lógica seja dada, ou, como nas "soap operas" da televisão de hoje, dando uma saída inesperada a um deles quando o exército o reclama. Jean Ayme, Grande Vampiro desde o primeiro episódio encontra uma morte inesperada no fim do sexto por ter sido mobilizado, o que leva à entrada de novo mestre do crime (o outro não era, no fim de contas, mais do que um subalterno): Satanas, aliás Louis Leubas, aliás Pére Silence, morto no terceiro episódio. Outros actores mudam também de pele ao longo das aventuras.

LES VAMPIRES é também uma súmula do trabalho de Feuillade. O fantástico e o insólito acompanham os constantes confrontos entre os adversários: passagens secretas, espectaculares ressurreições (Moreno na morgue, no quinto episódio), acções espectaculares captadas em exteriores (perseguições de automóvel, no tejadilho de comboios) mas o insólito maior, esse que deve ter fascinado os surrealistas são essas imagens reais de Paris e arredores que deixam uma sensação de fantástico, como a superfície da Lua, onde de repente se introduz uma silhueta negra subindo um algeroz ou gatinhando sobre os telhados. Realismo e fantástico, mas também o humor. Para além da figura de Levesque em Mezamette, na sua busca de alternativas e de surpresas Feuillade introduz no oitavo episódio o seu Bout-de-Zan, jovem intérprete duma longa série de farsas que dirigiu entre 1913 e 1916, na figura de um filho de Mezamette, que desaparece tão rapidamente como apareceu. Personagem alternativo para prolongar a narrativa, como é o episódio da reconstituição histórica, durante a ocupação de Espanha por Napoleão, insert insólito que parece uma das muitas histórias que se intercalam nas "Mil e Uma Noites" (LES VAMPIRES já foi chamado também a mais negra das "Mil e Uma Noites"). E o próprio cinema é também objecto de atenção: É numa sala de projecção que Guerande e Mezamette identificam o Grande Vampiro (uma imagem em que o ecrã de exibição é simulado por uma representação teatral). E é um cinéfilo que está na base da intriga do quarto episódio. 
Festa dos sentidos, de puro delírio, materialização da mais desenfreada imaginação, LES VAMPIRES sintetiza uma época e um modelo de cinema.



MANUEL CINTRA FERREIRA
(Folhas da Cinemateca)

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