Grande chapadão bem merecido:

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A River Called Titash, Ritwik Ghatak, 1973


Pather Panchali, Satyajit Ray, 1956

Do lugar mais inesperado chega o mais verdadeiramente modificador. Andamos nisto da cinefilia online ao longo de anos a fio, a trocar com gente de todo o mundo. Os mesmos nomes são recorrentes e, próximos em idade, as ligações estreitam-se. Tudo corre bem enquanto se passa ao nível da cinefilia - vimos o mesmo e o que não vimos, facilmente podemos juntos tratar de encontrar para ver (com a maioria das coisas, pelo menos). E é precisamente pela sintonia de estarmos nos mesmos lugares, diariamente tão dentro dos mesmos temas, autores e hábitos, que nos esquecemos, muitas vezes, do tanto que nos separa. Felizmente, o acesso à cultura é disseminado globalmente mas, se isso esbate as desigualdades, é tão fácil esquecermos que elas estão lá. 
Aconteceu-me uma coisa tão simples mas tão reveladora.
Num scroll ocasional, reajo sem pudor a uma foto de um ''amigo'' artista/cinéfilo indiano que me chocou tremendamente. Ele tinha sido retratado ao pé de uns gatos de rua:

- Por favor alimenta esses gatos, estão magríssimos.

Alguma vez me ocorreu pensar que, lá porque era artista e cinéfilo, tinha, ele próprio, o que comer? Partimos sempre do pressuposto que quem pensa em arte só o pode fazer porque, primeiramente, está de estômago cheio. Mas isso não é elitizar a arte e a cinefilia? Quer dizer que só cria quem já endereçou primeiramente as suas necessidades básicas? Porquê? É claro que para um indiano é obsceno eu preocupar-me com a fome dos gatos, quando eles vêem a fome nas pessoas. É claro que para mim é chocante ver alguém dizer que a morte é relativa, que faz parte da paisagem e que os gatos vão e vêm (quando cresci a achar que todo o sofrimento é sofrimento, humano ou animal). Mas não é verdade que quem convive com o extremo de certas realidades, relativiza outras? Que, se os recentes jovens indianos não se tivessem algures desresponsabilizado, se não deixassem de pensar activamente na realidade gritante em seu redor, nunca teriam conseguido pegar num livro? Emancipar-se e interessar-se por arte, por cinema? 

A abstracção que autoriza qualquer exercício de reflexão só pode, inevitavelmente, acontecer no lugar de uma relativa impermeabilidade. É-nos forçosa em qualquer contexto, ou passaríamos os dias a fazer sopa para quem não a tem, não nos cumprindo pessoalmente. É o que tão bem nos ensina o filme Lust for Life de Minnelli (1956): Vincent Van Gogh começa como pregador numa comunidade de mineiros até perceber que o que diz tem pouca eficácia sobre a realidade. Porque o corpo torcido pela falta física não contempla a vida do espírito, a sua acção será mais prestável se ajudar materialmente, com a força dos músculos, com dinheiro, com coisas. Menos directa, a sua pintura terá a mesma intenção interventiva, com a diferença de que o resultado deste impacto não é imediatamente observável. Se Van Gogh não tivesse percebido que, para a continuidade do espírito humano, também há ''bens de primeira necessidade'', teria continuado a criar apesar da miséria material - a sua e a que presenciou ?



Lust for Life, Minnelli, 1956

A preocupação pela sociedade em que nos inserimos é um peso dos olhos abertos, e que coloca em permanente mediação a acção individual e colectiva. Mas há que lembrar: não ver pessoas esfomeadas assim que se sai de casa é um privilégio de alguns apenas (afinal, é uma violência a menos) e, com isso, há que manter presente a consciência de uma responsabilidade acrescida. Todas estas questões são imensas, são eternas questões. Não deixo de ter levado um grande chapadão e, num misto difuso de embaraço, culpa e impotência, aprendi que, para trocas interculturais, há que deixar as convicções em casa. Servem como regras em vigor lá e lá apenas. 

(E por mais que a cinefilia nos tenha ajudado a perceber tão diferentes culturas e modos de vida, tanto fica por mostrar, tanto fica por ver, tanto fica por sentir. Para chegar à conclusão que os ecrãs ensinam muito mas que viajar ensina mais. E sim, quanto mais próximo da morte é o lugar onde se está, maior é o valor do projecto de resistência que é viver.)

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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