quarta-feira, 1 de junho de 2016

#idolatria


* Pontos de contacto comuns: Tenho-me interessado pela ligação entre iconografia e cultura pop e pelo platonismo convicto que, na distância, abre os corações mais secretos. 

* Idolatrar à distância da cultura pop: Diz-se dos amigos que são a família que se escolhe, mas intimamente sabemos que os ídolos o são também. Quem se atreve a dizer-me que o Thom Yorke e eu não temos pedaços irmãos de alma, se eu cresci a senti-lo? Quem me diz que não partilho com o James Dean exactamente o mesmo escudo facilmente irascível sobre núcleo frágil? Quem me dirá que não posso confiar plenamente na integridade moral e sentido de justiça de Herzog, se ele sempre se apresenta na verdade de uma pele de sábio ancião, experiente de mil vidas prévias? 

* A família que se escolhe: E se nos põem em causa os ídolos, essas figuras reais que descrevemos com absolutos, é razão para ficarmos entre o perplexos e o francamente ofendidos. Como, mas como, não vêem o que eu vejo de um relance só? Estamos no domínio da crença. No outro dia, atreveram-se a denegrir o Ricardo Araújo Pereira à minha frente e eu fiquei mais ofendida do que se tivessem insultado a minha mãe, apressando-me a desdobrar uma defesa em que nunca me previra. Afinal, ele não é tão obviamente brilhante, cativante, ciente, absoluto? Como é que esta pessoa inteligente com quem converso à mesa não vê o que eu vejo? 

* A era dos espectros: Acho que esta afeição se amplifica junto dos nossos contemporâneos: observamos quem queremos observar e é na proximidade desta vontade por mais que vamos aprendendo realmente a viver neste tempo comum. 

* Retratos de uma existência digna de existir: Afiguram-se-nos os bastiões últimos da existência em dignidade: afinal é possível - precisamente assim ou precisamente assado - mantermo-nos vivos. Guardamos como pais, irmãos e mentores estes que nos acompanham numa fidelidade por nós decidida, que hoje se estreita nas possibilidades explodidas de acesso à informação. 

* Tempo dos reclusos, dos mirones, dos voyeurs: Trazendo eu própria, a la Greta Garbo, uma personalidade em permanente ponto de reclusão, observo por dentro o resguardo semi-misantropo de uma era onde, pelo virtual, nos entre-amamos muito espectralmente. 

* Humanos sintetizados, os meus favoritos: Não é pela auto-reclusão que os reclusos deixaram de querer acreditar na humana raça. Simplesmente têm maior queda para os ''humanos sintetizados'', preferindo o Outro na sua melhor versão possível. O Outro que trabalhou o texto à exaustão e nos traz um belíssimo poema. O Outro que cravou as próprias vísceras numa música e nos traz uma canção divina. O Outro que nos explica o seu problema através de um filme que nos fica a ecoar por dentro.

* Platonismo ainda é humanismo? Está aí o platonismo: a ausência do corpo do autor potencia a intimidade destes encontros até à perfeição em que a idolatria é possível. E é aqui que as índoles idólatras melhor fazem os seus mais fieis festins imaginários: sempre entre especialíssimos convidados.

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