#idolatria

Leave a Comment

Pontos de contacto 
Tenho-me interessado pela ligação entre iconografia e cultura pop e pelo platonismo convicto que, na distância, abre os corações mais secretos. Diz-se dos amigos que são a família que se escolhe, mas intimamente sabemos que os ídolos o são também. Quem se atreve a dizer-me que o Thom Yorke e eu não temos pedaços irmãos de alma, se eu cresci a senti-lo? Quem me diz que não partilho com o James Dean exactamente o mesmo escudo facilmente irascível sobre núcleo frágil? Quem me dirá que não posso confiar plenamente na integridade moral e sentido de justiça de Herzog, se ele sempre se me apresenta na verdade de uma pele de sábio ancião, experiente de mil vidas prévias? 

A família que se escolhe
E se nos põem em causa os ídolos, essas figuras reais que descrevemos com absolutos, é razão para ficarmos entre o perplexos e o francamente ofendidos. Como, mas como, não vêem o que eu vejo de um relance só? Estamos no domínio da crença. No outro dia, atreveram-se a denegrir o Ricardo Araújo Pereira à minha frente e eu fiquei mais ofendida do que se tivessem insultado a minha mãe, apressando-me a desdobrar uma defesa em que nunca me previra. Afinal, ele não é tão obviamente brilhante, cativante, ciente, absoluto? Como é que esta pessoa inteligente com quem converso à mesa não vê o que eu vejo? 

A presença dos espectros
Acho que esta afeição se amplifica particularmente face aos nossos contemporâneos: observamos quem queremos observar e é na proximidade desta vontade por mais que vamos aprendendo realmente a viver neste tempo comum. Afiguram-se-nos os bastiões últimos da existência em dignidade: afinal é possível - precisamente assim ou precisamente assado - mantermo-nos vivos. Guardamos como pais, irmãos e mentores estes que nos acompanham numa fidelidade por nós decidida, que hoje se estreita nas possibilidades explodidas de acesso a toda a informação imaginável. 

Humanos ''sintetizados''
Trazendo eu própria, a la Greta Garbo, uma personalidade em permanente ponto de reclusão, observo por dentro o resguardo semi-misantropo de uma era onde, pelo virtual, nos entre-amamos muito espectralmente. Não é pela auto-reclusão que os reclusos deixaram de querer acreditar na humana raça. Simplesmente têm maior queda para os ''humanos sintetizados'', preferindo o Outro na sua melhor versão possível. O Outro que trabalhou o texto até à beleza e nos traz um belíssimo texto. O Outro que cravou as próprias vísceras numa música e nos traz uma canção divina. O Outro que nos explica o seu problema através de um filme que nos fica a ecoar dentro.
Está aí o platonismo: a ausência do corpo do autor potencia a intimidade destes encontros até um sentido de perfeição em que a idolatria é possível. E é aqui que as índoles idólatras melhor fazem os seus mais fieis festins imaginários: sempre entre especialíssimos convidados.

0 comentários:

Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

Archives