sexta-feira, 25 de março de 2016

Minelli's VAN GOGH


SESSÕES CONTÍNUAS: A BELEZA DA BELEZA
(programa Whitenoise na Galeria Germinal)
25 de Março de 2016




SESSÃO : Casamento-Surpresa
Vidor + Brakhage + Minnelli + Cukor



LUST FOR LIFE
Vincent Minelli (1956)


“Sometimes, when I work on into the night, I am hardly conscious of myself anymore. And the pictures come to me as in a dream…with terrible lucidity.” Palavras de Vincent Van Gogh (Kirk Douglas) cruzadas com a textura e o movimento da luz de Starry Night Over the Rhone. Lust for Life é, infalivelmente, um filme sobre a lucidez de um homem que sempre se auto-questionou sobre a natureza do amor como dependência. Será um pecado?


O filme de Minnelli/Cukor, sendo impreterivelmente sobre o trabalho e sobre o colocar-se em estado de trabalho, é também sobre a dificuldade de desenhar o lavor – e de o filmar. Os encontros de Van Gogh com os impressionistas em Paris falam-nos sobre um corpo curioso, concomitantemente ávido de conhecimento e inconformado. A lucidez de Vincent vive, portanto, no outro extremo da adaptação ao mundo. Homem simultaneamente fervoroso e vulnerável, Van Gogh vagueia durante todo o filme em busca de um lugar que nunca vem. Figura à deriva, representada como uma ponte entre os seus quadros e algo maior que ele.


Após cortar a orelha num ato de loucura – ou de lucidez perante a dor-do-mundo –, Van Gogh é internado num hospital. Quando o seu irmão Theo (James Donald) o visita, o plano começa com as mãos de Vincent sobre o rosto. Culpa colossal de uma conduta incontida? Medo de voltar a olhar? Vergonha intolerável por não saber estar sozinho? A relação doentia com Paul Gauguin (Anthony Quinn), que precede o terrível ato, anuncia essa incapacidade de lidar com a solidão. Falhou o amor. Falhou a amizade. Falhou a religião. “I would like to go home”, diz Vincent. Apetece dizer, como disse Nicholas Ray, que já não é possível. Mas Theo, o irmão, concede-lhe um último desejo.  


Carlos Pereira

2016 © GERMINAL

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