quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

(... presos por uma trela - que vida de cão...)

Pois é, a vida está uma... Pois é
Tenho a mão vazia dentro do meu bolso
que está tão vazio como a minha mão
aperto o vazio tanto quanto posso
nesta encruzilhada que vida de cão.
Este é o fado da classe atarefada que passa
o dia inteiro com a massa e o cimento no braço
a pensar como é que eu faço pa sair deste escasso
vencimento ou caiu no esquecimento num curto espaço
de tempo... e se eu protestasse ao meu Presidente
o que me vai no pensamento talvez ele não gostasse
ah pois é não és o desempregado, não és o pregado
de sempre que tá sempre apertado
pa mim qualquer coisa é bem vinda ao meu agregado
fico agradecido mas nem sempre bulo com agrado
aquilo que eu oiço é sempre igual em todo o lado
que a culpa é do estado que tem estado num estado bastardo
chega o domingo vou po estádio pa estar co Mário
é aí que eu me vingo pa afastar o obstáculo diário
o mário é meu puto tem 7 anos e granda cenário
respeita-me muito e ja sabe que sou um mercenário
ele por perto um dia, é um segundo bem breve
pq eu liberto a euforia até que a 2ª me leve
mas como tenho teimosia tou a pensar fazer greve
no bolso tenho a mao vazia o patrão ainda me deve
Todo o santo dia enchem-me a cabeça
de velhas frases feitas, manipulação
falam de milagre à espera que aconteça
vamos desvivendo que vida de cão
Num sonambulismo telecomandado
Cumprimos os dias em resignação
Não há luz no túnel é o nosso fado
presos por uma trela que vida de cão
Tou preso por uma trela vivo uma vida de cão
minha rotina é uma cela que cancela uma ambição
que me revolta e indigna mas dá-me a resignação,
só oiço velhas frases feitas é manipulação
que se alivia à noite quando eu ligo a televisão
Pois é, a vida está uma... Pois é

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

STEREODOX: 9 out of 10 film'stars make me cry / I'm ALIVE

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

In memoriam Jacques Rivette (1928 – 2016)




Despeço-me de um favorito, Jacques Rivette, no site À Pala de Walsh, 
com o que me foi possível de um rascunho retrospectivo dessa imensidão só sua :
JACQUES RIVETTE, O LEÃO DE PARIS.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

L’Ombre de Femmes: nunca tão longe das liras.

L’Ombre de Femmes: nunca tão longe das liras.
‘‘Numa encruzilhada do coração / não há templos para Apolo.’’
RAINER MARIA RILKE
L’Ombre des Femmes é um Garrel no estado último do desencanto. E nós com ele: rapidamente sufocamos no interior destas relações amorosas reduzidas ao alicerce mais prosaico das suas existências materiais. Sofremos com a repetida mundanidade dos seus recantos físicos e cronológicos, e descremos na possibilidade de encontrar uma qualquer verdade no meio desta sinfonia de banalidades. O que sustém a rota destes corpos de cama em cama? Num fundo de sofreguidão, sente-se um desfoque, uma suspensão do ‘‘eu’’, uma falta de rumo que a todos une. A languidez decorre da fadiga, ou assim parece. Na exaustão de quem assiste à vacuidade destas danças, convenço-me de que há compreensões a que nunca chegarei: o que fazemos a nós próprios em nome dessa suposta ideia de amor? 

Com ‘‘L’Ombre des Femmes’’, Philippe Garrel, o mestre do atemporal romance, do filme a preto-e-branco, tira-nos o que nos deu. Reduz o amor a um sistema de posses e de expectativas, e tapa o último feixe de luz: tudo se ensombra com ciúmes, negociações, traições, revelações, cache-cache, separações e o desamor último, que lança cada um para a solidão. Mas nenhum dos desenlaces possíveis é um final feliz - porque, afinal, nisto do amor, aprendemos, não há finais felizes. Neste cenário, a música não tem por onde acontecer. A poesia mora nos véu de Apolo e, aqui, a realidade é demasiado real. A precariedade deste quotidiano secou qualquer fundo de beleza, tão dependente do mistério. Se não parece, é porque não é - esta não é a casa de um romance. 

O anterior ‘‘Jalousie’’ já nos tinha deixado no travo amargo desta decadência remendada. E em ‘‘L’Ombre de Femmes’’, para vincar ao extremo o argumento, há o exemplo contrapontual que dá aos protagonistas o espelho que não usam: o velho casal (do qual conhecemos apenas o nome do homem, o ‘‘resistente impostor’’) no seu quadro de farsa desvelada no fim. O que Garrel parece enunciar é que a farsa é total e que o amor para sempre não existe - e que o que une esses casais ao longo de uma vida só pode ser (mais uma) história que eles se vão contando e acreditando.