Despeço-me de um favorito, Jacques Rivette, no site À Pala de Walsh, 
com o que me foi possível de um rascunho retrospectivo dessa imensidão só sua :
JACQUES RIVETTE, O LEÃO DE PARIS.

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L’Ombre de Femmes: nunca tão longe das liras.
‘‘Numa encruzilhada do coração / não há templos para Apolo.’’
RAINER MARIA RILKE
L’Ombre des Femmes é um Garrel no estado último do desencanto. E nós com ele: rapidamente sufocamos no interior destas relações amorosas reduzidas ao alicerce mais prosaico das suas existências materiais. Sofremos com a repetida mundanidade dos seus recantos físicos e cronológicos, e descremos na possibilidade de encontrar uma qualquer verdade no meio desta sinfonia de banalidades. O que sustém a rota destes corpos de cama em cama? Num fundo de sofreguidão, sente-se um desfoque, uma suspensão do ‘‘eu’’, uma falta de rumo que a todos une. A languidez decorre da fadiga, ou assim parece. Na exaustão de quem assiste à vacuidade destas danças, convenço-me de que há compreensões a que nunca chegarei: o que fazemos a nós próprios em nome dessa suposta ideia de amor? 

Com ‘‘L’Ombre des Femmes’’, Philippe Garrel, o mestre do atemporal romance, do filme a preto-e-branco, tira-nos o que nos deu. Reduz o amor a um sistema de posses e de expectativas, e tapa o último feixe de luz: tudo se ensombra com ciúmes, negociações, traições, revelações, cache-cache, separações e o desamor último, que lança cada um para a solidão. Mas nenhum dos desenlaces possíveis é um final feliz - porque, afinal, nisto do amor, aprendemos, não há finais felizes. Neste cenário, a música não tem por onde acontecer. A poesia mora nos véu de Apolo e, aqui, a realidade é demasiado real. A precariedade deste quotidiano secou qualquer fundo de beleza, tão dependente do mistério. Se não parece, é porque não é - esta não é a casa de um romance. 

O anterior ‘‘Jalousie’’ já nos tinha deixado no travo amargo desta decadência remendada. E em ‘‘L’Ombre de Femmes’’, para vincar ao extremo o argumento, há o exemplo contrapontual que dá aos protagonistas o espelho que não usam: o velho casal (do qual conhecemos apenas o nome do homem, o ‘‘resistente impostor’’) no seu quadro de farsa desvelada no fim. O que Garrel parece enunciar é que a farsa é total e que o amor para sempre não existe - e que o que une esses casais ao longo de uma vida só pode ser (mais uma) história que eles se vão contando e acreditando.
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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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