REVEILLON 2015-2016 // Times are A-Changin

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Planeio o auto-exame. Desabotoada a camisa de ontem, faço do peito a matéria em bruto. A lupa protoganiza o acto. Chego à contabilidade das fendas. Enquanto o espelho me censura, é dos erros que destilo verdades. Ao menos os anos lavaram-me os ossos:


- Não esconderás os pessimistas debaixo do colchão.
Que leitor foge de autores pessimistas a sete pés? Aquele que já diagnosticou pessimismo de sobra dentro de si. Mas um mandamento pessoal jamais pode aspirar a ter vocação plural. Aqui se inscreve a primeira regra para bem-conviver em sociedade. Não temos de proteger uns humanos de outros. A inteligência individual é a mesma chave do Eu e do Outro. A decifração é de cada qual. Não dá para cair nos princípios proteccionistas de querer salvar as cabeças de uns das ideias dos outros. Aí começa o holocausto. Conviveremos bem entre Céline, Lautréamont, de Sade, Nietzche percebendo que a hipótese, primeiramente, levanta o problema: uma descrição da Humanidade a arder não é a própria Humanidade a arder. Perceberemos como estas fórmulas de desintegração são activas apenas consoante a inteligência de quem as lê. E reconheceremos o grau relativo da sua ineficácia considerando um facto - a humanidade começa no mais animal dos instintos, o de proteger a própria integridade. Os murros na mesa são as excepções à regra, agitam a estrutura e fendem o estabelecido (o mais fácil é deixar de perguntar). A sociedade precisa deles vitalmente: o mundo tem de ser posto a arder, amiúde, para daí nascer diferente.

- Rir de rigorosamente tudo. (Porque afinal tudo é, sob certa luz, ridículo.)
Paro aqui para esboçar um mea culpa: tenho faltado ao humor. Acho que a juventude me chegou tarde. Acredito mesmo que não há demonstração maior de inteligência do que conseguir rir de rigorosamente tudo. Todas as salvações possíveis começam no mais umbilical riso. E é precisamente com o sentido de humor que um pessimista se protege do pessimismo. 

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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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