quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Defesa de Duras


E lá voltamos nós para plantar as faltas: 
desejamos chegar à vida adiante, rapidamente sentir o não sentido,  abrir ao escuro esse grande coração secreto que teme definhar em peito jovem. 
A solidão é a maior morada dos pensamentos puros. 
O cinema acontece na cabeça, finge sempre o outro que melhor couber a esse par de braços estendidos. N'importe qui. 

''Muito cedo na minha vida era tarde demais''
O AMANTE



AGATHA ET LES LECTURES ILLIMITÉES

Escada acima, escada abaixo, Duras fez vida de ir da sua pequena avenida até aos céus. A sua idade é das décadas quietas da mesma juventude revisitada, essa água donde mil vezes fez nascer o seu grande amor ausente, que à partida lhe deixou uma alma por resolver. 
Pela extensão da escrita, em cada dia se costura a memória - e o breve encontro de uma adolescência dura uma vida. Quinze anos e meio, apenas e para sempre, porque os desejos da juventude serão infinitos: o primeiro toque eternamente imprimido na primeira brancura de um corpo de mulher afaga a mortalidade de cada hora. 

Tudo cai e tudo muda mas, em segredo, um peito resiste :

"Uma pessoa nunca deve curar-se da sua paixão."
O AMANTE

''Nada os atingirá.''
AGATHA

''Porquê negar evidentemente a necessidade da memória?"

HIROSHIMA MEU AMOR

Já não era ele. O grande viajante de S.Thala, o príncipe do Ganges, o barqueiro do Mekong, o elegante diplomata bengalês, o desejável desconhecido das Indochinas, o estranho da praia, o belo chinês que lhe iniciou o corpo ao fim da tarde, num quarto quente em Laos. 
Todos variações do mesmo nome, o nome desse primeiro homem lançado sobre todos os outros. 
(O seu nome de Veneza numa Calcutá deserta.) 
Um duplo ataque do Tempo: 
sobre eles agora o peso de não terem chegado antes. 
Sobre ela, a busca vã pela vida já vivida. 
Embarquei com ele, feliz de ser como todas as outras. (...) Tudo foi pensado depois, no barco de volta a França : amei-o sem dúvida. (...) Era muito muito forte. Era para toda a vida.

''Dás-me um grande desejo de amar.''
HIROSHIMA MEU AMOR

 Moderato Cantabile, Peter Brook, 1960

''enquanto nada acontecer entre eles, a memória está amaldiçoada com o que não aconteceu.''
OLHOS AZUIS, CABELO PRETO

Das tuas mãos incessantes, uma caneta e um copo. 
Viajas de pernas torcidas nos cafés e ignoras o jornal dia após dia. Contra o rodopio do mundo vivo, a tua missão é sempre a de ir inventando a própria memória : 
A guerra acabou, o país já não existe, tu voltaste da colónia. 
Ele onde está?  
(- Por ti, meu amor, estou às mãos de ser.) 
Tu escreves.
Marguerite, tu escreves. (para sempre, destinada a chamar ''meu amor'' a uma página em branco). 
Foste tu quem, em India Song - Son Nom de Venise nos explicou como os nomes próprios são fôlegos muito secretos em espera, são feitiços que a língua vicia entre sussurros e suspiros, para dentro de si. 
Definimos todos os outros pelo nome : 
numa palavra, um sopro
numa velocidade, um coração

A memória faz-se numa esperança de amanhã.


A sala escura sonha a 
voragem em uníssono. 

Desenfreadamente se viveu até àquela hora de querer morrer nos lençóis onde o mundo parecia ter acabado. Foi ali que o caminho para o fim, por breve instante, se interrompeu.  S.Thala morada aos Eternos.





India Song (Marguerite Duras, 1975) 

O romance é um trabalho do espírito. 
Aquece em erotismo o mais banal, replica-se: O erotismo é intelecto projectado sobre um corpo, um rosto, um detalhe como uma tela branca pronta a abrir-se à vida do sonho. 
A paixão é um enredo em que se entra com vontade de vestir.  
As faltas gritam, os limites gritam. 
A narrativa quer ser completa pelos pormenores. 
Os olhos desejam afundar-se, 
desejam curar-se de um mundo afogando-se noutro. 
Tudo  é vontade de ver, e o projecto avança com a minúcia de imaginar o que ficou por experimentar. 

O teu trabalho, Marguerite, é literal - escrever romances. 
Doas páginas de onde se extraem lembranças de mundos primeiramente teus. Dás sentidos universais aos corpos interrompidos, essas faltas de onde o erotismo nasce. 
E depois as pessoas que tão bem escreves são peles que largas para a leitura vestir. 
E aí, tudo muda. 
Aí, acredita-se.


Il dialogo di Roma (Marguerite Duras, 1983) 

Mas o idealismo é o primeiro mandamento do espírito aberto. É mais fácil detalhar na nostalgia das horas cada vez mais longínquas. 

A paixão não é afinal a fome de deuses na terra? 

O desejo é um treino da imaginação: 

todos os corpos implicados têm o mesmo protagonismo. 

Tudo é e não é comum nestas danças de encontros e fugas. 


Indivíduos nunca serão senão individuais.

Cada qual irá plantar em si as expectativas. 

Cada qual há-de abrir os dedos, largar as roupas e fingir. 

Fingir fé. 

E um dia, peut-être, este amor será verdadeiro.

 E um dia, afastados entre si os corpos, este amor será perfeito.

Foi isto que Duras nos ensinou, lembrando como o desejo vive da ausência e como o tempo é a matéria da dedicatória -  até à idealização que melhor servir o propósito de contar a história (e toda a história é distância). 

No fim, todos os actores das circunstâncias perceberão como a ficção constrói o real. 

Como o real é o que acontece dentro da cabeça. 

E, em boa memória, há de facto horas perfeitas como filmes. 


La Femme Du Gange, Marguerite Duras, 1974

Todos os Verões sonhamos os Verões de Marguerite : 
os mesmos quartos de praia tão vazios de amor como os corpos ansiosos das mulheres ainda jovens que só toleram a perfeição por chegar. 
De olhos postos no mar, a súbita palavra certa há-de ficar por ouvir. 
Que estas são as mesmas ondas de Virginia, os batimentos da possibilidade: Agatha et Les Lectures Illimitées também é sobre amar profundamente sem saber a quem. Recolher as flores para quando Alguém chegar. 
Animar as horas com visões para a eternidade. 
Dedicar corpo fiel a alguém sem rosto. 
É uma imaginação admirável, verdadeiramente. 
O romance é uma das mais extraordinárias formas de viver: com ambição de infinito. 




(NEVERS. NEVERS EN FRANCE.) 






HIROSHIMA, MON AMOUR

Sabe quem se dá a si um espelho:
Os problemas dos espíritos cruzam os mesmos caminhos. 
O pensamento vicia círculos para voltar sempre às suas fundações. Para o pensar e para o sentir, nunca se parte de mãos vazias. 
E é porque os mesmos temas, lugares e sujeitos ressurgem no mundo de Duras que é comum ouvir-se  que ela é uma cineasta repetitiva ou uma escritora medíocre. 
Injustiças, quando foi das poucas que deu a ver, crua e lancinante, quão irremediável é a incompletude do corpo. 
Quão real é a solidão que se anima por pequenas afeições fechadas nos livros e nos filmes. 





Por enquanto, deixou-nos num último fundo de fé: 
um futuro por que se espera é uma salvação que não chegou ainda. 

As Mãos Negativas, Marguerite Duras (1979)



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