quarta-feira, 1 de abril de 2015

A Memória gerou as Musas

Cantarei a mãe dos homens e dos deuses /
cantarei a Noite 
Eusébio

sobre Teogonia, Hesíodo



ONLY LOVERS LEFT ALIVE, JIM JARMUSCH, 2014




A Noite negra cai sobre o homem que esquece. O homem de hoje nasce para a novíssima cama da electricidade e todas as presenças lhe são prometidas transparentes. Os sons do progresso sobrepõem-se para enfatizar esta promessa: a realidade será examinada em emissão ininterrupta e toda a verdade será entregue diariamente, haja ecrãs. Mas onde saber sobre o peito, que vive assombrado? Que garras de escuridão não fecham os olhos à noite? O que perguntar ao fundo das sombras, que juízo fazer das luzes sempre acesas naquela casa fechada, longe de todos?
A memória é curta porque a vida é curta - lembra bem o seu pequeno passado e pouco o passado de todos os outros. Falta-lhe a imaginação de ser outro, de ir ao fundo do peito de outras vidas, de ver tudo isto de bem longe. Porque deixaram de vir as  Musas? Adão e Eva (Adam e Eve), cá desde o princípio dos dias, hoje sofrem esta idade das trevas mascarada por fogos de artificio. 
VAMPIROS
Que memória será a de quem tem o Tempo todo ? De que desespero sofrerá este vampiro, homem imortal, primeiro homem até ao fim ? Se não o angustia a finitude, planta-se em si a tristeza de assim ver degenerar a raça, futuro nenhum adentro. Os zombies somos nós, amputações recentes do grande espírito humano que já não chegam para cumprir a humanidade. E se os vampiros fundadores precisam da pureza de um sangue que já não há, conseguiu a rasteira sub-espécie mortal extinguir entres os pares a última vida da imortalidade. Quem é parasita de quem, se os homens não se cansaram de rezar para fora do mundo? Os olhos zombies perderam-se das Musas, divorciaram-se da magia das sombras. Tudo está às claras, não há recantos. Em silêncio meditam Adão e Eva o destino de assim depender da corrupta espécie que a pouco e pouco os mata, enquanto se mata a si. Veneno no sangue para se ir vivendo, tão necessário ao corpo como qualquer droga - como qualquer vida é necessária ao corpo se tiver amor na alma. Apenas os amantes vivem.  E, apesar da ''areia estar toda do outro lado da ampulheta'' (e de por isso ocorrer-lhe acabar com tudo antes do tempo), resistem nocturnos e silenciosos, semi-deuses anónimos entre as altas paredes no segredo de quem já pensou isto tudo. A Noite é filha do Caos - sobra encontrar dentro o canto da Musa, venha em que melodia vier. Acertará sempre quem repetir, Rock'n'Roll will save your soul.




William Adolphe Bouguereau : Nyx, a deusa da Noite(1883)


( Aquilo de ser imortal até prova em contrário. )


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