terça-feira, 28 de abril de 2015

Complexo de múmia



"(...)
O pensamento da distância da pessoa na fotografia vai mais longe: aquilo que uma fotografia mostra já não existe. É verdade que se pode voltar ao local que uma foto reproduz, mas não no momento em que foi feita.
A partir daqui, Bazin deduz, tanto para a fotografia como para o cinema, um complexo de múmia, chama Às imagens cinemotográficas múmias que se movem. Embalsamaram o instante e guardam-no, ele continua a existir na imagem e contudo já lá não está.
A fotografia oferece o passado concluído e afasta a morte para o futuro : as reflexões de Roland Barthes giram à volta do ponto em que a fotografia acciona o seu característico desaparecimento da pessoa. A própria fotografia é a testemunha que garante este desaparecimento.''

Hartmut Bitomsky

domingo, 26 de abril de 2015

Hey hey my my

 Out of the Blue, Dennis Hopper, 1980
Gummo, Harmony Korine, 1997

There's more to the picture
Than meets the eye.
Hey hey, my my.

O conhecimento do mundo a que chamamos cinema.



"A promessa da cinefilia encontra-se no potencial das imagens terem um efeito que não se conforma às nossas ideias ou expectativas pré-concebidas, portanto será igualmente grave para a cultura cinematográfica se, por parte do mundo académico, o que conte para a escrita aceitável fique restringido a causas prováveis e a efeitos mensuráveis, isolando o cinema do pensamento especulativo e das realidades políticas. Segundo Jacques Rancière, o conhecimento do mundo a que chamamos cinema é sempre cambiante e sempre controverso e pertence a qualquer um que o tome como um lugar em que pode forjar o seu próprio e pessoal caminho."

 Nico Baumbach,''All that heaven allows'' @ Film Comment magazine 2012

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Earth is it shaking and people have fled

we are unhappy / we are unblessed

Pierrot Le Fou, Jean-Luc Godard, 1965

sábado, 18 de abril de 2015

Mistérios.


A quem profetiza Heráclito de Éfeso? Aos noctívagos, aos magos,
aos bacantes, às ménades, aos iniciados; a estes ameaça com o depois da morte, a estes
profetiza o fogo; pois os considerados mistérios entre os homens impiamente se
celebram.
CLEMENTE DE ALEXANDRIA


Modern Times, Chaplin, 1936

Love with the Proper Stranger, Mulligan, 1963



Andrew Wyeth





''O cinema foi a arte que permitiu às almas viver intimamente as suas histórias.''
Godard

''Hitchcock prova que o cinema, mais do que a fotografia ou o romance, é capaz de mostrar os dados imediatos da consciência."
Manny Farber

sábado, 11 de abril de 2015

Milord reduzido a viver de imagens

O LORD

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso - em dúvida iludida...
(-Por isso a minha raiva mal contida,
- Por isso a minha eterna impaciência.)
Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...
( - Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -
E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...)
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

 Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps (Guy Débord 1959)




''para a filosofia, não é de modo algum difícil começar'' (KIERKEGAARD)



sexta-feira, 10 de abril de 2015

O limite dos infinitos



''Mas que maneira estranha tem este homem de vibrar com tudo isto! Dir-se-ia que alguém, como um prestidigitador, sucessivamente lhe mostrava a Terra e lha escamoteava a seguir, e ele concebia a beleza viva com a maior diferença possível entre a existência e a não-existência. Era nisso, precisamente, que residia a sua originalidade:essa diferença, que não se pode conceber mais do que num instante,ele a havia retido e levado ao nível de índice constante de poesia. Mas onde tinha ele podido ver essas aparições e desaparições? Não era a voz da humanidade que lhe tinha ensinado a conhecer a Terra, que aparecia e desaparecia no decurso das gerações?

Tudo isto é, de uma ponta à outra, uma arte sem mentiras que fala do limite dos infinitos, que nasce inteiramente da mais rica, insondável e estremecida miséria terrestre. (...) que, limitando-se à sua grosseira condição, o homem não pode dedicar-se a nada de grande; que ele precisa de transformar-se em dinheiro..."

(Melodia Interrompida, Boris Pasternak)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

1908 - 2015

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Comicidade.

''Todo o barroquismo é intelectual, e Bernard Shaw declarou que todo o labor intelectual é humorístico.''
Jorge Luís Borges
no prólogo da edição de 1954 de História Universal da Infâmia


Marie Duval

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Nigredo

''Neste século tudo é preto. Não será a fotografia o vestido preto das coisas?"
Irmãos Goncourt

Da série “Classic 111”, 2006. José Luís Neto

Salvação.

Finding Vivian Meier, 2013

Esta personalidade deixou-se como ninguém. Para lá da prolífica obra secreta, a extensa acumulação dos vestígios liga a sua existência ao mundo, como se destinando já todas as pistas necessárias para se fazer viver numa outra vida, a da lembrança. Como é que tudo isto escapou à destruição? Sabe a milagre. 

A Memória gerou as Musas

Cantarei a mãe dos homens e dos deuses /
cantarei a Noite 
Eusébio

sobre Teogonia, Hesíodo



ONLY LOVERS LEFT ALIVE, JIM JARMUSCH, 2014




A Noite negra cai sobre o homem que esquece. O homem de hoje nasce para a novíssima cama da electricidade e todas as presenças lhe são prometidas transparentes. Os sons do progresso sobrepõem-se para enfatizar esta promessa: a realidade será examinada em emissão ininterrupta e toda a verdade será entregue diariamente, haja ecrãs. Mas onde saber sobre o peito, que vive assombrado? Que garras de escuridão não fecham os olhos à noite? O que perguntar ao fundo das sombras, que juízo fazer das luzes sempre acesas naquela casa fechada, longe de todos?
A memória é curta porque a vida é curta - lembra bem o seu pequeno passado e pouco o passado de todos os outros. Falta-lhe a imaginação de ser outro, de ir ao fundo do peito de outras vidas, de ver tudo isto de bem longe. Porque deixaram de vir as  Musas? Adão e Eva (Adam e Eve), cá desde o princípio dos dias, hoje sofrem esta idade das trevas mascarada por fogos de artificio. 
VAMPIROS
Que memória será a de quem tem o Tempo todo ? De que desespero sofrerá este vampiro, homem imortal, primeiro homem até ao fim ? Se não o angustia a finitude, planta-se em si a tristeza de assim ver degenerar a raça, futuro nenhum adentro. Os zombies somos nós, amputações recentes do grande espírito humano que já não chegam para cumprir a humanidade. E se os vampiros fundadores precisam da pureza de um sangue que já não há, conseguiu a rasteira sub-espécie mortal extinguir entres os pares a última vida da imortalidade. Quem é parasita de quem, se os homens não se cansaram de rezar para fora do mundo? Os olhos zombies perderam-se das Musas, divorciaram-se da magia das sombras. Tudo está às claras, não há recantos. Em silêncio meditam Adão e Eva o destino de assim depender da corrupta espécie que a pouco e pouco os mata, enquanto se mata a si. Veneno no sangue para se ir vivendo, tão necessário ao corpo como qualquer droga - como qualquer vida é necessária ao corpo se tiver amor na alma. Apenas os amantes vivem.  E, apesar da ''areia estar toda do outro lado da ampulheta'' (e de por isso ocorrer-lhe acabar com tudo antes do tempo), resistem nocturnos e silenciosos, semi-deuses anónimos entre as altas paredes no segredo de quem já pensou isto tudo. A Noite é filha do Caos - sobra encontrar dentro o canto da Musa, venha em que melodia vier. Acertará sempre quem repetir, Rock'n'Roll will save your soul.




William Adolphe Bouguereau : Nyx, a deusa da Noite(1883)


( Aquilo de ser imortal até prova em contrário. )