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O pensamento da distância da pessoa na fotografia vai mais longe: aquilo que uma fotografia mostra já não existe. É verdade que se pode voltar ao local que uma foto reproduz, mas não no momento em que foi feita.
A partir daqui, Bazin deduz, tanto para a fotografia como para o cinema, um complexo de múmia, chama Às imagens cinemotográficas múmias que se movem. Embalsamaram o instante e guardam-no, ele continua a existir na imagem e contudo já lá não está.
A fotografia oferece o passado concluído e afasta a morte para o futuro : as reflexões de Roland Barthes giram à volta do ponto em que a fotografia acciona o seu característico desaparecimento da pessoa. A própria fotografia é a testemunha que garante este desaparecimento.''

Hartmut Bitomsky
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 Out of the Blue, Dennis Hopper, 1980
Gummo, Harmony Korine, 1997

There's more to the picture
Than meets the eye.
Hey hey, my my.
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"A promessa da cinefilia encontra-se no potencial das imagens terem um efeito que não se conforma às nossas ideias ou expectativas pré-concebidas, portanto será igualmente grave para a cultura cinematográfica se, por parte do mundo académico, o que conte para a escrita aceitável fique restringido a causas prováveis e a efeitos mensuráveis, isolando o cinema do pensamento especulativo e das realidades políticas. Segundo Jacques Rancière, o conhecimento do mundo a que chamamos cinema é sempre cambiante e sempre controverso e pertence a qualquer um que o tome como um lugar em que pode forjar o seu próprio e pessoal caminho."

 Nico Baumbach,''All that heaven allows'' @ Film Comment magazine 2012
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we are unhappy / we are unblessed

Pierrot Le Fou, Jean-Luc Godard, 1965

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A quem profetiza Heráclito de Éfeso? Aos noctívagos, aos magos,
aos bacantes, às ménades, aos iniciados; a estes ameaça com o depois da morte, a estes
profetiza o fogo; pois os considerados mistérios entre os homens impiamente se
celebram.
CLEMENTE DE ALEXANDRIA


Modern Times, Chaplin, 1936

Love with the Proper Stranger, Mulligan, 1963



Andrew Wyeth





''O cinema foi a arte que permitiu às almas viver intimamente as suas histórias.''
Godard

''Hitchcock prova que o cinema, mais do que a fotografia ou o romance, é capaz de mostrar os dados imediatos da consciência."
Manny Farber
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O LORD

Lord que eu fui de Escócias doutra vida
Hoje arrasta por esta a sua decadência,
Sem brilho e equipagens.
Milord reduzido a viver de imagens,
Pára às montras de jóias de opulência
Num desejo brumoso - em dúvida iludida...
(-Por isso a minha raiva mal contida,
- Por isso a minha eterna impaciência.)
Olha as Praças, rodeia-as...
Quem sabe se ele outrora
Teve Praças, como esta, e palácios e colunas
Longas terras, quintas cheias,
Iates pelo mar fora,
Montanhas e lagos, florestas e dunas...
( - Por isso a sensação em mim fincada há tanto
Dum grande património algures haver perdido;
Por isso o meu desejo astral de luxo desmedido -
E a Cor na minha Obra o que ficou do encanto...)
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

 Sur le passage de quelques personnes à travers une assez courte unité de temps (Guy Débord 1959)




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''Mas que maneira estranha tem este homem de vibrar com tudo isto! Dir-se-ia que alguém, como um prestidigitador, sucessivamente lhe mostrava a Terra e lha escamoteava a seguir, e ele concebia a beleza viva com a maior diferença possível entre a existência e a não-existência. Era nisso, precisamente, que residia a sua originalidade:essa diferença, que não se pode conceber mais do que num instante,ele a havia retido e levado ao nível de índice constante de poesia. Mas onde tinha ele podido ver essas aparições e desaparições? Não era a voz da humanidade que lhe tinha ensinado a conhecer a Terra, que aparecia e desaparecia no decurso das gerações?

Tudo isto é, de uma ponta à outra, uma arte sem mentiras que fala do limite dos infinitos, que nasce inteiramente da mais rica, insondável e estremecida miséria terrestre. (...) que, limitando-se à sua grosseira condição, o homem não pode dedicar-se a nada de grande; que ele precisa de transformar-se em dinheiro..."

(Melodia Interrompida, Boris Pasternak)
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''Todo o barroquismo é intelectual, e Bernard Shaw declarou que todo o labor intelectual é humorístico.''
Jorge Luís Borges
no prólogo da edição de 1954 de História Universal da Infâmia


Marie Duval
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''Neste século tudo é preto. Não será a fotografia o vestido preto das coisas?"
Irmãos Goncourt

Da série “Classic 111”, 2006. José Luís Neto
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Finding Vivian Meier, 2013

Esta personalidade deixou-se como ninguém. Para lá da prolífica obra secreta, a extensa acumulação dos vestígios liga a sua existência ao mundo, como se destinando já todas as pistas necessárias para se fazer viver numa outra vida, a da lembrança. Como é que tudo isto escapou à destruição? Sabe a milagre. 
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Cantarei a mãe dos homens e dos deuses /
cantarei a Noite 
Eusébio

sobre Teogonia, Hesíodo



ONLY LOVERS LEFT ALIVE, JIM JARMUSCH, 2014




A Noite negra cai sobre o homem que esquece. O homem de hoje nasce para a novíssima cama da electricidade e todas as presenças lhe são prometidas transparentes. Os sons do progresso sobrepõem-se para enfatizar esta promessa: a realidade será examinada em emissão ininterrupta e toda a verdade será entregue diariamente, haja ecrãs. Mas onde saber sobre o peito, que vive assombrado? Que garras de escuridão não fecham os olhos à noite? O que perguntar ao fundo das sombras, que juízo fazer das luzes sempre acesas naquela casa fechada, longe de todos?
A memória é curta porque a vida é curta - lembra bem o seu pequeno passado e pouco o passado de todos os outros. Falta-lhe a imaginação de ser outro, de ir ao fundo do peito de outras vidas, de ver tudo isto de bem longe. Porque deixaram de vir as  Musas? Adão e Eva (Adam e Eve), cá desde o princípio dos dias, hoje sofrem esta idade das trevas mascarada por fogos de artificio. 
VAMPIROS
Que memória será a de quem tem o Tempo todo ? De que desespero sofrerá este vampiro, homem imortal, primeiro homem até ao fim ? Se não o angustia a finitude, planta-se em si a tristeza de assim ver degenerar a raça, futuro nenhum adentro. Os zombies somos nós, amputações recentes do grande espírito humano que já não chegam para cumprir a humanidade. E se os vampiros fundadores precisam da pureza de um sangue que já não há, conseguiu a rasteira sub-espécie mortal extinguir entres os pares a última vida da imortalidade. Quem é parasita de quem, se os homens não se cansaram de rezar para fora do mundo? Os olhos zombies perderam-se das Musas, divorciaram-se da magia das sombras. Tudo está às claras, não há recantos. Em silêncio meditam Adão e Eva o destino de assim depender da corrupta espécie que a pouco e pouco os mata, enquanto se mata a si. Veneno no sangue para se ir vivendo, tão necessário ao corpo como qualquer droga - como qualquer vida é necessária ao corpo se tiver amor na alma. Apenas os amantes vivem.  E, apesar da ''areia estar toda do outro lado da ampulheta'' (e de por isso ocorrer-lhe acabar com tudo antes do tempo), resistem nocturnos e silenciosos, semi-deuses anónimos entre as altas paredes no segredo de quem já pensou isto tudo. A Noite é filha do Caos - sobra encontrar dentro o canto da Musa, venha em que melodia vier. Acertará sempre quem repetir, Rock'n'Roll will save your soul.




William Adolphe Bouguereau : Nyx, a deusa da Noite(1883)


( Aquilo de ser imortal até prova em contrário. )


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