sábado, 11 de abril de 2009

Play Misty for Me (Clint Eastwood, 1971)

PLAY MISTY FOR ME / 1971
Clint Eastwood






Manuel Cintra Ferreira


Para quem descubra agora o primeiro filme realizado por Clint Eastwood encontrará nele algo de familiar. De facto, o argumento apresenta uma singular aproximação ao de Fatal Attraction/Atracção Fatal, de Adrian Lyne. Mas seja qual for o ponto de vista que se tome para a comparação, a verdade é que Play Misty For Me, apesar das evidentes e visíveis deficiências, apresenta um maior interesse. Talvez a história de Jo Heims que Eastwood filma não fosse estranha a James Dearden, o argumentista de Fatal Attraction. Mas o filme de Lyne é um schlock que chega a cair no mau gosto do “gore” e no efeito de choque (o que está na origem do seu esmagador sucesso de bilheteira), enquanto o de Eastwood está mais na linha de um thriller clássico sobre um caso de paranóia e, para o seu tempo (1972), representa uma sugestiva alteração nas regras do género, no que diz respeito às relações entre os personagens principais.

De qualquer modo o tema não é inteiramente original. A história do cinema americano apresenta já algumas personagens femininas que fogem ao cânone fílmico, mas a Evelyn de Play Misty For Me leva ao ponto de ruptura situações tensas e confrontos que até então se adivinhavam trágicos, e é uma personagem que já não se pode incluir na “categoria” da mulher “fatal”, que até então servia para apresentar esse tipo de mulher no melodrama (The Dark Mirror/O Espelho da Alma) ou no filme “negro” (Double Indemnity/Pagos a Dobrar). Mas entre as personagens femininas aparecidas na década de 40 há uma que se destaca pela patologia que a domina, pela pulsão (auto)destruidora que a empurra, pelo sentimento de posse total do objecto do seu desejo, e que se aproxima singularmente da de Play Misty For Me. Trata-se de Guest in the House/Mulher Sem Alma de John Brahm (1944) e onde Anne Baxter tem a sua maior interpretação antes de All About Eve/Eva de Mankiewicz. Semelhanças que vão ao ponto de terem o mesmo nome, Evelyn e fim semelhante. E se a Evelyn de Guest in the House tinha uma fobia aos pássaros (que provocam o seu fim) não deixa de ser curiosa a presença de um corvo na casa de Eastwood. Apetecia dizer, agora, que, neste caso Joe Heims deveria conhecer aquele filme de Brahm (ou a peça que adapta), e que é, portanto, apenas um elo na corrente de transmissão da “história” de uma fase para outra. Aliás, esoterismos à parte, o corvo presente acaba por ser uma referência premonitória à descoberta por Dave (Eastwood) de quem é a companheira de apartamento de Tobie (Donna Mills), feita através de um poema de Edgar Allan Poe, “Annabel Lee”. Mas para lá desta citação culta (e o de um “possível” elo de ligação ao filme de Brahm) o corvo representa também o “olhar de pássaro” que abre e encerra o filme: duas longas panorâmicas aéreas que do céu se aproximam (a primeira) e se afastam (a segunda) da casa da praia que é o cenário do drama. Para reforçar este olhar “de cima”, como que “testemunhado” pelas aves (como em The Birds de Hitchcock) um plano a meio do filme enquadra uma gaivota que voa pela costa (as filmagens foram feitas perto de Carmel, onde reside Clint Eastwood) e é sempre na mesma perspectiva que o realizador nos mostra os carros na auto-estrada. Levando mais longe a analogia, este olhar de “pássaro” corresponde, de certo modo, ao olhar que Dave tem das suas relações com as mulheres, uma posse sem compromisso, um “olhar rápido” (à vol d’ oiseau, é uma sugestiva expressão francesa que lhe corresponde), não uma contemplação, uma “fixação”. Aliás, todo o conflito parece ser uma metáfora das indecisões de Dave, que não se resolve a comprometer-se seriamente com Tobie. A aparição de Evelyn, que é exactamente o reverso de Tobie, destina-se, simbolicamente, a destruir a imagem negativa, a fim da outra poder ocupar, finalmente, para lá do espaço afectivo, o sexual. Ambos “marcados” (ele ferido pela faca e ela de cabelos cortados, numa imagem ambígua) apoiar-se-ão um ao outro para caminharem no final. O personagem masculino surge, aqui numa posição de flagrante inferioridade em relação a qualquer das personagens femininas: não tem a segurança de Tobie, nem a agressividade de Evelyn. Há um certo masoquismo na forma como Eastwood constrói a personagem quer vem detrás, dos filmes que o consagraram e que ele manterá em muitos dos que fará depois. Recorde-se a figura do “Homem Sem Nome” na trilogia de Sergio Leone (em particular o primeiro filme: Per Un Pugno di Dollari/Por Um Punhado de Dólares) e os seus trabalhos nos filmes de Don Siegel. Aliás Play Misty For Me vem exactamente na sequência de The Beguiled/Ritual de Guerra de Don Siegel, onde Eastwood tem a sua imagem viril totalmente “castrada”, ferido e acamado e presa e vítima de um grupo de mulheres fanáticas. A personagem de Dave de Play Misty For Me tem muito em comum com a daquele filme, o que se manifesta na “impotência” que mostra em se livrar da mulher que o persegue. Siegel torna-se assim, para ali de cúmplice e amigo, o “padrinho” de Eastwood na estreia na estreia deste na realização (que “avaliza” com a sua presença como intérprete, na figura do barman). Como primeira obra o filme apresenta, como desse ao começo, algumas deficiências. As mais flagrantes serão a montagem rápida entre a agressão de Evelyn a Tobie e a corrida de Dave no carro que desorienta o espectador, e a introdução das cenas documentais do festival de jazz, numa espécie de “pausa” antes do desenlace.


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