sábado, 14 de março de 2015

Mais nada.




(...)Se Anne Bancroft descende dessas mulheres de Ford (que ao contrário do que se costuma dizer, sempre as dirigiu de forma notável, “como Heifetz a tocar um ‘stradivarius’“, afirmava com toda a razão Budd Boetticher) descende também, e não estou a querer ser paradoxal, do mais mítico dos seus heróis: John Wayne. Como John Wayne vem do escuro carregando um passado, como Wayne se impõe fisicamente (neste caso a feminilidade em vez da masculinidade), como Wayne assume-se em tensão física e em coragem moral até às últimas consequências e até às últimas sequências. E é então - e não deixo de me pasmar de cada vez que vejo isso - que Bancroft “muda de sexo”; ou seja se veste pela primeira vez de mulher (depois do plano genial em que se vê ao espelho), nas vestes orientais. Tão bela e tão paramentada como a princesa chinesa que antes entrevíramos (num plano igualmente fabuloso cuja necessidade só então percebemos), oferece-se a Tunga Khan com a dignidade e grandeza de Yang-Kwei-Fei, a imperatriz de Mizoguchi. Prepara as chávenas com o veneno e, muito lentamente, em ritual de doação, mas com um sorriso vagamente meigo e vagamente cúmplice, dá a bebida a Mazurki: “So long, you bastard”. Sem um corte, a câmara tão imóvel como ela, espera que o chinês morra (cai, desaparecendo do plano) e depois, com a mesma lentidão, bebe o mesmo veneno e atira fora a chávena. A câmara recua num movimento rápido e tudo escurece para que a queda daquele corpo fique invisível. Como Wayne na Desaparecida, sozinha veio de longe, sozinha se afasta para longe.
(...)
Mas há acima de tudo Anne Bancroft. Como Sue Lyon diz no fim: “I never forget her whenever I live”. “O mais belo personagem de Ford no mais belo dos filmes”.
Como naquele belíssimo poema de Irene Lisboa, de Ford “a ansiedade já esgotada / tornou (lhe) o peito um lago / ou um campo aberto, fundamente cavo / Que venham novas lágrimas após tantos dias rancorosos / E com elas... / mais nada, mais nada, mais nada”.

JOÃO BÉNARD DA COSTA sobre SEVEN WOMEN, John Ford, 1966






 How the West Was Won, John Ford, 1962

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