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“She smiled at him, making sure that the smile gathered up everything inside her and directed it toward him, making him a profound promise of herself for so little, for the beat of a response, the assurance of a complimentary vibration in him.” 
F. Scott FitzgeraldTender Is the Night


Terna é a noite, Henry King, 1962
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''(...)
Foi quando compreendi 
Que nada me dariam do infinito que pedi, 
- Que ergui mais alto o meu grito 
E pedi mais infinito! 
(...)''
JOSÉ RÉGIO, in Poema do Silêncio

Vertigo, Hitchcock , 1958

The Wings of Eagles, John Ford, 1957


Musica Callada - Mompou
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Tabu: A Story of the South Seas, Murnau, 1931

Chanson D'Amour, Jean Epstein, 1934

Approaching Thunder Storm, 1859. Martin Johnson Heade



A Summer Afternoon, Martin Johnson Heade


Spouting Rock, Newport, 
1862,  Martin Johnson Heade

Rio de Janeiro Bay, 1864, Martin Johnson Heade



Lyonel Feininger

Helen Frankenthaler, Mountains and Sea, 1952. 
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Programa de Sérgio Taborda na Culturgest 
Qua 25 março, 21h30
Naked Spaces – Living is Round (1985), de Trinh T. Minh-ha

Qui 26 de março, 21h30
The Fourth Dimension (2001), de Trinh T. Minh-ha

Sex 27 de março, 18h30
Sequências 9 e 10 (2007/14), de Sérgio Taborda

Sex 27 de março, 21h30
In Titan's Goblet (1991), de Peter Hutton; 
Landscape for Manon
 (1988), de Peter Hutton; 
Lodz Symphony
 (1993), de Peter Hutton;
A & B in Ontario (1966/84), de Hollis Frampton e Joyce Wieland; 
Fog line
 (1970), de Larry Gottheim

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A entrevista que, com a Mariana Castro, fiz a PHILIPPE GARREL.

http://www.apaladewalsh.com/2015/02/24/philippe-garrel-a-razao-profunda-da-vida-e-o-amor/
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''e eu, que em tantos anos não consegui inventar um
resquício metafísico,
ponho todo o empenho no trânsito das minhas cinzas:
oh retretes terrestres com destino final nas grandes águas
marítimas:
glória atlântica,
índica megalomania das tripas!"

HERBERTO HELDER
(A Morte Sem Mestre)






Pieter Claesz, Vanitas Still Life with Oil Lamp and Writing Utensils (1628)

Paul Delvaux , Conversation, (1944)
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Fort Apache, John Ford, 1948
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JLG/JLG Auto-portrait de Décembre (1994)

La Chinoise

par Louis SKORECKI

Godard. J'ai longtemps eu du mal à l'aimer, à m'identifier à lui, à me mesurer à lui. Pourquoi se mesurer à un cinéaste ? Pourquoi s'identifier à lui ? Vous ne comprenez pas ? Cessez de lire. Je vous demande de vous arrêter. A une quinzaine d'années près, je suis de la génération Godard. Une petite génération nous sépare, une génération de nains, si vous voulez. Vous voyez, vous n'y comprenez rien. Pour un Skorecki, un July, un Daney, s'exposer au feu sacré du cinéma allait de soi. Cinéphiliser sa vie, écrire des films, en vrai ou en pointillés, ça allait de soi. Se mesurer à Ford, à Welles, ça allait de soi. Se mesurer à Godard, surtout. Godard est un nom de code. Il permet d'entrer. Entrer où, c'est une autre histoire. Faut-il absolument savoir où on veut entrer pour vouloir y entrer ? Faut-il connaître le nom du pays pour vouloir s'y rendre les yeux fermés ? Qui délivre le visa aux nains que nous sommes ? Connaître le code, on verra après.

La Chinoise est un trou de serrure. Peu de gens ont la clé, mais beaucoup ont voulu l'y glisser, même quand elle n'ouvrait rien. Les fausses clés, vous connaissez ? Tant d'apprentis cinéastes, d'apprentis spectateurs (c'est pareil) ont voulu visiter ce pays poétique, politique, militant. Ils en ont rêvé si fort qu'ils n'en sont pas revenus. Peut-on ne pas revenir d'un pays où on n'est jamais allé ? Peut-on ne pas revenir du pays du cinéma ? Ce qui fait la géographie de ce pays (réel ou imaginaire, c'est pareil), c'est bien qu'on n'en revienne jamais. Je ne suis pas revenu du pays Godard, ce pays de cocagne irritant et râpeux, tellement généreux qu'on s'y perd à tous les coups. Se perdre au cinéma, c'est la définition du cinéma. Se perdre chez Godard, c'est indispensable. Se pendre aux lèvres de la jeune Anne Wiazemsky, se perdre à celles de la jeune Juliet Berto. Elles sont jeunes à vie. Ne pas oublier d'avoir froid. Avoir froid, c'est aimer Godard, non ?

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Mulheres e Revolução
Maria Velho da Costa

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-lo para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençois com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrançam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vão à estação chorosas. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

Coisas que elas dizem:
— Se mexes aí, corto-ta.
— Isso não são coisas de menina.
— O meu homem não quer.
— Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.
— A mulher quer-se é em casa.
— Isto já vai do destino de cada um.
— Deus não quis.
— Mas o senhor padre disse-me que assim não.
— Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.
— Você sabe que eu não sou dessas.
— Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.
— Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.
— Comprei uns jeans bestiais, pá.
— Sempre dá para uma televisão daquelas novas.
— Cada um no seu lugar.
— Julgas que ele depois casa contigo?
— Sempre há-de haver pobres e ricos.
— Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.
— Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.
— Sempre é homem.

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elam limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram faltar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro urna cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

in Cravo (1976).



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It was and still is very important to set the camera free in the extreme: to place the automatic camera in footballs launched in rockets, on the back of a galloping horse, on buoys during a storm; to crouch with it in the cellar, to take it up to the ceiling heights. It doesn’t matter that these virtuoso positions may seem excessive the first ten times; the eleventh time we understand how necessary and yet insufficient they are. Thanks to them, and even before the revelations of three-dimensional cinematography to come, we experience the new sensation of exactly what hills, trees and faces are in space.” (Epstein in Abel, 1988: 64)

Napoleon, Abel Gance, 1927


  
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(...)Se Anne Bancroft descende dessas mulheres de Ford (que ao contrário do que se costuma dizer, sempre as dirigiu de forma notável, “como Heifetz a tocar um ‘stradivarius’“, afirmava com toda a razão Budd Boetticher) descende também, e não estou a querer ser paradoxal, do mais mítico dos seus heróis: John Wayne. Como John Wayne vem do escuro carregando um passado, como Wayne se impõe fisicamente (neste caso a feminilidade em vez da masculinidade), como Wayne assume-se em tensão física e em coragem moral até às últimas consequências e até às últimas sequências. E é então - e não deixo de me pasmar de cada vez que vejo isso - que Bancroft “muda de sexo”; ou seja se veste pela primeira vez de mulher (depois do plano genial em que se vê ao espelho), nas vestes orientais. Tão bela e tão paramentada como a princesa chinesa que antes entrevíramos (num plano igualmente fabuloso cuja necessidade só então percebemos), oferece-se a Tunga Khan com a dignidade e grandeza de Yang-Kwei-Fei, a imperatriz de Mizoguchi. Prepara as chávenas com o veneno e, muito lentamente, em ritual de doação, mas com um sorriso vagamente meigo e vagamente cúmplice, dá a bebida a Mazurki: “So long, you bastard”. Sem um corte, a câmara tão imóvel como ela, espera que o chinês morra (cai, desaparecendo do plano) e depois, com a mesma lentidão, bebe o mesmo veneno e atira fora a chávena. A câmara recua num movimento rápido e tudo escurece para que a queda daquele corpo fique invisível. Como Wayne na Desaparecida, sozinha veio de longe, sozinha se afasta para longe.
(...)
Mas há acima de tudo Anne Bancroft. Como Sue Lyon diz no fim: “I never forget her whenever I live”. “O mais belo personagem de Ford no mais belo dos filmes”.
Como naquele belíssimo poema de Irene Lisboa, de Ford “a ansiedade já esgotada / tornou (lhe) o peito um lago / ou um campo aberto, fundamente cavo / Que venham novas lágrimas após tantos dias rancorosos / E com elas... / mais nada, mais nada, mais nada”.

JOÃO BÉNARD DA COSTA sobre SEVEN WOMEN, John Ford, 1966






 How the West Was Won, John Ford, 1962

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É também a espessura da história do cinema o que cai sobre nós a cada minuto que passamos defronte de The Clock (a que assisti somente entre as horas 16h-18h20). Se a jovem arte tem pouco mais de cem anos de idade, à compreensão cinéfila cada vez mais resta a impressão de conjunto - e, do peso de encaminhar cada escolha, resulta um espectador que inevitavelmente se sentirá cada vez mais consciente das suas responsabilidades. Nenhuma outra peça evocou tão manifestamente esta inversão do sentido de espectáculo do cinema : subverte-se a leveza de um princípio de entretenimento através do filme quando assim se demonstra como este encontro depende e despende do mais precioso e escasso dos bens - o tempo (ou, mais importante ainda, o tempo livre).
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Sabrina D. Marques © 2005-2015. Com tecnologia do Blogger.

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