Toda a memória do Mundo, parte I

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Daniel Blaufuks

Toda a memória do mundo, PARTE I. 
A nova exposição de Daniel Blaufuks foi uma das mais interessantes que vi nos últimos tempos. Trata sobre o ''quando não fotografar'', mas manter o olhar crítico perante a justaposição dos documentos pré-existentes, numa tentativa de arredar o olhar do sobrediscurso que a digestão histórica já viciou. Como voltar a ver o já visto? O que fazer com a  memória colectiva?  
À entrada, por primeira imagem, umas luvas brancas. Handle with care ? Serão luvas que protegem as mãos para evitar o toque no lixo ou serão as luvas do assassino que não manchará da culpa do sangue as suas mãos? 
A barbárie partiu da civilizadíssima República de Weimar, berço das mais humanistas filosofias, mas o carácter da espécie humana nunca foi tão invertido - a história do que seguirá é a mais assustadora das desfigurações morais que a civilização relembra ainda. Afinal, a matéria com que o século XX construiu o século XXI. Como se uma profusão resultante de uma pesquisa no Google Images, Blaufuks afila séries  enquadradas e sem um pingo de causalidade, intersecciona literalmente cada imagem sobre a outra. Resta-nos fazer sentido daquelas montagens, guiados pela impressionante minúcia da pesquisa do fotógrafo que se destaca exactamente por escolher não fotografar. E aguardar tudo o que a investigação de Blaufuks nos reserva ainda.



"(...) a obscuridade não diminui, antes se adensa quando penso o pouco que conseguimos segurar porque todas as coisas estão constantemente a cair no esquecimento a cada vida que se extingue (...)'' W. G. SEBALD, Austerlitz

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