quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

(um pequeno abismo)



- A aparência ou sensação de integridade é inata ao corpo até ao momento que a integridade fraqueja e o corpo toma súbita e dolorosa consciência de si, certificando-se de que a sua existência significa mutação. Se à superfície do corpo, pele adentro, a modificação é instantânea, o espírito demora a modificar-se, demora a aceitar existir em função do novo corpo, do corpo modificado - a nova consciência que surge não só é uma necessidade como uma inevitabilidade. Da relação intrínseca entre corpo e erro (máquina com defeito, falhará sem dúvida), é mais fácil aceitar o erro interno do que o externo e o erro demorado do que o erro súbito. Ainda assim, um pequeno abismo a cada solavanco da maquinaria, afinal sempre mais imperfeita do que a lucidez poderia tolerar. O corpo existe contra o espírito mas só o espírito o salvará.

- Acho que estás deprimida. Podes acreditar em mim, sei tudo sobre isso (só não salvo).

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