Brisseau sobre Ford

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A coisa que mais me toca no cinema de Ford, algo que desapareceu completamente no cinema, é o fato dos personagens serem confrontados com a decepção e o fracasso, serem obrigados a digerir uma humilhação - diríamos agora uma feriada narcísica - e continuarem a viver assim mesmo, sem chorar como pirralhos. Tenho o sentimento de que no cinema atual os personagens obedecem unicamente à lei dos sonhos. É inimaginável hoje conceber um filme como Fomos os Sacrificados (They Were Expendable, 1945). Os personagens de Ford agüentam, continuam mantendo uma certa grandeza.

Outra coisa que também muito me agrada em seu cinema é a capacidade imediata de dar vida a toda uma série de personagens secundários, sempre simples, fortes e que são reconhecidos automaticamente. Quando eu vejo os filmes, tudo parece evidente, mas ao escrever roteiros, noto como é difícil fazer um personagem secundário adquirir clareza e grandeza, simplicidade do trato na multiplicidade das figuras. Para mim é o produto de um enorme trabalho. É preciso um talento enorme para chegar a isso. A força de Ford é a de dar uma espessura humana a personagens que são imediatamente tipificados sem cair no clichê. É muito difícil. É um problema de personagens e não de atores.

(...) Todos os filmes americanos de aventura e de ação celebram o culto do individualismo e, no cinema de Ford, é curioso observar as correções muito importantes que o cineasta trouxe a essa ideologia. Para ele, o homem é pequeno, seja ele forte ou fraco, ridículo se comparado à criação, à grandeza do universo. É o seu lado pascaliano. De um posto de vista moral, seus personagens e ele mesmo assumem essa ignorância fundamental diante do universo, aceitam a idéia de viver na névoa. É muito raro no cinema, porque isso implica uma modéstia dos personagens e uma profunda modéstia do cineasta diante da criação que se observa de qualquer outro lugar.

(Adaptado de uma entrevista publicada em John Ford, Patrice Rollet e Nicolas Saada [orgs.], Éditions de l’Étoile/Cahiers du Cinéma, 1990. Extraído do catálogo da Mostra John Ford, CCBB, 2010) 

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