quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

"and we are put on Earth a little space

That we may learn to bear the beams of love."
(William Blake)


O Retrato de Jennie (William Dieterle, 1948) 


Deste filme, ficam as sombras aceleradas dos relógios : duas, três, quatro décadas volvidas sobre o meu tempo e eis que a minha alma gémea já se foi do mundo antes sequer que eu nascesse. 

Que justiça fazer da suprema crueldade desses ponteiros que sobre a vida precisam escalas como lancinantes réguas de impossibilidade? Como destinar assim o amor, o rosto de Jennie, a viver onde o não posso chegar a conhecer? Se pertencemos um ao outro não pertencemos ao tempo - então nós quando? Se somos de uma dimensão que inventámos longe, um mundo a dois em que existimos sós - então nós onde? 

A verdade desta intersecção registou-se na matéria do mundo. Ficou o vestígio, ficou a prova : um retrato de Jennie largado num museu para sempre. Crê quem quiser crer.



Mas se algum dia você não vier depois do café da manhã, se algum dia avistar você em algum espelho, talvez procurando por outro homem, se o telefone toca e toca em seu quarto vazio, então, depois de indizível agonia, então – pois não tem fim a loucura do coração humano – procurarei outro, encontrarei outro você. Nesse meio tempo, vamos abolir com um sopro o tiquetaque dos relógios. Chega mais perto de mim. (The Waves , Virginia Woolf, p. 135)






François Villon, descreve uma Jeanne no ano da sua morte na Ballade des Dames du temps jadis Balada das damas do tempo passado -
Et Jeanne, la bonne Lorraine
Qu'Anglais brûlèrent à Rouen;
Où sont-ils, où, Vierge souvraine?
Mais où sont les neiges d'antan?





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