segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Lacrima corpus dissolvens


Contes Immoraux - Walerian Borowczyk (1974)


Lacrima corpus dissolvens

às vezes apresenta-se
um animal

coberto de penugem e pó
quer morar comigo
deixa o ar
frio
enche o ar
de um leve fumo cinzento
enquanto passa
leva uma mala com obscenos objectos do passado e exibe-os sem vergonha, cruel
eu desmancho palavras sobre ele como se cantasse uma canção antiga

mas esse animal
(que não é mesmo animal mas criatura estranha,
corpo feito de escuridão e lágrimas)

torna-se milhares de gotas microscópicas que eu respiro
como se fosse vírus
e enche meu peito de um espaço vazio e amargo
eu tento deitá-lo pela boca fora, cuspi-lo,
mas só sai pelos olhos quando já é salgado

acontece assim,
às vezes.


Celeste Wladyka

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