quinta-feira, 24 de outubro de 2013

de Frankenstein

Espírito da Colmeia, Victor Erice, 1973


paixão, morte e 1.ª aparição de frankenstein
ALBERTO PIMENTA

como se sabe: frankenstein foi preso por denúncia,
já perto da fronteira leste, coisa de meia ho
ra a pé, apenas. foi revistado, farejado pelos cães,
algemado e depois transportado e apresentado à na
ção no decurso do telejornal. acusado de semear o
terror, frankenstein foi condenado por toda a nação,
embora não tenha chegado a ser condenado por um
tribunal regular. enquanto o julgamento era prepa
rado, frankenstein foi metido numa daquelas celas
hermeticamente isoladas, todas pintadas de branco
e perpetuamente mergulhada no silêncio e numa tez
artificial; celas donde um tipo como eu ou tu só
sai com os pés para a frente, ou então de pé, mas
nesse caso com a cabeça mole como fruta do chão.
frankenstein no entanto era um tipo mais forte que
eu ou tu. frankenstein aguentou dois anos de pri
são preventiva, sem um canário sequer que lhe fi
zesse companhia, pois as leis desta nação só permi
tem aos presos a companhia de um canário depois de
dois anos de bom comportamento. acerca do compor
tamento de frankenstein nada sei. a nação e o seu
jornal sabem tudo acerca do comportamento de fran
kenstein. e sabem também como frankenstein morreu.
eu não sei como frankenstein morreu. mas a nação
e o seu jornal (a « sua imagem ») sabem como frankenstein morreu.
corre agora o boato que o colapso do antigo
chefe da polícia foi causado pela aparição de fran
kenstein. mas quem garante que assim tenha sido?
bom, um tipo como frankenstein talvez. mas um tipo
como eu e tu que chances tem de aparecer depois
de morto? não, um tipo como eu e tu não sei que
chances tem depois de morto, para dizer a verdade, nesta nação
nem sei que chances tem depois de vivo, um tipo
como eu e tu, de resto era isso que frankenstein
não se cansava de dizer, todo o tempo, todo o tempo.

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