sábado, 30 de março de 2013

Sonhos de ir

Enchanted Island, Dwan, 1954



Sea Devils, Walsh, 1953

Band of Angels, Walsh, 1957

terça-feira, 26 de março de 2013

A textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se.




Dreams, Kurosawa, 1990

"Nunca uma situação se desenhou assim para o povo português: não ter futuro, não ter perspetivas de vida social, cultural, económica, e não ter passado porque nem as competências nem a experiência adquiridas contam já para construir uma vida. Se perdemos o tempo da formação e o da esperança foi porque fomos desapossados do nosso presente. Temos apenas, em nós e diante de nós, um buraco negro.

O «empobrecimento» significa não ter aonde construir um fio de vida, porque se nos tirou o solo do presente que sustenta a existência. O passado de nada serve e o futuro entupiu.
O poder destrói o presente individual e coletivo de duas maneiras: sobrecarregando o sujeito de trabalho, de tarefas inadiáveis, preenchendo totalmente o tempo diário com obrigações laborais; ou retirando-lhe todo o trabalho, a capacidade de iniciativa, a possibilidade de investir, empreender, criar. Esmagando-o com horários de trabalho sobre-humanos ou reduzindo a zero o seu trabalho.
O Governo utiliza as duas maneiras com a sua política de austeridade obsessiva: por exemplo, mata os professores com horas suplementares, imperativos burocráticos excessivos e incessantes: stresse, depressões, patologias borderline enchem os gabinetes dos psiquiatras que os acolhem. É o massacre dos professores. Em exemplo contrário, com os aumentos de impostos, do desemprego, das falências, a política do Governo rouba o presente de trabalho (e de vida) aos portugueses (sobretudo jovens).
O presente não é uma dimensão abstrata do tempo, mas o que permite a consistência do movimento no fluir da vida. O que permite o encontro e a intensificação das forças vivas do passado e do futuro - para que possam irradiar no presente em múltiplas direções. Tiraram-nos os meios desse encontro, desapossaram-nos do que torna possível a afirmação da nossa presença no presente do espaço público.
Atualmente, as pessoas escondem-se, exilam-se, desaparecem enquanto seres sociais. O empobrecimento sistemático da sociedade está a produzir uma estranha atomização da população: não é já o «cada um por si», porque nada existe no horizonte do «por si». A sociabilidade esboroa-se aceleradamente, as famílias dispersam-se, fecham-se em si, e para o português o «outro» deixou de povoar os seus sonhos - porque a textura de que são feitos os sonhos está a esfarrapar-se. Não há tempo (real e mental) para o convivio. A solidariedade efetiva não chega para retecer o laço social perdido. O Governo não só está a desmantelar o Estado social, como está a destruir a sociedade civil.
Um fenómeno, propriamente terrível, está a formar-se: enquanto o buraco negro do presente engole vidas e se quebram os laços que nos ligam às coisas e aos seres, estes continuam lá, os prédios, os carros, as instituições, a sociedade. Apenas as correntes de vida que a eles nos uniam se romperam. Não pertenço já a esse mundo que permanece, mas sem uma parte de mim. O português foi expulso do seu próprio espaço continuando, paradoxalmente, a ocupá-lo. Como um zombie: deixei de ter substância, vida, estou no limite das minhas forças - em vias de me transformar num ser espetral. Sou dois: o que cumpre as ordens automaticamente e o que busca ainda uma réstia de vida para os seus, para os filhos, para si.
Sem presente, os portugueses estão a tornar-se os fantasmas de si mesmos, à procura de reaver a pura vida biológica ameaçada, de que se ausentou toda a dimensão espiritual. É a maior humilhação, a fantomatização em massa do povo português. Este Governo transforma-nos em espantalhos, humilha-nos, paralisa-nos, desapropria-nos do nosso poder de ação. É este que devemos, antes de tudo, recuperar, se queremos conquistar a nossa potência própria e o nosso país."

José Gil, in revista Visão.

sábado, 16 de março de 2013

Sessão dupla em agenda

Na Cinemateca : Quinta Feira, 28 Março


sexta-feira, 15 de março de 2013

caught



"O John Wayne morreu apenas há seis meses e a América já está neste estado."
in Argo, Ben Affleck, 2012

Encontros Cinematográficos

O Tabu de Miguel Gomes



Parece que é tabu não gostar de Tabu de Miguel Gomes. Prova é que esta carta de leitor do Mário se dirigiu a todos os jornais portugueses e, condenada ao silêncio, nem uma palavra ou justificação recebeu por resposta.
Porque abomino juízos de gosto vinculativos e opiniões instantâneas a dominar sem dissonância todos os canais, e porque não vi um dedo a levantar o que quer que seja a este fatigante Tabu, pedestal barroco de anacronia e esteticismo erigido nos pilares em que já se previa contemplado, foi entre um e outro texto dos que se lêem que mais francamente me revi.


" O Realizador-EUcalipto


por Mário Fernandes



O Tabu de Miguel Gomes lembra-me a história do caçador e do fotógrafo que vão de férias para África. O caçador bang bang, o fotógrafo tchi tchi. No final comparam os resultados. O caçador tem vários animais e o fotógrafo várias fotografias. O fotógrafo mostra as fotografias ao caçador e este diz: “Está muito bonito, sim senhor, mas onde é que está a caça?” Assim é o Tabu de Miguel Gomes, idealismo beato de velha escola associado ao fetichismo pela sacrossanta película a preto e branco. É, pois, um filme sem realidade, sem teatralidade para salvar o artificialismo da plastificação e sem memória (basta ver como todo o flash-back é muito mais trampa pós-moderna e contemporânea do que outra coisa), já para não falar do som e do falso-mudo, que é uma caldeirada de dispositivos em que nada é orgânico nem verdadeiramente dissonante. Em suma, trata-se de um vazio de parvo serôdio (a lembrar outros tempos) muito bem envernizado pelo bonitinho chapa 5 da fotografia e da voz off, e por uma propaganda agressiva da comunicação social e dos festivais a favor do exibicionismo comercial do filme - do Minho até Timor (“tudo pelo cinema português, nada contra o cinema português”).  De resto, a Grande Obra até chegou ao agrado do Presidente da República. Cá para mim, quando um filme português lisonjeia o Cavaco- “tem imagens muito belas”- só pode estar próximo de ser uma valente m...
É dado certo que ninguém leu (muito menos o Cavaco!) os artigos dos anos 70 de Manny Farber e Andrew Sarris, premonitórios do cinema “chico-esperto” contemporâneo. O primeiro falava no “kitsch without kitchen”, o segundo dos filmes “arty and funny”.
Quando se quer dizer de uma forma educada que um filme não presta, dizemos que tem uma boa fotografia. É o caso de Tabu (perdoai-lhe, Murnau, ele até sabe o que faz), o maior preservativo estético que vi (não vá o realizador contaminar-se!). Lembra-me essas almôndegas de aparência apetitosa só para esconder as várias e retardadas carnes de cavalo, borrego, porco, frango, etc..
Os críticos gostam de almôndegas. O Miguel Gomes cofia o bigode, qual pistoleiro mexicano do Emilio Fernández!, sorri para a câmara e agradece mais um prémio.




Mário Fernandes"



"Il y a deux semaines environ, l'un de mes correspondants dont je ne retrouve pas la trace, me demandait aimablement ce que je pensais du film "Tabou" de Miguel Gomes, sorti ces temps-ci à Paris et en France. Je lui répondais que je n'avais pas encore vu ce fim, annoncé déjà par la grande critique de cinéma comme un chef-d'oeuvre. Je réponds donc aujourd'hui à cette question. J'ai vu "Tabou". Je ne... l'ai pas aimé du tout. Pire : je l'ai traité de "bidon". Tout est faux dans "Tabou", non pas tant la vérité historique dont le film se fiche éperdument (désigner le crime passionnel d'une héroïne de BD comme relié à l'insurrection d'un Front de libération luttant contre la colonisation portugaise est simplement grotesque) que le geste cinématographique lui-même. C'est épater le bourgeois que de tourner dans un Noir et Blanc délavé pour décaler l'oeuvre des normes du marché. Mon Dieu, que Gomes aille voir "Film, socialisme" de Jean-Luc Godard! Mais à part ça, le parti pris narratif qui veut que l'essentiel du récit fictionnel soit l'affaire d'une voix narratrice, alors que les images n'ont plus dès lors qu'un rôle "illustratif", c'est-à-dire nul, ce parti-pris cautionne l'évitement systématique par le cinéaste de toute scène devant rendre des comptes au réel du tournage. Nous sommes toujours dans une narration qui repousse l'ici-et-maintenant de tout enregistrement cinématographique dans une zone à la fois passée et floue. Cette mise à distance plaît au spectateur dans la mesure où elle lui évite tout simplement de s'impliquer dans la scène dont il devient tout simplement, tout tristement, un spectateur et non un "acteur" imaginaire. J'arrête là. La fausse-monnaie passe toujours pour vraie."
 Jean-Louis Comolli


segunda-feira, 11 de março de 2013

Geração, Regeneração

I was born, but... 1932, Ozu



Regeneration, Raoul Walsh, 1915

Haverá sempre uma porta.

O título é Selva de Asfalto. E não sei se é pela aspereza dos violinos que chiam, se pelo carregado desses cinzentos envoltos em nevoeiro, se pela aridez abandonada da cidade deserta, mas este asfalto corta. Respira-se com sufoco aqui, debaixo dos ribombos da música dramática e da voz metálica que descreve os traços do homem procurado. O asfalto cresce enquanto se apequena a figura que foge. E quando parece que não há mais por onde se esconder, ao alcance do passo rápido, o fôlego de uma porta por abrir. Afinal, há sempre uma porta por abrir.

The Asphalt Jungle, John Huston, 1950

sexta-feira, 8 de março de 2013

STEREODOX - Entre linhas tão finitas.

 Kazuo Kitai, 'Barricade' (1968) 

quinta-feira, 7 de março de 2013

ciclo de ser



"Empédocles fala do esgotante atropelo das imagens e do saber no espírito humano. A sua pressão é poliforma : "Porque já fui um dia rapaz e rapariga, e árvore / e ave, e peixe mudo nas ondas salgadas."
George Steiner
in A Poesia do Pensamento

ordem

Written on the Wind, Douglas Sirk, 1956

"O homem é aquilo que se esforça por atingir. O amor é a mediação entre o que ama e aquilo que ama; o que ama nunca está isolado daquilo que ama, isso pertence-lhe. O desejo daquilo que na ordem do mundo é mundano, pertence ao mundo."
Hannah Arendt, in O Conceito de Amor em Santo Agostinho

efémero


 George Steiner
in "O belo e a consolação"

Sofia de Mello Breyner Andresen
por João César Monteiro, 1969


terça-feira, 5 de março de 2013

Change.

 La Commune (Paris 1871), Peter Watkins 2000


2 de Março 2013

domingo, 3 de março de 2013

Reunir

The Iron Mask, Allan Dwan, 1929

 The Unchanging Sea, D. W. Griffith, 1910