sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Passo tempos, passo silêncios,

mundos sem forma passam por mim.
(...)
Não são as paredes reles do meu quarto vulgar, nem as secretárias velhas do escritório alheio, nem a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual, tantas vezes por mim percorridas que já me parecem ter usurpado a fixidez da irreparabilidade, que formam no meu espírito a náusea, que nele é frequente, da quotidianidade enxovalhante da vida. São as pessoas que habitualmente nos cercam, são as almas que desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.
O Livro do Desassossego


Rei das Rosas, W. Schroeter, 1986

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