domingo, 30 de dezembro de 2012

the continental mind.


The AwfuI Truth, Leo McCarey (1937)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Dossier Juntos Lutamos

novos capítulos no site À Pala de Walsh

Capítulo 3 : Contra a Guerra
Capítulo 4 : América Negra
Capítulo 5 : América a Arder

http://apaladewalsh.com/2012/12/23/juntoslutamos-divididos-caimos-cap-3-cap-4-cap-5/

domingo, 23 de dezembro de 2012

ROHMER: Sobre a organização do espaço em Fausto, de Murnau.



Os três espaços

O termo de espaço, no cinema, pode designar três noções diferentes:

1) O espaço pictórico. A imagem cinematográfica, projetada sobre o retângulo da tela - tão fugitiva ou móvel que seja -, é percebida e apreciada como a representação mais ou menos fiel, mais ou menos bela de tal parte do mundo exterior.

2) O espaço arquitetônico. Essas partes do mundo, naturais ou fabricadas, tais que a projeção sobre uma tela as representa, com maior ou menor fidelidade, são providas de uma existência objetiva, podendo, ela também, ser, em tanto que tal, o objeto de um julgamento estético. É com essa realidade que o cineasta se mede no momento da filmagem, que a restitui ou a trai.

3) O espaço fílmico. Na verdade, não é do espaço filmado que o espectador tem a ilusão, mas de um espaço virtual reconstituído no seu espírito, com o auxílio dos elementos fragmentários que o filme lhe fornece.

Esses três espaços correspondem a três modos de percepção pelo espectador da matéria fílmica. Eles resultam também de três abordagens, geralmente distintas, do pensamento do cineasta e de três etapas do seu trabalho, onde ele utiliza, a cada vez, técnicas diferentes. A da fotografia no primeiro caso, a da cenografia no segundo, da mise en scène propriamente dita e da montagem no terceiro. Para cada uma dessas três operações ele se beneficia de colaboradores especializados, os quais é de sua responsabilidade acordar as sensibilidades, a fim de que sua obra forme um todo coerente. Inútil sublinhar que a um contingente enorme de filmes falta essa unidade e que, por exemplo, as ambições da fotografia traem o espírito no qual foi construída a cenografia, uma vez que simplesmente não adensam o esforço de edificação da mise en scène.

Eric Rohmer, L'organisation de l'espace dans le Faust de MurnauUGE, 1977

sábado, 22 de dezembro de 2012

Luta colectiva.

Há quanto tempo foi a última revolução ?




Glauber Rocha em As Armas e o Povo (1975)
Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica


(integravam o colectivo :  José Fonseca e Costa, José de Sá Caetano, Eduardo Geada, António Escudeiro, Fernando Lopes, António de Macedo, Glauber Rocha, Alberto Seixas Santos, Artur Semedo, Fernando Matos Silva, João Matos Silva, Manuel Costa e Silva, Luís Galvão Teles, António da Cunha Teles, António Pedro Vasconcelos, Ricardo Costa )


JLG par JLG 
auto-retrato de Dezembro 1994

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Anarchism in America
Steven Fischler, Joel Sucher, 1983


Defesa de Duras

e lá voltamos nós para plantar as faltas: 
desejamos chegar à vida adiante
rapidamente sentir o não sentido
 abrir ao escuro esse grande coração secreto
 que teme definhar em peito jovem 
a solidão é a primeira morada (dos pensamentos)
o cinema acontece na cabeça
finge sempre o outro
que melhor couber a 
esse par de braços estendidos
n'importe qui. 

''Muito cedo na minha vida era tarde demais''
O AMANTE



AGATHA ET LES LECTURES ILLIMITÉES

escada acima escada abaixo
 Duras fez vida de ir
 da sua pequena avenida até aos céus
a sua idade foi sempre 
das décadas quietas 
da mesma juventude revisitada
essa água donde mil vezes 
fez nascer o seu grande amor ausente
 que à partida lhe deixou 
uma alma por resolver  
cada dia costura a memória pela escrita e
o breve encontro de uma adolescência dura uma vida
DURAS
quinze anos e meio 
apenas e para sempre 
porque os desejos da juventude são infinitos
o
primeiro toque 
eternamente impresso 
na 
: primeira brancura 
de um corpo 
afaga      a     mortalidade          a       cada        hora  

tudo cai 


tudo muda 
mas
(em segredo)
 um peito resiste:

"Uma pessoa nunca deve curar-se da sua paixão."
O AMANTE

''Nada os atingirá.''
AGATHA

''Porquê negar evidentemente a necessidade da memória?"

HIROSHIMA MEU AMOR

já não era ele
o grande viajante de S.Thala
o príncipe do Ganges
o barqueiro do Mekong
o elegante diplomata bengalês
o desejável desconhecido das Indochinas
o estranho da praia
o belo chinês que lhe iniciou o corpo ao fim da tarde
(num quarto quente em Laos)

todos variações do mesmo nome
                          o nome desse primeiro homem
                    reinando sobre todos 
 (O seu nome de Veneza numa Calcutá deserta) 

um duplo ataque do Tempo: 
sobre eles 
o peso de não terem chegado antes  
sobre ela
 a busca vã pela vida já vivida:
«Embarquei com ele, feliz de ser como todas as outras. (...) Tudo foi pensado depois, no barco de volta a França: amei-o sem dúvida. (...) Era muito muito forte. Era para toda a vida.»

''Dás-me um grande desejo de amar.''
HIROSHIMA MEU AMOR

 Moderato Cantabile, Peter Brook, 1960

''enquanto nada acontecer entre eles, a memória está amaldiçoada com o que não aconteceu.''
OLHOS AZUIS, CABELO PRETO

das tuas mãos incessantes
uma caneta e um copo
viajas de pernas torcidas nos cafés e 
ignoras o jornal dia após dia
contra o rodopio do mundo vivo
a tua missão é sempre 
a de ir inventando a memória 
: a guerra acabou
: esse país já não existe
: tu voltaste da colónia 
ele onde está?  
(- por ti, meu amor, estou às mãos de ser
tu escreves 
Marguerite
tu escreves
(para sempre
destinada a chamar ''meu amor'' a 
uma página em branco)

foste tu quem 
em India Song - Son Nom de Venise 
nos explicou como 
os nomes próprios 
são 
fôlegos muito secretos 
em espera
são 
feitiços que a língua vicia 
(entre sussurros e suspiros 
e para dentro de si) 
guardamos os outros pelo nome: 
numa palavra, um sopro
numa velocidade, um coração

a memória faz-se numa esperança de amanhã 

a sala escura sonha a voragem em uníssono 
desenfreadamente se viveu 
até àquela hora de 
querer morrer entre 
os lençóis que acabam o mundo:
foi ali que o caminho para o fim se interrompeu 
S.Thalamorada dos Eternos.



India Song (Marguerite Duras, 1975) 

o romance é um trabalho do espírito  
aquece o mais banal
 replica-se 
o erotismo é intelecto 
projectado sobre 
: um corpo
: um rosto
: um detalhe 
como uma tela branca pronta a abrir-se à vida do sonho 
a paixão é um enredo 
em que se entra com vontade de vestir  
as faltas gritam
os limites gritam 
a narrativa quer ser completa pelos pormenores 
os olhos desejam afundar-se, 
desejam curar-se de um mundo 
afogando-se noutro
tudo é vontade de ver e 
o projecto avança 
com a minúcia do imaginar 

o teu trabalho
Marguerite
é literal 
: escrever romances
doas páginas 
donde se extraem lembranças 
de mundos primeiramente teus
dás sentidos universais aos 
corpos interrompidos
(essas faltas) donde o erotismo nasce 
e depois 
as pessoas que tão bem escreves 
são peles que largas 
para a leitura vestir 
e aí 
tudo muda 
acredita-se

Il dialogo di Roma (Marguerite Duras, 1983) 

mas

o idealismo é 

o primeiro mandamento 

do espírito aberto 

: é mais fácil 

detalhar na nostalgia 

das horas cada vez mais longínquas

a paixão não é afinal 

a fome de deuses na terra? 

o desejo é um treino da imaginação: 

todos os corpos implicados 

têm o mesmo protagonismo

tudo é e não é comum 

nestas danças de encontros e fugas 

(indivíduos serão individuais)

- cada qual 

irá plantar em si as expectativas  

-cada qual 

há-de abrir os dedos

largar as roupas e 

fingir  

fingir fé

e um dia

peut-être

este amor será verdadeiro

 e um dia 

afastados entre si os corpos

este amor será perfeito

foi isto 

que Duras nos ensinou

lembrando como 

o desejo vive da ausência 

e como 

o tempo é da dedicatória 

até ao ideal que

melhor servir 

a função de contar a história 

(e toda a história é distância)

no fim

todos os actores das circunstâncias 

perceberão como a ficção constrói o real  

como o real é 

o que acontece dentro da cabeça  

e

em boa memória há

horas perfeitas como filmes 


La Femme Du Gange, Marguerite Duras, 1974

todos os Verões sonhamos os Verões de Marguerite: 
os mesmos quartos de praia 
tão vazios de amor como 
os corpos ansiosos de mulheres tão jovens 
que só toleram a perfeição por chegar 
de olhos e ouvidos postos no mar
a palavra certa 
subitamente por ouvir
as mesmas ondas de Virginia
os batimentos da possibilidade: 
Agatha et Les Lectures Illimitées é sobre
amar profundamente sem saber a quem

«Recolher as flores para quando Alguém chegar» 
: animar as horas com visões pagãs 
: dedicar corpo fiel a alguém sem rosto  
(é uma imaginação admirável 
o romance é 
é uma das mais extraordinárias formas de viver
com ambição de infinito 




(NEVERS. NEVERS EN FRANCE.) 






HIROSHIMA, MON AMOUR
sabe quem se dá um espelho:
os problemas dos espíritos 
cruzam os mesmos caminhos  
o pensamento vicia círculos 
para voltar às fundações
(para o pensar e para o sentir
nunca se parte de mãos vazias)
e é porque 
os mesmos temas lugares e sujeitos 
ressurgem no mundo de Duras que 
é comum ouvir-se que 
é uma cineasta repetitiva ou 
uma escritora medíocre 
! injustiças 
quando 
foi ela que nos deu a ver
crua e lancinante
quão irremediável é 
a incompletude do corpo 
quão real é 
a solidão que se anima pelas
pequenas afeições 
fechadas nos livros e nos filmes 

por enquanto
deixou-nos com
um último fundo de fé:
um futuro por que se espera é 
(uma salvação que não chegou ainda)  

As Mãos Negativas, Marguerite Duras (1979)