novos capítulos no site À Pala de Walsh

Capítulo 3 : Contra a Guerra
Capítulo 4 : América Negra
Capítulo 5 : América a Arder

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Os três espaços

O termo de espaço, no cinema, pode designar três noções diferentes:

1) O espaço pictórico. A imagem cinematográfica, projetada sobre o retângulo da tela - tão fugitiva ou móvel que seja -, é percebida e apreciada como a representação mais ou menos fiel, mais ou menos bela de tal parte do mundo exterior.

2) O espaço arquitetônico. Essas partes do mundo, naturais ou fabricadas, tais que a projeção sobre uma tela as representa, com maior ou menor fidelidade, são providas de uma existência objetiva, podendo, ela também, ser, em tanto que tal, o objeto de um julgamento estético. É com essa realidade que o cineasta se mede no momento da filmagem, que a restitui ou a trai.

3) O espaço fílmico. Na verdade, não é do espaço filmado que o espectador tem a ilusão, mas de um espaço virtual reconstituído no seu espírito, com o auxílio dos elementos fragmentários que o filme lhe fornece.

Esses três espaços correspondem a três modos de percepção pelo espectador da matéria fílmica. Eles resultam também de três abordagens, geralmente distintas, do pensamento do cineasta e de três etapas do seu trabalho, onde ele utiliza, a cada vez, técnicas diferentes. A da fotografia no primeiro caso, a da cenografia no segundo, da mise en scène propriamente dita e da montagem no terceiro. Para cada uma dessas três operações ele se beneficia de colaboradores especializados, os quais é de sua responsabilidade acordar as sensibilidades, a fim de que sua obra forme um todo coerente. Inútil sublinhar que a um contingente enorme de filmes falta essa unidade e que, por exemplo, as ambições da fotografia traem o espírito no qual foi construída a cenografia, uma vez que simplesmente não adensam o esforço de edificação da mise en scène.

Eric Rohmer, L'organisation de l'espace dans le Faust de MurnauUGE, 1977
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Há quanto tempo foi a última revolução ?




Glauber Rocha em As Armas e o Povo (1975)
Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica


(integravam o colectivo :  José Fonseca e Costa, José de Sá Caetano, Eduardo Geada, António Escudeiro, Fernando Lopes, António de Macedo, Glauber Rocha, Alberto Seixas Santos, Artur Semedo, Fernando Matos Silva, João Matos Silva, Manuel Costa e Silva, Luís Galvão Teles, António da Cunha Teles, António Pedro Vasconcelos, Ricardo Costa )


JLG par JLG 
auto-retrato de Dezembro 1994
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Anarchism in America
Steven Fischler, Joel Sucher, 1983

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E lá voltamos nós para plantar as faltas: 
desejamos chegar à vida adiante, rapidamente sentir o não sentido,  abrir ao escuro esse grande coração secreto que teme definhar em peito jovem. 
A solidão é a maior morada dos pensamentos puros. 
O cinema acontece na cabeça, finge sempre o outro que melhor couber a esse par de braços estendidos. N'importe qui. 

''Muito cedo na minha vida era tarde demais''
O AMANTE



AGATHA ET LES LECTURES ILLIMITÉES

Escada acima, escada abaixo, Duras fez vida de ir da sua pequena avenida até aos céus. A sua idade é das décadas quietas da mesma juventude revisitada, essa água donde mil vezes fez nascer o seu grande amor ausente, que à partida lhe deixou uma alma por resolver. 
Pela extensão da escrita, em cada dia se costura a memória - e o breve encontro de uma adolescência dura uma vida. Quinze anos e meio, apenas e para sempre, porque os desejos da juventude serão infinitos: o primeiro toque eternamente imprimido na primeira brancura de um corpo de mulher afaga a mortalidade de cada hora. 

Tudo cai e tudo muda mas, em segredo, um peito resiste :

"Uma pessoa nunca deve curar-se da sua paixão."
O AMANTE

''Nada os atingirá.''
AGATHA

''Porquê negar evidentemente a necessidade da memória?"

HIROSHIMA MEU AMOR

Já não era ele. O grande viajante de S.Thala, o príncipe do Ganges, o barqueiro do Mekong, o elegante diplomata bengalês, o desejável desconhecido das Indochinas, o estranho da praia, o belo chinês que lhe iniciou o corpo ao fim da tarde, num quarto quente em Laos. 
Todos variações do mesmo nome, o nome desse primeiro homem lançado sobre todos os outros. 
(O seu nome de Veneza numa Calcutá deserta.) 
Um duplo ataque do Tempo: 
sobre eles agora o peso de não terem chegado antes. 
Sobre ela, a busca vã pela vida já vivida. 
Embarquei com ele, feliz de ser como todas as outras. (...) Tudo foi pensado depois, no barco de volta a França : amei-o sem dúvida. (...) Era muito muito forte. Era para toda a vida.

''Dás-me um grande desejo de amar.''
HIROSHIMA MEU AMOR

 Moderato Cantabile, Peter Brook, 1960

''enquanto nada acontecer entre eles, a memória está amaldiçoada com o que não aconteceu.''
OLHOS AZUIS, CABELO PRETO

Das tuas mãos incessantes, uma caneta e um copo. 
Viajas de pernas torcidas nos cafés e ignoras o jornal dia após dia. Contra o rodopio do mundo vivo, a tua missão é sempre a de ir inventando a própria memória : 
A guerra acabou, o país já não existe, tu voltaste da colónia. 
Ele onde está?  
(- Por ti, meu amor, estou às mãos de ser.) 
Tu escreves.
Marguerite, tu escreves. (para sempre, destinada a chamar ''meu amor'' a uma página em branco). 
Foste tu quem, em India Song - Son Nom de Venise nos explicou como os nomes próprios são fôlegos muito secretos em espera, são feitiços que a língua vicia entre sussurros e suspiros, para dentro de si. 
Definimos todos os outros pelo nome : 
numa palavra, um sopro
numa velocidade, um coração

A memória faz-se numa esperança de amanhã.


A sala escura sonha a 
voragem em uníssono. 

Desenfreadamente se viveu até àquela hora de querer morrer nos lençóis onde o mundo parecia ter acabado. Foi ali que o caminho para o fim, por breve instante, se interrompeu.  S.Thala morada aos Eternos.





India Song (Marguerite Duras, 1975) 

O romance é um trabalho do espírito. 
Aquece em erotismo o mais banal, replica-se: O erotismo é intelecto projectado sobre um corpo, um rosto, um detalhe como uma tela branca pronta a abrir-se à vida do sonho. 
A paixão é um enredo em que se entra com vontade de vestir.  
As faltas gritam, os limites gritam. 
A narrativa quer ser completa pelos pormenores. 
Os olhos desejam afundar-se, 
desejam curar-se de um mundo afogando-se noutro. 
Tudo  é vontade de ver, e o projecto avança com a minúcia de imaginar o que ficou por experimentar. 

O teu trabalho, Marguerite, é literal - escrever romances. 
Doas páginas de onde se extraem lembranças de mundos primeiramente teus. Dás sentidos universais aos corpos interrompidos, essas faltas de onde o erotismo nasce. 
E depois as pessoas que tão bem escreves são peles que largas para a leitura vestir. 
E aí, tudo muda. 
Aí, acredita-se.


Il dialogo di Roma (Marguerite Duras, 1983) 

Mas o idealismo é o primeiro mandamento do espírito aberto. É mais fácil detalhar na nostalgia das horas cada vez mais longínquas. 

A paixão não é afinal a fome de deuses na terra? 

O desejo é um treino da imaginação: 

todos os corpos implicados têm o mesmo protagonismo. 

Tudo é e não é comum nestas danças de encontros e fugas. 


Indivíduos nunca serão senão individuais.

Cada qual irá plantar em si as expectativas. 

Cada qual há-de abrir os dedos, largar as roupas e fingir. 

Fingir fé. 

E um dia, peut-être, este amor será verdadeiro.

 E um dia, afastados entre si os corpos, este amor será perfeito.

Foi isto que Duras nos ensinou, lembrando como o desejo vive da ausência e como o tempo é a matéria da dedicatória -  até à idealização que melhor servir o propósito de contar a história (e toda a história é distância). 

No fim, todos os actores das circunstâncias perceberão como a ficção constrói o real. 

Como o real é o que acontece dentro da cabeça. 

E, em boa memória, há de facto horas perfeitas como filmes. 


La Femme Du Gange, Marguerite Duras, 1974

Todos os Verões sonhamos os Verões de Marguerite : 
os mesmos quartos de praia tão vazios de amor como os corpos ansiosos das mulheres ainda jovens que só toleram a perfeição por chegar. 
De olhos postos no mar, a súbita palavra certa há-de ficar por ouvir. 
Que estas são as mesmas ondas de Virginia, os batimentos da possibilidade: Agatha et Les Lectures Illimitées também é sobre amar profundamente sem saber a quem. Recolher as flores para quando Alguém chegar. 
Animar as horas com visões para a eternidade. 
Dedicar corpo fiel a alguém sem rosto. 
É uma imaginação admirável, verdadeiramente. 
O romance é uma das mais extraordinárias formas de viver: com ambição de infinito. 




(NEVERS. NEVERS EN FRANCE.) 






HIROSHIMA, MON AMOUR

Sabe quem se dá a si um espelho:
Os problemas dos espíritos cruzam os mesmos caminhos. 
O pensamento vicia círculos para voltar sempre às suas fundações. Para o pensar e para o sentir, nunca se parte de mãos vazias. 
E é porque os mesmos temas, lugares e sujeitos ressurgem no mundo de Duras que é comum ouvir-se  que ela é uma cineasta repetitiva ou uma escritora medíocre. 
Injustiças, quando foi das poucas que deu a ver, crua e lancinante, quão irremediável é a incompletude do corpo. 
Quão real é a solidão que se anima por pequenas afeições fechadas nos livros e nos filmes. 





Por enquanto, deixou-nos num último fundo de fé: 
um futuro por que se espera é uma salvação que não chegou ainda. 

As Mãos Negativas, Marguerite Duras (1979)



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mundos sem forma passam por mim.
(...)
Não são as paredes reles do meu quarto vulgar, nem as secretárias velhas do escritório alheio, nem a pobreza das ruas intermédias da Baixa usual, tantas vezes por mim percorridas que já me parecem ter usurpado a fixidez da irreparabilidade, que formam no meu espírito a náusea, que nele é frequente, da quotidianidade enxovalhante da vida. São as pessoas que habitualmente nos cercam, são as almas que desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.
O Livro do Desassossego


Rei das Rosas, W. Schroeter, 1986
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- oiço.

Henry David Thoreau in Walden

E.E. Merhige, Begotten, 1990

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