domingo, 12 de agosto de 2012

LOVE & ROADMOVIES / Hábeis a fugir de nós

''(...) O casal é como que o último escalão do grande colapso social. É o oásis no meio do deserto humano. Sob os auspícios do “íntimo”, procura-se aí tudo o que incontestavelmente abandonou as relações sociais contemporâneas: o calor, a simplicidade, a verdade, uma vida sem teatro nem espectador. Mas assim que passa a euforia amorosa, a “intimidade” mostra os seus pés de barro: ela própria é uma invenção social, fala a linguagem das revistas femininas e da psicologia; como todo o resto, encontra-se blindada de estratégias até a náusea. Não há mais verdade na intimidade do que noutro lado qualquer, também aí dominam a mentira e as leis da estranheza. E quando, por sorte, se encontra essa verdade, ela faz apelo a uma partilha que desmente a própria forma do casal. Aquilo que faz as pessoas amarem-se é também o que as torna passíveis de serem amadas, e arruína a utopia do autismo a dois. (...)'' 
A Insurreição que Vem, COMITÉ INVISÍVEL





They live by Night, Nicholas Ray, 1948

Bonnie and Clyde, Arthur Penn, 1967

Two Lane Blacktop, Monte Hellman, 1971

Stranger than Paradise, Jim Jarmusch, 1984

American Honey, Andrea Arnold, 2016

Thelma and Louise, Ridley Scott, 1991

Badlands, Malick, 1973

Pierrot le Fou, Godard, 1965

Passenger, Antonioni, 1975


Porque é que, sucessivamente, os filmes de fuga às normas, às leis, à sociedade, propõem um plano de fuga acompanhado, normalmente com um contexto amoroso? 
Porque é que escasseiam os filmes que idealizem uma fuga a sós?
Porque é que tão pouco se evoca o retiro do espírito para o isolamento na unidade derradeira do seu próprio corpo?
Porque esta fuga seria o último dos radicalismos: a dissolução da sociedade. E, apesar do projecto desconstrutor de cada uma das motivações, não há verdadeira anarquia nestes filmes de fuga: é, no fundo, a persistência da esperança no mundo o que eles narram. O casal ou o pequeno grupo de ideias convergentes propõem-se como unidade-basilar para a construção de uma nova sociedade. Persiste uma tribo. Persistem Adão e Eva. Persiste a reprodutibilidade, a juventude, a geração, o ciclo. Persiste uma hipótese de renovação para a espécie. Persiste o último dos optimismos. Afinal, quaisquer dias de estrada para nenhures são bons para, secretamente, recomeçar a civilização. 

Road to Nowhere, Monte Hellman, 2011

Sem comentários: