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Que inquieto desejo vos tortura, 
Seres elementares, força obscura? 
Em volta de que ideia gravitais?
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ANTERO DE QUENTAL


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Homem livre, o oceano é um espelho fulgente 
Que tu sempre hás-de amar. No seu dorso agitado, 
Como em puro cristal, contemplas, retratado, 
Teu íntimo sentir, teu coração ardente. 

Gostas de te banhar na tua própria imagem. 
Dás-lhe beijo até, e, às vezes, teus gemidos 
Nem sentes, ao escutar os gritos doloridos, 
As queixas que ele diz em mística linguagem. 
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BAUDELAIRE
excerto de "O Homem e o Mar", in As Flores do Mal
tradução de Delfim Guimarães


O Ritmo Antigo que Há em Pés DescalçosO ritmo antigo que há em pés descalços, 
Esse ritmo das ninfas repetido, 
Quando sob o arvoredo 
Batem o som da dança, 
Vós na alva praia relembrai, fazendo, 
Que 'scura a 'spuma deixa; vós, infantes, 
Que inda não tendes cura 
De ter cura, responde 
Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo 
Como um ramo alto, a curva azul que doura, 
E a perene maré 
Flui, enchente ou vazante. 


RICARDO REIS 
in "Odes" 


Festival, Jean-Claude Rousseau, 2010

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Da obediência ao western

sobre
Estrada de Palha de Rodrigo Areias

Estrada de Palha, dito um “western português”. Nenhum problema com a ideia: arrancado à sua mitologia específica, o western tornou-se uma linguagem, um conjunto de códigos, replicável noutros territórios e noutros cinemas que não os originais - provam-no os spaghettis, provam-no, no caso português, algumas experiências de aproximação ao género, Alentejo sem Lei de João Canijo (nos anos 90, série televisiva) ou mais recentemente um filme amador, por certo conhecido apenas pelos que o viram numa sessão da Cinemateca, Lost West de Mário Fernandes. Estrada de Palha traz a lição bem estudada, sobretudo na relação entre o género e a geografia, o terreno, a paisagem - no caso as terras altas, a serra, entre as Beiras e o Alto Alentejo (depois de um prólogo nórdico, filmado na neve finlandesa). Isto respira razoavelmente ao longo de boa parte do filme, marca-lhe o ritmo e a pontuação. Quando deixa de marcar, e a narrativa - história de vingança e “desobediência civil”, com excertos de Thoreau e um protagonista a que a partir daí se associa, ou se quer que se associe, a uma aura waldeniana - se torna predominante sobre o carácter alusivo que o filme assumiu, as suas fraquezas revelam-se: a “impressão” do western sustenta o filme, mas é incapaz de impedir que ele desabe. Estrada de Palha está à procura de se parecer com um western, mas fica sempre nessa exterioridade, enverga o género de maneira pouco orgânica, pouco interior, é quase um adorno. Tem como parecer-se, mas falta-lhe algo para ir além disso. Ainda assim, menos mal. Porque quando o adorno não funciona perde-se a capa que escondia as debilidades do filme: a profunda banalidade de todas as cenas de “interacção”, os diálogos pobrezinhos, a rigidez académica da mise en scène, as personagens, baças sem nunca serem, sequer, as silhuetas estereotipadas do spaghetti. Não é um filme indigno, mas é um objecto rudimentar no seu esforço copista, que falha por não ter nada de relevante, de “desobediente”, para dar um sentido - e uma vida - à cópia.

Luis Miguel Oliveira
in Ipsilon, 29.6.2012
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Foi uma revisão emotiva do Bambi (1942) - com cumprimentos a Manuel Mozos, que a inclui na sua lista ao BFI. (Lembro-me de achar muito bem pensado que vários créditos do Miguel Gomes - e provavelmente do Manuel Mozos também - agradecessem ao Walt Disney, uma referência que, sendo tão incontornável e disseminada, é também tão escassamente referida.)

Bambi traz, para sempre, a pureza da infância e dos corações grandes: amor puro, ternura, uma musicalidade mágica que o cinema perdeu com a falência do género musical, e que só sobrevive, talvez, em alguns filmes de animação. (A tentativa de Gomes de se aproximar dessa pureza que vem do imediato elo com a linguagem da música brota em todos os recantos d'Aquele Querido Mês de Agosto, é o mais próximo que vi no cinema contemporâneo dessa necessária reaproximação.)
É impossível não chorar a morte da mãe do Bambi e é impossível que não nos apiedemos de todos aqueles adoráveis animais, protegê-los com a imaginação de uns braços abertos do fogo das espingardas do homem, o impetuoso vilão que surge como força destrutiva de um éden harmonioso. Nada ali escapa à verdade. 

Inevitavelmente, volto ao discurso que ontem partilhava de Vandara Shiva : 
É preciso aceitar, pela consciência, tomar parte nos ciclos de que fazemos parte desde o nascimento. Este querer fazer parte, é aceitar ter nascido e corresponde à maioridade de cada um no seu trabalho sobre si, que é a sua tarefa de aceitação da vida. É o elo do reconhecimento da sua pertença à existência, sendo o ciclo de vida de cada um apenas mais um entre os restantes com que se deve conjugar. Querer fazer parte é aceitar a vida que lhe foi dada, e é aceitar a causalidade da acção enquanto vivente, sob a lei natural da Terra em que nasceu e vive - uma lei superior e maior que a relativa insignificância de toda a história da espécie humana. Sem antropocentrismos: a soberania humana sobre a natureza é o maior mito da história da civilização. (Olhe-se, por exemplo, para as notícias de hoje sobre Fukushima, exemplo de auto-aniquilação do Homem pelo Homem. Por sua vez, a natureza é regenerativa - o instinto de sobrevivência é comum a todas as espécies vivas, plantas e animais, e seria naturalmente copiado não fossem certas inclinações duvidosas que pautam um ''princípio de civilização''.)
Todos os agentes da vida são modificadores, e a acção humana não é excepção - mas declarar consciência de si é tomar parte numa vida activa de respeito pela natureza e pelos animais, e pelos equilíbrios naturais que fazem a terra girar. 
A mensagem que chega de Bambi não é só para crianças. Não ensinaríamos a um filho algo de essencial em que não acreditássemos nós mesmo. À passagem do ser humano pela terra cabe respeitar, tratar, cuidar da vida - para as gerações seguintes, para os nossos filhos ou filhos da nossa espécie. O ciclo de cada um é um sopro. O corpo caminha sobre o planeta mas o planeta gira, em primeiro lugar, no interior das nossas cabeças - a consciência da acção sobre a terra e os outros seres é o grande trunfo humano, passível de consequências visíveis no exterior e no interior.

Se passamos a inocente infância a abraçar coelhinhos de peluche, a brincar com cachorrinhos, e a tremer de terror com as mortes dos animais pelos 'adultos inexplicavelmente maus' nos desenhos animados, como explicar que, inaugurada a consciência adulta, na plenitude do seu esclarecimento, informação e realização da capacidade de escolha, não se exerça a razão e se viva sem que isso implique a morte a outros animais? Não é coerente. Queremos mesmo esse papel de Humanos...?

No que respeita ao sobre-consumo de animais, 
claro que ainda há os animais de caça (veados, aves, javalis, coelhos, lebres, etc)
há os animais marinhos (peixes, moluscos, crustáceos, etc) 
e outros, que correspondem a regimes de alimentação não ocidentais (répteis, insectos, certos mamíferos, etc).
Ainda, o sofrimento dos que são utilizados para experimentação (cosmética, farmacológica, etc),
 para divertimento (touradas, circos, parques temáticos, zoos, lutas, tv, etc) 
e para vestuário (casacos, botas, malas, cintos, etc)...

Não conseguimos mesmo deixá-los em paz, hum...?





ADENDA com notícia recente :  
Rapaz de 26 anos, forcado, vai ficar paraplégico, na sequência de pega de touros, na passada noite de quinta-feira, 30 de Agosto, no Campo Pequeno :  http://diariotaurino.blogspot.pt/2012/09/infelizmente-o-forcado-nuno-carvalho.html
e ainda há quem defenda esta barbárie, que exerce violência sobre todos, humanos e animais?

PS. Às invariáveis acusações de moralismo que sempre me são levantadas, bom, eu respondo assim, com a simplicidade de uma crença: o moralismo é um mal necessário. Assumi no passado, partilhar tudo o que se afigurasse enquanto verdade - a minha verdade, certamente, nunca me alheio à consciência da minha subjectividade. Se neste processo de encontrar sentidos nenhumas são as garantias de encontrar verdades, tudo o que se me adiante como razoavelmente próximo de algo verdadeiro há-de contribuir enquanto alicerce franco para segurar a restante estrutura da dúvida. Julguei então que seria o dever de partilhar o que também busco - e este é o meu espaço, o espaço onde me dou. Não fui talhada para as insistências da pregação - todas as palavras voam e só as agarra quem quer.

"Sabemos que é verdade aquilo que o contrário nos impede de pensar." Leibniz
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I'm profoundly optimistic about nothing. (...) Just existing for a moment. Existing today. 
Francis Bacon



Blade Runner, Ridley Scott,  1982







 1984, Michael Radford, 1984



The Dream of Human Life, Michelangelo (1533)
Without Hope, Frida Kahlo, 1945



"I went to the woods because I wished to live deliberately, to front only the essential facts of life, and see if I could not learn what it had to teach, and not, when I came to die, discover that I had not lived. I did not wish to live what was not life, living is so dear; nor did I wish to practice resignation, unless it was quite necessary. I wanted to live deep and suck out all the marrow of life, to live so sturdily and Spartan-like as to put to rout all that was not life, to cut a broad swath and shave close, to drive life into a corner, and reduce it to its lowest terms, and, if it proved to be mean, why then to get the whole and genuine meanness of it, and publish its meanness to the world; or if it were sublime, to know it by experience, and be able to give a true account of it in my next excursion."


Henry David Thoreau (in Walden, 1854)



Sétimo Selo, Ingmar Bergman, 1957

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