sexta-feira, 18 de maio de 2012

noite tanta


Willow Springs, Werner Schroeter, 1973
Duvidha, Mani Kau,  1973

REQUIEM PARA O MUNDO PERDIDO

É noite, eu sei. Mas como é tanta a noite
que nada resta humano entre os mortais?
Como tão negra e espessa, tão nocturna
ainda se esconde em luz do sol e em estrelas,
ainda a atravessa, embora fluído, o luar?
Como vivemos e porquê, se as sombras
nem sequer se projectam, devoradas
pelo restar das coisas insensíveis
que são vazio de órbitas sem astros
entrelaçados, virtuais, não sendo?
Porquê e para quê, se nada somos,
se nada mais sonhamos de completo
amor que a tudo mova e nos refaça?
Humanos éramos quando o desejo
nos dava a angústia de não sermos já
mais do que as coisas resistindo ao espanto.
Palavras inda são fímbria de sol,
de estrelas e planetas, são memória
da integridade que só espera nelas
o sopro derradeiro que a dissolva.
Nesta noite do mundo, nada resta
de humano e de sensível; nada resta
que tempo seja e que limite o espaço,
precisamente quando o tempo é espaço
que em si mesmo se move limitado.
Nocturna a noite é tão trans-noite que
nada somos nem fomos nem seremos
daquela falsa bem-aventurança
de quando o sofrimento nos doía
lá onde a dor era uma imagem cénica
no espelho embaciado que partíamos
sem que nenhum dos cacos rebrilhasse,
imagem que eram sem vidraça ou estanho.
Ali como a noite é tanta, como é noite
o tanto que seríamos felizes!
Mas não resta mais nada; instante a instante,
mortais mas não de humanos mais que efígie
parada, envelhecendo. E breves são
os toques delicados, a violência
de que palpita o triturar da carne.
Vento perpassa arrepiando efémera
a escassa pele tão crestada pela
secura em que águas se atomizam.
Falávamos de inferno. Acaso ainda é memória de um sentido? Acaso a mú-
sica ressoa no deserto mi-
croscópico e sem cor, gelado e quente?
Nem pegajosa ao menos se demora
a noite. É noite, eu sei. Nunca pensei
que o fosse tanto, tanto, que nem noite
— das órbitas vazias de partículas
anónimas voando em luz extinta —
obscura, inominada, noturnal,
zodíaco de meses sem figura.
E debruçado, pensativo, um rosto
sem traços ou feiçõs tem noite dentro
e fora do perfil, fora da linha
em que uma testa, o supercílio, as ór-
bitas, nariz, o recurvar dos lábios,
o queixo, linha são contínua e pura
de uma pureza que não significa.
Nem mesmo, noite em noite, esse perfil
se vê. Quem o veria? Com que olhar
e com que luz na treva iluminada?
Morramos de estar mortos, esvaindo
em pura perda que não existe
entre anjos que não há e os viventes
que como nós não vivem. Como pedras
sejamos, transmutáveis no destino
de raios que matéria se transformam
na perda em espaço do passar do tempo.
Pedras amantes e nocturnas que
se chocam como seixos nas espumas
do mar que os lava. Mas, se humanidade
subitamente vier de tanta noite,
de outrém será que não do espelho negro
de humano se não ser entre os mortais.

JORGE DE SENA9-10/11/1962 

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