terça-feira, 1 de maio de 2012

Dúvida

Notre Nazi, Robert Kramer - com Thomas Harlan, 1985

Este é um daqueles fades da história do cinema que eu nunca vou compreender.

4 comentários:

Luís Mendonça disse...

Podes desenvolver mais?

Sabrina D. Marques disse...

Robert Kramer afinal realiza este filme junto de um companheiro, Thomas Harlan, convergente em termos ideológicos mas com um percurso bastante peculiar e "acidentado". Em "Notre Nazi", filmado nos backstages de Wundkanal, filme de Harlan, acusa-se este antigo comandante nazi, diabolizado com a câmara de filmar, arrancando dele um ar monstruoso e mórbido, e provocando nele um tom de confissão arrependida.
Apesar disso, há permanentemente em Thomas Harlan uma evocação e reflexão do seu próprio passado, pelo qual se responsabiliza sempre, até à sua morte : filho de Veit Harlan, um realizador comprometido com o regime nazi, é ligado a actividades desde cedo, tendo sido comandante da marinha nazi aos 22 anos, antes de ir estudar para Paris, e aí assumir o seu lado revolucionário.

“É uma história infame, e não posso imaginar que nem mesmo os filhos dos filhos dos meus filhos possam algum dia ser completamente dissociados dela.” Thomas Harlan

Apesar de se encontrar no espectro ideológico oposto ao seu pai, também se torna realizador, mas põe o seu cinema ao serviço da "causa revolucionária". Em "Notre Nazi", fala o seu passado, acusando a "injustiça da falta de justiça" contra o próprio pai.

Acho que este é um filme extremamente interessante devido à confluência permanente de sentimentos dos "espectros bons e maus" : Se o nazi fascista por um lado chora a morte do irmão, e isso nos comove, Thomas Harlan rejeita e diaboliza o próprio pai e restante família que o defende, levando as suas convicções até ao limite, impermeável aos laços de sangue;

Mas este fade pareceu-me francamente misterioso... É interessante pensarmos que este fade nos transmite que o bem e o mal não têm fronteiras delineáveis e estão presentes em simultâneo - a própria biografia do Thomas Harlan é o primeiro exemplo.
Mas perguntava-me... como é que, no mesmo filme que se esforça tanto em termos estilisticos e visuais para deformar aquela figura do comandante cada vez que o filma, se pode fazer um fade do rosto deste com o de Harlan?
Continua para mim um mistério o que quis Kramer muito tenuamente sublinhar com isto.
Aceito interpretações.

Sabrina D. Marques disse...

Há um artigo do Público (2011) sobre isto, que diz :
"(...)
A obra artística de Harlan reflecte as mesmas preocupações. Para o seu primeiro filme após Torre Bela, Wundkanal (ou Ferida de Bala,
de 1984), convenceu um antigo comando das SS, Alfred Filbert, a protagonizar uma ficção singular: Filbert encarnava um criminoso de guerra nazi raptado por um grupo de extrema-esquerda e obrigado
a confessar os seus crimes. Supostamente uma obra de ficção, Wundkanal converte-se numa confissão autêntica. À época, o crítico americano Harlan Kennedy escreveu na revista Film Comment: “O veterano das SS de cara de cadáver está sempre a puxar pela nossa relutante paciência. Enquanto a câmara o sonda, as lágrimas começam ao relembrar-se do irmão, que morreu num campo de concentração depois de falar contra o Führer. Por vezes, Alfred parece um idoso injustamente acossado... Depois, damo-nos conta do horror da nossa compaixão por um idoso que ajudou a matar onze mil judeus... E então perguntamo- nos se, mesmo com um homem como este, não deveríamos sentir compaixão... E lentamente o filme começa a remexer no sentido ético do espectador.”;
(...)
"No entanto, Thomas parecia encontrar conforto no facto de Veit Harlan o ter chamado para um último encontro. “Morreu nos meus braços, e estou-lhe incrivelmente agradecido por isso. Se eu tivesse um filho que me fizesse 10 por cento daquilo que fiz, nem lhe apertava a mão. É uma traição inacreditável, aquela que eu fiz. Senti que estava a fazer o que tinha de ser feito, e que, ao mesmo tempo, era uma coisa insuportável. Mas ele conseguiu compreender isso, e foi ele próprio quem preferiu morrer nos meus braços e não nos de outra pessoa.”
Harlan parece ter desejado permanecer para sempre "o favorito" do pai. E, com a sua intransigência, talvez tenha feito mais para humanizar a imagem de Veit Harlan do que os outros filhos na sua lealdade canina."

Sabrina D. Marques disse...

Mais alguns dados:

"Harlan, son of Third Reich filmmaker Veit Harlan, has got hold of a Nazi war criminal "Alfred F.", released from prison in 1977 and shoved him in front of the camera for a two-hour docudrama interrogation. Playing a thinly fictionalized version of himself, the cadaver-faced SS veteran keeps tweaking our reluctant sympathy. As the camera probes, the tears start as he recalls his brother, who died in a concentration camp after speaking out against the Führer.At times Alfred FF seems like an unjustly bullied old codger.... And then we realize the ghastliness of our own compas sion for a codger who helped to kill 11,000 Jews.... And then we wonder if, even with a man like this, one shouldn't feel compassion. ...And slowly the movie pries open the spectator's ethics. Kramer's film about the filming is, if anything, even more riveting. His two-hour video record throws as harsh a light on Harlan as on Herr F, as it becomes increasingly clear that the director's enthusiasm is not only for unearthing the truth but for exorcising his guilty love for his father, who died an unpunished and well-cushioned death on Capri."
Harlan Kennedy