Level 5, Chris Marker, 1997




Inland Empire, David Lynch, 2006
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cheating Hays (code).


Casablanca, Michael Curtiz, 1942
Prefácio a The Atrocity Exhibition, de JG Ballard, 
por William S. Burroughs 1990


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 Die Brücke 1905

"(...) 
O que não acontece depois (e não acontece hoje), por razões que são diversas, e que têm a ver com a própria sociedade portuguesa, e com a ausência do aparecimento de grupos, é a criação de uma equipe desse género, homogénea, sintonizada com outros grupos políticos (...) e que actue em conjunto em nome de um programa radical em vários pontos. (...) Julgo que não é porque houve um peso castrador que os impediu. Julgo é que depois da revolução, sobretudo depois do fim da revolução, e com um reprotegimento do individualismo, as pessoas mesmo quando confraternizam e convivem, se sentem menos motivadas para uma acção de grupo. A fazer um manifesto, no princípio dos anos 80, dizendo : morreu o cinema novo, o cinema novíssimo vai começar!"
João Bénard da Costa, diálogos com Manuel Mozos, 1996

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Max, Stan Brakhage (2002)


[EU NÃO TINHA NADA DE FELINO, TU SABIAS]


Eu não tinha nada de felino, tu sabias
que eu não tinha nada de felino.
Nenhum de nós se admirou quando
medi mal a distância e falhei o salto.
Enquanto ia no ar parecia que era
um salto bom, porém houve qualquer
coisa que correu mal e caí com estrondo
no chão. Ninguém riu. Não era caso
para rir. Grande ilusão ir pelo ar a pensar
que o salto podia ser bom, sem eu ter
nada de felino, sem nunca ter treinado,
sem fazer sequer aquecimento, sem
olho para medir distâncias. Saber medir
distâncias é uma coisa muito importante,
pode falhar-se a vida por milímetros.

HELDER MOURA PEREIRA

Telhados de Vidro, n.º 20, Averno, Lisboa, 2015.
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Willow Springs, Werner Schroeter, 1973
Duvidha, Mani Kau,  1973

REQUIEM PARA O MUNDO PERDIDO

É noite, eu sei. Mas como é tanta a noite
que nada resta humano entre os mortais?
Como tão negra e espessa, tão nocturna
ainda se esconde em luz do sol e em estrelas,
ainda a atravessa, embora fluído, o luar?
Como vivemos e porquê, se as sombras
nem sequer se projectam, devoradas
pelo restar das coisas insensíveis
que são vazio de órbitas sem astros
entrelaçados, virtuais, não sendo?
Porquê e para quê, se nada somos,
se nada mais sonhamos de completo
amor que a tudo mova e nos refaça?
Humanos éramos quando o desejo
nos dava a angústia de não sermos já
mais do que as coisas resistindo ao espanto.
Palavras inda são fímbria de sol,
de estrelas e planetas, são memória
da integridade que só espera nelas
o sopro derradeiro que a dissolva.
Nesta noite do mundo, nada resta
de humano e de sensível; nada resta
que tempo seja e que limite o espaço,
precisamente quando o tempo é espaço
que em si mesmo se move limitado.
Nocturna a noite é tão trans-noite que
nada somos nem fomos nem seremos
daquela falsa bem-aventurança
de quando o sofrimento nos doía
lá onde a dor era uma imagem cénica
no espelho embaciado que partíamos
sem que nenhum dos cacos rebrilhasse,
imagem que eram sem vidraça ou estanho.
Ali como a noite é tanta, como é noite
o tanto que seríamos felizes!
Mas não resta mais nada; instante a instante,
mortais mas não de humanos mais que efígie
parada, envelhecendo. E breves são
os toques delicados, a violência
de que palpita o triturar da carne.
Vento perpassa arrepiando efémera
a escassa pele tão crestada pela
secura em que águas se atomizam.
Falávamos de inferno. Acaso ainda é memória de um sentido? Acaso a mú-
sica ressoa no deserto mi-
croscópico e sem cor, gelado e quente?
Nem pegajosa ao menos se demora
a noite. É noite, eu sei. Nunca pensei
que o fosse tanto, tanto, que nem noite
— das órbitas vazias de partículas
anónimas voando em luz extinta —
obscura, inominada, noturnal,
zodíaco de meses sem figura.
E debruçado, pensativo, um rosto
sem traços ou feiçõs tem noite dentro
e fora do perfil, fora da linha
em que uma testa, o supercílio, as ór-
bitas, nariz, o recurvar dos lábios,
o queixo, linha são contínua e pura
de uma pureza que não significa.
Nem mesmo, noite em noite, esse perfil
se vê. Quem o veria? Com que olhar
e com que luz na treva iluminada?
Morramos de estar mortos, esvaindo
em pura perda que não existe
entre anjos que não há e os viventes
que como nós não vivem. Como pedras
sejamos, transmutáveis no destino
de raios que matéria se transformam
na perda em espaço do passar do tempo.
Pedras amantes e nocturnas que
se chocam como seixos nas espumas
do mar que os lava. Mas, se humanidade
subitamente vier de tanta noite,
de outrém será que não do espelho negro
de humano se não ser entre os mortais.

JORGE DE SENA9-10/11/1962 
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they are coming. 

As novas eras

As novas eras não começam de uma vez.
Meu avô viveu já nos novos tempos
Meu neto com certeza viverá ainda nos velhos.

A carne nova é comida com os velhos garfos.

Não foram os veículos motorizados
Nem os tanques
Não foram os aviões sobre nossos tetos
Nem os bombardeiros.

Das novas antenas vieram as velhas bobagens.
A sabedoria distribuíu-se de boca em boca.

BRECHT














 Zemlya- Terra (Aleksandr Dovzhenko1930)
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If you want a vision of the futureimagine a boot stamping on a human face - forever. 
George Orwell
Migrant Mother, 1936


I saw and approached the hungry and desperate mother, as if drawn by a magnet. I do not remember how I explained my presence or my camera to her, but I do remember she asked me no questions. I made five exposures, working closer and closer from the same direction. I did not ask her name or her history. She told me her age, that she was thirty-two. She said that they had been living on frozen vegetables from the surrounding fields, and birds that the children killed. She had just sold the tires from her car to buy food. There she sat in that lean-to tent with her children huddled around her, and seemed to know that my pictures might help her, and so she helped me. There was a sort of equality about it.
Dorothea Lange


Grapes of Wrath - John Ford, 1940




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