sexta-feira, 6 de abril de 2012

"a saudade faz-lhe companhia."

Trás-os-Montes, António Reis e Margarida Cordeiro, 1976

XI. 
Lamento de um braço que ficou a
acenar àquele que partia. (A D. Fernando e Glória
largava da doca do Conde de Óbidos.)
Não a afligiu o desacerto da bandeira na varanda da fragata
sobre o rio.    O braço
nos seus dois longos ossos
demorava o adeus

pode alguma vez pode em algum dia
alguém abrir uma velha pasta de desenhos
e ver-se no tempo passado da imagem, no esbatido negro dos
ossos desse braço

a saudade
faz-lhe companhia
o desamparo quer somente dizer :   pode a minha morte partilhar a
tua morte, descobrir recíproco sentido
pode o velho livro de desenho
abrir o teu braço e calar o adeus de um morto a outro morto.

João Miguel Fernandes Jorge
in "Jardim das Amoreiras - vinte e cinco poemas para vinte e cinco estudos
anatómicos de Vieira da Silva", 2003

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